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Entrevista ao autores de “Astérix e o Grifo”!

O novo álbum Astérix e o Grifo está a chegar (sai a 21 de Outubro) e os fãs e os leitores têm muitas questões. Os autores respondem a algumas delas e ainda desvendamos mais informações sobre este lançamento.

Porquê a escolha desta zona geográfica para o 39.º álbum?

Eu queria sugerir um território longínquo, uma espécie de «reino sármata» imaginário. Daí a escolha de uma zona situada entre a Rússia, a Mongólia e o Cazaquistão. Foram descobertos vestígios de sepulturas de guerreiros nómadas nestas regiões do extremo da Europa oriental, e acontece que um tal Aristeas
de Proconeso, poeta grego nascido por volta de 600 a.C., situou nessas paragens os seus estranhos relatos de viagens.
Isso deu-me a ideia de seguir os seus passos e de fixar aí mesmo o meu povo sármata e o seu folclore à base de iurtes e xamãs.

O que é que o fascinou nesse povo? Como é que se documentou?

Há alguns livros sobre os Sármatas (os de Laroslav Lebedynsky, por exemplo). Mas a ideia não era fazer de historiador. Um pouco como uma Sildávia imaginária, pareceu-me divertido inventar um território, com o seu folclore e as suas crenças. Isso rompe um pouco com a tradição de Astérix visitar países reais e permite um ambiente de conto que se adequa muito bem à suposta presença de um animal fantástico. A história explica por que razão este grifo se encontra em tão longínquas paragens a Leste de Roma!

Quanto a documentação, tanto eu como o Didier nos baseámos na paisagem invernal do maciço de Altai, composta por estepes e pequenas montanhas cobertas de neve, onde abundam florestas de larícios rasgadas por torrentes e pequenos lagos. Os filmes Un Monde Plus Grand (2019) e Le Cavalier Mongol (2019) ajudaram-me também a definir o ambiente geral do álbum.

E… o que tem a ver o grifo com tudo isso?

O grifo no álbum é o animal sagrado do xamã e vem cristalizar um pouco a ignorância dos Romanos e a forma fantasiosa como imaginam a fauna, num mundo para eles ainda largamente inexplorado.

Mesmo dotado de corpo de leão e cabeça de águia, o grifo inicialmente não lhes parece mais improvável do que a girafa ou o rinoceronte. Mas à medida que avançam nos confins do Barbaricum, a dúvida vai assaltá-los. E se se tratasse na verdade de um poderoso deus da natureza? A sua mentalidade de conquistadores vai então começar a enfraquecer… Sobretudo porque o Astérix e o Obélix (sem esquecer o Ideiafix!), vindos em socorro dos Sármatas, não lhes vão facilitar a viagem!

BEM-VINDO À ALDEIA!
– DESCODIFICAÇÃO –

Ao revelarem-nos esta magnífica vinheta, os autores propõe-nos um primeiro vislumbre da aldeia sármata.

ASTÉRIX, HERÓI DE UM EASTERN?

Grandes espaços selvagens, personagens indefesas ameaçadas por vilões, cenas de ação de cortar a respiração… Não há dúvida: trata-se de um Western! Todavia, como por lapso os nossos autores confundiram as planícies desérticas do Arizona com as estepes gélidas do Leste da Europa, eis-nos na verdade perante um… Eastern!

A entrevista a Didier Conrad: 

Quer então dizer que, de um álbum para o outro, se tornou um desenhador de Easterns?

Exatamente! Encontramos aqui todos os códigos clássicos de um Western: espaços vastos, heróis vindos de longe para socorrer inocentes, «selvagens» a braços com a chegada de um exército conquistador… mas a Leste!

Como é que se desenha um Eastern?

A receita é simples: paisagens magníficas, aventura, ação a cavalo e uma natureza hostil! Neste caso, o Astérix
posicionou-se claramente do lado dos «selvagens» para socorrer a galope os seus novos amigos e proteger o seu animal sagrado, o grifo. Na vinheta acima, tudo se resume ao movimento. E a um pormenor humorístico com o Obélix, que parece acreditar poder andar mais depressa com a inversão dos papéis cavalo/cavaleiro!

O que é que o interessou na realização desta aventura?

