Análise mangá: Gannibal Vol. 6 (A Seita)
Canibais, segredos de família e uma aldeia onde ninguém parece ser verdadeiramente inocente!
Se há séries de mangá que conseguem agarrar o leitor desde as primeiras páginas, Gannibal é definitivamente uma delas. Masaaki Ninomiya tem vindo a construir um thriller de terror psicológico que não se limita ao choque visual ou à violência explícita. Há algo de profundamente perturbador na forma como nos apresenta a pequena aldeia de Kuge, um lugar onde as tradições parecem esconder algo muito mais sombrio do que aquilo que os seus habitantes querem fazer acreditar. Neste sexto volume, continuamos a acompanhar Daigo Agawa, o polícia que decidiu investigar os segredos da família Goto, apesar de todos os perigos que isso representa para si e para a sua própria família.
Daigo está cada vez mais próximo de descobrir a verdade. O mistério em torno dos alegados hábitos canibais dos Goto continua a ser o motor da narrativa, mas Ninomiya sabe perfeitamente que não pode viver apenas dessa premissa. O autor vai acrescentando novas camadas à história, revelando fragmentos do passado e mostrando-nos que, por detrás da aparente normalidade de Kuge, existe uma estrutura de poder assente no medo, na lealdade e em segredos que passam de geração em geração. O confronto com Keisuke assume particular importância neste volume. Ao aproximar-se de uma das figuras centrais da família Goto, Daigo deixa de estar apenas a juntar pistas e passa a enfrentar diretamente as pessoas que podem dar respostas às suas perguntas. Mas será que conhecer a verdade é suficiente para compreender aquilo que realmente se passa nesta aldeia? É precisamente nesta ambiguidade que Gannibal funciona tão bem. O leitor quer respostas, naturalmente, mas cada nova revelação parece abrir outras portas e levantar dúvidas adicionais. E, quando pensamos que começamos finalmente a perceber a dimensão deste pesadelo, a narrativa lembra-nos que ainda há muito por descobrir.
Outro dos pontos fortes da obra é a forma como o autor trabalha a violência. Não estamos perante violência gratuita utilizada apenas para impressionar. A brutalidade faz parte da identidade deste universo e contribui para a sensação constante de insegurança. Em Kuge, ninguém parece estar verdadeiramente a salvo e até os momentos de aparente tranquilidade escondem uma ameaça difícil de ignorar. Visualmente, Masaaki Ninomiya continua a ser uma das grandes razões para acompanhar esta série, foi sem dúvida o que me chamou a atenção desde o início, além da premissa diferente e fora da caixa. Como já referi várias vezes,o seu traço é expressivo, cru e, por vezes, deliberadamente grotesco. Os rostos, as expressões e os enquadramentos ajudam a construir uma atmosfera de desconforto que combina na perfeição com o tom da narrativa. Há imagens que parecem saídas de um pesadelo, não necessariamente pela quantidade de sangue que apresentam, mas pela forma como distorcem aquilo que reconhecemos como humano. É uma arte que sabe quando deve mostrar e quando deve deixar o leitor completar mentalmente aquilo que está a acontecer. E, num thriller de terror, essa capacidade é fundamental. Afinal, muitas vezes, aquilo que imaginamos consegue ser bastante pior do que aquilo que vemos.
Este sexto volume também beneficia do desenvolvimento gradual do mistério. Em vez de despejar todas as respostas de uma só vez, Ninomiya continua a construir a história através de revelações que ajudam a compreender melhor as relações entre as personagens e o passado da família Goto. A componente psicológica ganha força e o conflito deixa de ser apenas uma investigação policial para se transformar num confronto com uma comunidade que parece ter aprendido a conviver com o inaceitável.
Naturalmente, quem procura respostas definitivas poderá sentir alguma frustração, já que a narrativa continua a reservar informação importante para os volumes seguintes. No entanto, considero que esta progressão é uma das características que tornam Gannibal tão viciante. O autor sabe manter o leitor preso à história sem perder de vista o desenvolvimento das personagens e a construção do seu universo. Esperemos que a editora ASEITA consiga acelerar um pouco o ritmo de edição para não perder por tanto tempo o fio à meada.
A edição portuguesa da A Seita, integrada na coleção Ikigai, apresenta-nos mais um capítulo desta história que merece ser acompanhada com atenção. Com 192 páginas, este volume mantém o foco na narrativa e no ambiente que têm distinguido a série desde o início. Em suma, Gannibal Vol. 6 é mais uma excelente entrada numa série que continua a surpreender pela forma como combina terror, mistério e drama psicológico. Masaaki Ninomiya demonstra que o verdadeiro horror não reside apenas na possibilidade de uma família praticar canibalismo, mas também na facilidade com que uma comunidade pode normalizar comportamentos monstruosos quando existem interesses, tradições e relações de poder a proteger.
Se já acompanham a série, este volume é mais uma peça importante do puzzle. Se ainda não conhecem Gannibal, recomendo vivamente que lhe deem uma oportunidade, desde que estejam preparados para uma história violenta, desconfortável e sem grandes preocupações em poupar o leitor.
Por mim, continuo a querer descobrir todos os segredos de Kuge. O problema é que, quanto mais peças encaixamos, mais desconfiamos de toda a gente. E, sinceramente, numa aldeia destas, talvez seja mesmo melhor não aceitar convites para jantar!

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.



