Central Comics

Notícias, críticas e novidades de banda desenhada, cinema, séries, animação, videojogos e cultura geek desde 2001.

Amore – Mais uma obra-prima de Zidrou? | Análise

Amore é uma daquelas bandas desenhadas que eu queria ler desde que foi anunciada pelo autor. E, em agosto deste ano, a BD foi publicada pela editora A Seita, em parceria com A Arte de Autor, e já a considero uma das melhores do ano.

AMORE

O nome que mais me atraiu para esta leitura foi o de Zidrou, um dos melhores argumentistas da atualidade — autor de obras como Verões Felizes, A Adoção e A Fera. Mas quem me surpreendeu mesmo foi o desenhador David Merveille (também autor de Alessia), um artista que agora quero acompanhar de perto.

Amore é uma história de amor — na verdade, várias histórias de amor. São nove contos curtos, cada um a explorar o sentimento de uma forma diferente: há histórias mais comoventes, outras mais apaixonadas, algumas que apelam à nostalgia. Nada aqui é repetitivo; cada capítulo capta uma faceta distinta do amor. Todas se passam em Itália, nos anos 50 e 60, o que justifica o subtítulo Amor à italiana.

O que torna a estrutura do álbum especialmente interessante é o facto de estas nove histórias não serem apenas uma sequência solta de contos: encaixam-se dentro de uma décima história, que funciona como moldura para o conjunto. Não é uma colagem aleatória — há um pensamento claro por trás da montagem.

O fio condutor de tudo isto é a paixão de Zidrou e, sobretudo, de David Merveille por Itália. Numa entrevista ao site da editora francesa Delcourt, responsável pela publicação original, os dois contam que a ideia inicial de Zidrou era ambientar a banda desenhada em Espanha — mas Merveille insistiu que tinha de ser em Itália, e assim ficou.

AMORE

Entre as nove histórias, a que mais me marcou foi Pietro & Ada, que conta a trajetória de um casal na perspetiva do filho. Logo no início, ficamos a saber que os dois já morreram, e é a partir daí que o filho narra como eles formavam o casal mais perfeito que alguma vez conheceu. Uma história lindíssima, daquelas que nos deixam com os olhos rasos de água no final da leitura.

Menção honrosa também para La Befana, o conto que mais me apanhou de surpresa nesta edição — foi ele que me fez perceber que as histórias aqui não tratam necessariamente de um amor convencional, água com açúcar.

Quanto à décima história, que aparece no prólogo e no epílogo a amarrar o conjunto, há quem a considere dispensável, já que os nove contos se sustentam por si próprios. Eu, no entanto, gostei de ter esse fio condutor, a dar uma sensação de unidade ao álbum — algo que normalmente não acontece em bandas desenhadas compostas por contos. Esta história não trata do amor da mesma forma que as restantes, mas faz todo o sentido dentro da narrativa geral.

No final de contas, Amore apanhou-me de surpresa pela sensibilidade das histórias e pela beleza da arte de David Merveille. E, se há um ponto que merece destaque especial, é precisamente a arte de Merveille: um traço lindíssimo, não necessariamente realista, acompanhado por uma paleta de cores impressionante — que me faz lembrar os trabalhos de Luckas Iohanathan, em que cada história ganha um tom de cor próprio. É exatamente isso que acontece em cada um dos contos de Amore.

Amore é uma história — ou várias — lindíssima sobre o amor, que vai tocar cada leitor de uma forma diferente, seja por se identificar com algumas das histórias apresentadas, seja pela forma como outras subvertem as expectativas. Mais um grande trabalho de Zidrou.

AMORE

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Verified by MonsterInsights