Quando se fala de um Western, pensa-se imediatamente em vastos espaços virgens. É o que salta aos olhos ao ver os
velhos filmes de John Ford e de outros realizadores, como Howard Hawks, em que ficamos obrigatoriamente sem fôlego com aquelas imagens idílicas. Um verdadeiro desafio para um desenhador como eu: como honrar esses filmes que eu devoro desde tenra idade, como prestar homenagem a essa imagem icónica do cowboy a perseguir os índios tendo como pano de fundo o Grand Canyon… mas sem Grand Canyon?! Espero apesar de tudo ter conseguido transpor para o papel as formidáveis sensações que todos experimentamos face a um Western tradicional.

Os Vilões

Abrir um novo álbum de Astérix é antes de mais descobrir – com um secreto prazer – novas personagens, sempre marcantes! Jean-Yves Ferri e Didier Conrad revelam-nos o rosto dos «novos vilões», completamente perdidos na vastidão destas paisagens gélidas. Ó surpresa, são Romanos!

Taliqualus

À cabeça da coluna de Romanos enviados por César para capturar o grifo, o centurião Taliqualus passeia a sua imponente silhueta pelas estepes geladas do território dos Sármatas. «É uma personagem romana um pouco diferente,» – diz-nos Jean-Yves Ferri – «mais possante e mais resoluta do que as que normalmente se veem na série.
Empenhado na sua missão, menospreza os bárbaros sem perceber que a ignorância e a superstição estão mais do lado dele.»

Suprassumus

Suprassumus é um venator, gladiador especializado no combate com animais. «Queria fazer dele uma personagem muito carismática», comenta Didier Conrad. «Para tal, dotei-o de uma impressionante musculatura, envolta numa pele de tigre igualmente impressionante.»

Desorientadus

«Tem de haver caricaturas em todos os álbuns! Estou certo de que não deixarão de reconhecer nesta personagem um dos nossos grandes escritores nacionais!», adverte Jean-Yves Ferri. Desorientadus é o geógrafo de César. É a cabeça pensante desta expedição romana, participando nesta aventura por amor à Ciência.

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Biografias:

Jean-Yves Ferri nasceu, como o próprio Astérix, em 1959. Desde a infância, passada a ler a revista Pilote, que toma consciência da sua vocação: irá ser autor de banda desenhada! Após uma breve passagem pela ilustração, a partir de 1993, publica o seu primeiro álbum, Les Fables Autonomes (Fluide Glacial, 2 volumes publicados), antes de criar a sua célebre personagem de polícia rural Aimé Lacapelle (Fluide Glacial, 4 volumes publicados).
O seu encontro com Manu Larcenet, em 1995, vai levar à criação da sua emblemática coleção Le Retour à la Terre (Fuide Glacial, 6 volumes publicados), cujo último título, Métamorphoses, foi lançado em 2019. Ferri e Larcenet vão ainda co-assinar Correspondances (Ed. Les Rêveurs, 2006) e os dois volumes de Le Sens de la Vis, respetivamente em 2007 e 2010 (Ed. Les Rêveurs). Ferri é também autor de De Gaulle à la Plage (Dargaud), adaptado em 2020 a desenho animado e difundido no canal Arte. Entretanto, Ferri encontra em 2013 um certo Didier Conrad…

Didier Conrad nasceu em 1959, também como Astérix, em Marselha. A sua primeira banda desenhada, Jason, é publicada em 1978. Lança-se depois, em parceria com Yann, na animação dos cabeçalhos da revista Spirou, criando mais tarde, ainda com o mesmo argumentista, a mítica série Les Innommables. Seguem-se inúmeras produções repletas de humor, como Bob Marone (1980) e, com Wilbur, L’ Avatar (1984) e Le Piège Malais e Donito (entre 1991 e 1996). Em 1996 instala-se em Los Angeles para trabalhar na longa-metragem de animação O Caminho para El Dorado (que estreou nas salas de cinema em 2000), produzida pela Dreamworks SKG. Dois anos mais tarde regressa à BD para dar continuidade a Les Innommables, ao mesmo tempo que retoma a sua parceria com Wilbur em Tigresse Blanche (2005-2010), na série RAJ (2007-2010) e em Marsu Kids (2011-2012). Em 2013 encontra um certo
Jean-Yves Ferri e em 2014 muda-se para Austin (Texas).

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