Análise | Mouthwashing – A culpa é uma sentença sem fim
Mouthwashing chega às consolas com terror psicológico claustrofóbico, narrativa fragmentada e uma tripulação condenada à deriva no espaço.
Jogo: Mouthwashing
Disponível para: PC, PlayStation 5, Nintendo Switch, Xbox Series
Versão testada: Nintendo Switch
Desenvolvedora: Wrong Organ
Editora: Critical Reflex
Há jogos de terror que assustam com monstros; outros deixam-nos a sós com pessoas capazes de fazer coisas piores. Mouthwashing, do estúdio Wrong Organ, aposta na segunda hipótese. Depois de conquistar atenção no PC em 2024, chega às consolas com uma história curta e desconfortável.
A bordo da Tulpar, um cargueiro espacial da Pony Express, cinco tripulantes tentam sobreviver após um acidente que destruiu qualquer hipótese de regresso. O capitão Curly provocou a colisão com um asteroide e ficou mutilado, mas sobreviveu. Com pouca energia, comida e material médico, a tripulação tem meses até tudo acabar. A tensão nasce das relações entre estas pessoas.
A narrativa salta entre o período anterior ao desastre e os meses seguintes, alternando entre Curly e Jimmy, o copiloto que assume o controlo após o acidente. A estrutura obriga-nos a recompor os acontecimentos através de diálogos, pormenores do cenário e sequências de pesadelo. As mudanças de perspetiva baralham a confiança no que vemos, reforçando os temas da culpa e da memória. Convém evitar spoilers: Mouthwashing sabe esconder informação e deixar uma revelação cair como um murro no estômago.
O isolamento, a fome e a pressão expõem o pior de cada personagem. A cultura corporativa da Pony Express surge em cartazes e símbolos sorridentes, tornando o ambiente inquietante. O jogo aborda temas pesados e algumas cenas são difíceis de ver. A estátua de Polle, mascote da empresa, resume bem esse humor corporativo sinistro. Recusa facilitar o julgamento dos protagonistas, obrigando-nos a encarar a responsabilidade por detrás das decisões. Nem tudo resulta, porém: por vezes, o simbolismo é tão opaco que a interpretação depende mais do jogador do que da narrativa.
Na prática, Mouthwashing é sobretudo um simulador de caminhada em primeira pessoa, com exploração, interações e pequenos puzzles. As três horas de duração ajustam-se a uma história que mantém o ritmo sem tarefas redundantes. Basta observar o cenário e perceber que objeto pode ser útil, deixando o foco na narrativa. Os gráficos de inspiração PS1, com modelos angulosos e espaços apertados, reforçam a sensação de estar preso numa nave sem saída. Mas é o som que faz grande parte do trabalho: passos, ruídos e silêncios ganham peso, enquanto a música surge com contenção e os sustos não dependem apenas do volume.
Na Nintendo Switch, o jogo corre bem no modo portátil e na televisão, também sem problemas na Switch 2. Jogar com a consola nas mãos torna a proximidade com a tripulação mais desconfortável. A exploração responde bem, mas algumas interações exigem ajustes de sensibilidade e a sequência de combate com arma é desajeitada, incentivando soluções pouco elegantes, como esperar escondido num canto. O problema interrompe a tensão por momentos numa aventura que quase nunca precisa de ação.
Mouthwashing não é para quem procura sustos constantes ou respostas mastigadas. A história de culpa, abuso de poder e degradação humana ecoa depois dos créditos e ganha novas camadas numa segunda passagem. Os controlos têm arestas, mas a vontade de voltar para ligar pistas torna a curta duração menos relevante.
Nota: 9/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.




