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Crítica | Cavalo Selvagem Nove: os espiões vão de férias

Martin McDonagh escreve e realiza Cavalo Selvagem Nove, um filme protagonizado por John Malkovich e Sam Rockwell, que poderá ser um grande candidato aos prémios.

Martin McDonagh é um cineasta cuja reputação se construiu, desde o início, através de filmes em que o humor se mistura com a seriedade dos factos, dando origem a experiências bastante únicas. Estreado em 2008, Em Bruges tornou-se um filme de culto contemporâneo e, desde então, cada uma das suas obras tem merecido uma atenção semelhante, somando várias nomeações para prémios. Desta vez, Cavalo Selvagem Nove marca o regresso de McDonagh em mais uma obra no seu registo habitual, num filme protagonizado por John Malkovich e Sam Rockwell.

A viagem de uma vida

Seguimos a história de Chris (Malkovich) e Lee (Rockwell), dois agentes da CIA que, pouco antes do golpe de Estado no Chile, em 1973, decidem ir até Rapa Nui, também conhecida como Ilha da Páscoa, ver as icónicas figuras de pedra, chamadas moai. No entanto, os motivos da viagem revelam-se mais obscuros, com ambos a lidarem com os seus passados sombrios e um presente ainda menos esperançoso.

Dentro do que se pode esperar do realizador, Cavalo Selvagem Nove corresponde às expectativas e vai um pouco mais além, ao aprofundar as personalidades das personagens e os motivos da sua presença na ilha. A amizade de longa data entre os protagonistas ganha relevo através da cumplicidade criada pelo trabalho que partilham, por mais sombrio que este seja. Entre arrependimentos e uma reflexão sobre a moralidade das suas vidas, tanto individuais como partilhadas, Chris e Lee deparam-se com a sua própria humanidade, algo que lhes traz tanto conforto como atrito.

De 8 a 80 com Malkovich e Rockwell

Como esperado, o tom do filme assenta numa comédia negra de rir à gargalhada, mas muda rapidamente quando um assunto sério e inesperado transforma a conversa num momento de verdadeira tensão, em que o riso nervoso também tem lugar. Mas, por detrás desses risos, estão dois homens a olhar para aquilo que são e para aquilo que fizeram, bem como para os motivos que os levam a abordar ou a evitar algumas conversas difíceis, numa camaradagem nascida de circunstâncias únicas que os trouxeram até este preciso momento.

John Malkovich é a atração principal, com uma interpretação que oscila entre um registo cómico completamente descabido e a vulnerabilidade de um homem que começa a duvidar de si mesmo e das suas capacidades. O ator confere à personagem um peso emocional sem exigir ao espectador que ignore as suas facetas mais cruéis. Por outro lado, Sam Rockwell oferece um contraponto mais discreto, mas absolutamente necessário: a contenção da sua interpretação permite que Malkovich seja mais extravagante, sem que o filme se transforme num espetáculo só seu.

McDonagh faz o que faz de melhor para o grande ecrã

Neste contexto, o diálogo do argumento de McDonagh constitui um dos maiores prazeres da obra. Os insultos, as digressões aparentemente aleatórias e as observações lançadas no momento certo dão origem a conversas tão curiosas como imprevisíveis, que nos deixam à espera da próxima réplica e de descobrir até onde as personagens estão dispostas a ir. Por mais desconfortável que seja a atração por estas figuras terríveis, a sua companhia revela-se bastante divertida durante grande parte do filme. Entretanto, as questões políticas servem de pano de fundo à exploração da dimensão pessoal dos dois protagonistas e daqueles que os rodeiam.

Assim, Cavalo Selvagem Nove poderá ser um candidato interessante aos prémios do próximo ano, com Malkovich a liderar o elenco com uma interpretação verdadeiramente cativante. É um filme que se deixa conduzir pela presença do ator, demonstrando que, mesmo nos nossos piores dias, não estamos necessariamente sozinhos.

Nota Final: 8/10

Ricardo Du Toit

Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.

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