Crítica | You Can See Everything: o potencial da verdade sobre Elizabeth Holmes
Nathan Fielder e Lance Oppenheim estreiam no grande ecrã You Can See Everything, um meta-documentário sobre Elizabeth Holmes, a poucos dias do seu aprisionamento, num filme surpreendente.
Nathan Fielder é talvez um dos criativos mais interessantes das últimas duas décadas, com um tipo de humor que nem todos apreciam, mas no qual muitos reconhecem algo de singular. Embora tenha passado pelo stand-up, foi na televisão, com a rubrica “Nathan on Your Side”, de This Hour Has 22 Minutes, que começou a desenvolver o registo que o tornaria conhecido. A consagração chegou com Nathan for You, uma série de comédia que parodia os programas de consultoria empresarial. As suas propostas para ajudar pequenos negócios, frequentemente absurdas, expunham a lógica das promessas feitas pelos “gurus do marketing” e a distância entre essas promessas e os resultados concretos. Agora, Fielder juntou-se a Lance Oppenheim em You Can See Everything, apresentado no mesmo ano de Primetime, a primeira longa-metragem de ficção de Oppenheim.

Quem é Elizabeth Holmes, na verdade?
Acompanhamos a vida de Elizabeth Holmes, fundadora da Theranos, a empresa que prometia realizar numerosas análises clínicas a partir de uma quantidade muito reduzida de sangue. As investigações publicadas pelo The Wall Street Journal a partir de 2015 expuseram as limitações e os problemas de fiabilidade da tecnologia, que não correspondia às capacidades anunciadas pela empresa. Já condenada por fraude a investidores, Holmes prepara-se para começar a cumprir a sua pena de prisão: é a 34 dias desse momento que o filme começa a acompanhar o seu quotidiano, com Fielder a participar diretamente nas conversas.
Desde o primeiro segundo, You Can See Everything afasta-se das convenções que muitos espectadores associam aos documentários contemporâneos e comerciais. São as mesma convenções que os serviços de streaming têm explorado até à exaustão na última década: uma fórmula repetitiva que equilibra informação e entretenimento, produzindo uma homogeneidade difícil de apreciar enquanto expressão artística. A disponibilidade de Holmes para abrir as portas da sua casa oferece tanta intimidade como distância, sobretudo por serem a própria condenada e o seu companheiro, Billy Evans, a protagonizar este retrato, enquanto vivem os últimos dias antes da separação imposta pela prisão.
Tanto Fielder como Oppenheim são os cineastas certos para contar esta história. A abordagem concentra-se na imagem pública de Holmes e na percepção que dela têm pessoas que não a conhecem pessoalmente. Mais do que ordenar factos, a obra interroga a identidade da pessoa que julgamos estar a observar – e a facilidade com que confundimos essa impressão com conhecimento.

Um meta-documentário íntimo e surpreendente
O que aparenta ser um acesso íntimo transforma-se rapidamente num exame do que é verdade e do que é fabricado para contar uma boa história. Daí nasce uma experiência completamente surreal e verdadeiramente desconfortável, alimentada pela abordagem inventiva dos cineastas. Ainda assim, a ambição filosófica da obra merece ser questionada: importa não confundir ingenuidade com profundidade.
É ao longo de praticamente três horas que somos levados, aos poucos, a olhar o mundo pelos olhos de Elizabeth Holmes e a observar como responde à insistência peculiar de Fielder. A forma como ele conduz as entrevistas torna as conversas ambíguas: é difícil distinguir a curiosidade sincera de uma pergunta concebida para provocar uma reação. A própria distinção entre verdade e autenticidade permanece em suspenso. O filme conta connosco, os espectadores, para interpretarmos respostas, microexpressões e até a simples presença destas pessoas no mesmo espaço como possíveis indícios de algo que nunca chega a ficar inteiramente definido.
Há também uma reflexão sobre a fiabilidade de quem narra e conduz o documentário. Apesar da proximidade dos enquadramentos, a câmara não me parece propriamente intrusiva; sugere antes a captação espontânea do momento presente. Essa aparente naturalidade contribui para o desconforto, porque nunca temos a certeza do que está realmente a acontecer, nem do que a montagem nos permite perceber.

Nathan Fielder e Lance Oppenheim juntam forças
Como exercício cinematográfico, You Can See Everything é um exemplo extraordinário de como se pode abordar um tema por caminhos diferentes dos habituais, sem necessariamente desresponsabilizar as pessoas retratadas. O filme dá-lhes espaço para exporem o seu lado da história, sem se reduzir a uma peça de defesa, mas também sem dissipar as dúvidas sobre as intenções dessa exposição. Fielder parece confrontar-se com essas dúvidas ao longo de grande parte da obra, à medida que a sua relação com Holmes e a família se torna parte da própria narrativa. Na segunda parte, uma convidada inesperada, mas muito bem-vinda, vem reconfigurar essa relação e a nossa percepção do que estamos a ver.
Assim, You Can See Everything é um dos filmes mais intrigantes dos últimos tempos, exigindo uma atenção inteira e deixando pistas que podem, ou não, ser peças de um puzzle cuja imagem final desconhecemos. Pede-nos um olhar atento e um pensamento crítico, mais do que a procura de uma solução definitiva. É um documentário que joga pelas suas próprias regras: em vez de nos conduzir necessariamente a uma conclusão, desafia-nos a usar a nossa inteligência, e talvez a nossa intuição, perante tudo o que nos foi apresentado. No mundo dos documentários, muitos arriscam, mas poucos transcendem as convenções do seu próprio género, ainda mais num contexto tão comercial quanto este.
Nota Final: 9/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.
