Análise | Tom the Postgirl – Curiosidade com consequências
Tom the Postgirl é uma aventura narrativa de humor negro em que uma nova distribuidora de correio usa as entregas como desculpa para espiar os vizinhos.
Jogo: Tom the Postgirl
Disponível para: PC, Nintendo Switch
Versão testada: Nintendo Switch
Desenvolvedora: Oopsie Daisies, ARTE France
Editora: ARTE Experience

Tom arranja trabalho nos correios de uma aldeia aparentemente pacata, mas depressa percebemos que a normalidade é só fachada. Cada entrega abre uma oportunidade para espreitar casas, descobrir segredos e confirmar que os habitantes escondem comportamentos tão estranhos quanto inquietantes. A protagonista também não é propriamente um modelo de virtude. O nome brinca com a expressão “peeping Tom” e o jogo deixa claro que a sua curiosidade ultrapassa, e muito, os limites da boa educação.
A identidade visual é um dos maiores trunfos de Tom the Postgirl. O mundo desenhado à mão combina preto e branco com apontamentos de vermelho, sobretudo no casaco e no laço da protagonista. O resultado parece saído de um livro infantil que tomou um rumo bastante errado. Há uma estação de selos com uma língua que se mexe, galinhas que jogam às cartas enquanto o dono dorme e um pescador a preparar um fato de tritão. São pormenores absurdos que não precisam de explicação para funcionar.
A decisão de contar a história sem diálogos, texto ou narração podia ser um obstáculo, mas acaba por dar personalidade à aventura. Gestos, enquadramentos e pequenas reações comunicam o essencial, enquanto a exploração recompensa quem abranda para observar. Espreitar por janelas, fendas nas portas ou buracos nas paredes torna-se o principal instrumento de descoberta. Quanto mais tempo insistimos em observar alguém, mais provável é provocar uma reação desconfortável. É humor negro construído através da ação, não de piadas explicadas ao jogador.
O trabalho de carteiro serve também de desculpa para escolher que tipo de pessoa queremos ser. Podemos entregar as encomendas e seguir caminho, ou abrir correspondência, bisbilhotar e até sabotar jardins. As chamadas ações vermelhas avisam quando estamos prestes a tomar uma decisão permanente, com impacto nos caminhos narrativos e nos finais. Esta liberdade dá vontade de experimentar abordagens diferentes e procurar segredos em partidas posteriores. Ainda assim, quem espera sistemas elaborados ou desafios de puzzles particularmente exigentes poderá achar a interação simples demais.
Tom the Postgirl tem uma escala modesta, mas sabe o que quer fazer. O humor é deliberadamente desconfortável, o visual distingue-se e a ausência de palavras obriga-nos a ler o mundo com atenção. Nem todas as interações têm a mesma força, e a simplicidade mecânica pode limitar o interesse de quem procura algo mais complexo. Para quem aprecia aventuras narrativas estranhas, com uma sensibilidade entre o adorável e o perturbador, esta ronda de entregas merece ser feita.
Nota: 7,5/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.



