Crítica | Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma: Quando o terror se reinventa
Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma desconstrói o slasher com humor, sexo, violência e uma paixão genuína pelo género.
Nunca escondi o meu amor por slashers. Desde os clássicos mais respeitáveis até às sequelas completamente absurdas que insistem em mandar assassinos para o espaço, há qualquer coisa neste género que continua a fascinar-me. Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma percebe isso na perfeição e, em vez de tentar fingir que o slasher é algo que precisa de ser levado sempre a sério, decide desmontá-lo peça por peça, mas sempre com enorme carinho. Realizado por Jane Schoenbrun, responsável por We’re All Going to the World’s Fair e I Saw the TV Glow, o filme representa uma mudança bastante curiosa no seu percurso. Sai o terror mais existencial e contemplativo, entra uma espécie de trash horror com humor, referências cinéfilas, consumo de drogas e uma energia próxima da melhor comédia de amigos completamente fora de controlo. O resultado é estranho, divertido e bastante inteligente.
A premissa já demonstra esse entusiasmo. Kris, interpretada por Hannah Einbinder, é uma realizadora independente que conseguiu chegar ao Sundance com um filme descrito como “Psycho do ponto de vista da cortina do chuveiro”. Não é preciso muito mais para perceber que esta mulher vive e respira cinema. Quando recebe a oportunidade de realizar o reboot de Camp Miasma, uma série slasher que marcou a sua infância, Kris vê finalmente a oportunidade de transformar uma obsessão pessoal em trabalho. O problema é que Camp Miasma não é apenas uma série de filmes dentro do filme. É praticamente um universo cinematográfico completo, com catorze filmes, VHS, anúncios de jornais, brinquedos, videojogos e até estudos académicos. A referência a Sexta Feira 13 e Acampamento Sangrento é evidente, mas Schoenbrun vai bastante mais longe, brincando com sequelas onde o assassino vai para Manhattan ou até para o espaço. A coisa chega ao ponto de haver uma espécie de Crazy Ralph próprio, porque neste universo tudo parece existir para alimentar a mitologia.
Para encontrar a antiga Final Girl, Kris viaja até Camp Trivoli e conhece Billy Presley, interpretada por uma excelente Gillian Anderson. Billy abandonou Hollywood e vive isolada no local onde o filme original foi rodado, rodeada por memórias do passado e por uma sala de cinema improvisada onde revê constantemente uma cópia em 35 mm da sua própria história. A personagem tem algo de Norma Desmond, de Crepúsculo dos Deuses, misturado com uma energia à Shelley Duvall, e Anderson aproveita cada momento para transformar Billy numa presença simultaneamente divertida, desconfortável e fascinante. A relação entre as duas é o coração do filme. Kris chega preparada para analisar Camp Miasma através de teoria de género, citando Judith Butler e outras referências académicas, enquanto Billy parece ter pouca paciência para esse tipo de interpretação. A certa altura, aquilo que parecia ser apenas uma conversa sobre cinema transforma-se numa exploração muito mais íntima sobre identidade, sexualidade, corpo e repressão.
É aqui que Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma encontra a sua verdadeira força. Inspirado pelas ideias de Carol J. Clover em Men, Women, and Chain Saws, o filme utiliza os mecanismos do slasher, incluindo a violência, a sexualidade e a figura da Final Girl, para falar de libertação pessoal. Little Death, o assassino cujo nome remete para o orgasmo, reforça essa leitura. A personagem também subverte as expectativas de género associadas ao género, transformando aquilo que podia ser apenas uma piada numa discussão bastante mais interessante sobre identidade e autonomia.
E depois temos as mortes. Schoenbrun não está aqui para poupar ninguém. Há decapitações, explosões de sangue e momentos deliberadamente exagerados que parecem saídos de Jason X ou Freddy vs. Jason. Uma sequência de massacre em plano único, envolvendo uma arma de aspecto fálico, é especialmente memorável, enquanto os split diopters e a estética prática retro ajudam a vender esta homenagem ao cinema de terror dos anos 80 e 90.
A banda sonora também merece atenção. O tema original de Alex G acompanha a experiência, enquanto os créditos iniciais usam uma versão de “Nightswimming”, dos R.E.M., e uma escolha inesperada de “A Long December”, dos Counting Crows, surge durante um dos grandes momentos de violência. É uma decisão tão estranha que acaba por funcionar precisamente por isso.
Apesar de toda esta diversão, o filme nem sempre acerta no equilíbrio. Algumas das suas ideias são claramente mais interessantes do que a narrativa que as transporta, e determinadas discussões teóricas podem parecer demasiado conscientes da própria importância. Ainda assim, quando finalmente junta a paixão pelo slasher com uma história sobre aquilo que as nossas obsessões dizem sobre nós, o resultado torna-se difícil de ignorar.
Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma é uma carta de amor ao slasher escrita por alguém que conhece demasiado bem as suas regras. É simultaneamente uma sátira, uma homenagem e uma exploração bastante pessoal do género. Para quem cresceu, como eu, entre VHS de terror, assassinos mascarados e sequelas cada vez mais ridículas, há aqui muito para reconhecer. E, felizmente, também há muito para gostar.
Nota: 9/10
Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma estreia a 24 de Setembro. Uma ante-estreia decorrerá a 19 de Setembro no âmbito do Festival Queer
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.




