Crítica | God Skin: A acção cyberpunk com combates intensos
Paween Purijitpanya assina God Skin, um filme de acção cyberpunk, repleto de artes marciais num futuro distópico, e muita emoção a viver.
O cinema tailandês sempre foi capaz de suscitar curiosidade. Com uma história rica em contos e mitos, é expectável que uma parte significativa do seu cinema de género se associe à espiritualidade e às tradições locais, algo que se tornou uma das suas marcas mais reconhecíveis. Contudo, a Tailândia revela também outras facetas e, por vezes, acerta em conceitos particularmente interessantes, como em Countdown (2012), um dos melhores exemplos de como as histórias urbanas ainda têm muito para oferecer. A recente estreia de God Skin no seu país de origem tem gerado algum entusiasmo na Internet: trata-se de um filme que mistura acção, artes marciais e um conceito ambicioso, realizado por Paween Purijitpanya.

Lutar pela sobrevivência, num futuro distópico, não muito distante
Num futuro próximo, acompanhamos Marwin (Sutthirak Subvijitra), um jovem estafeta de comida que se vê perante a difícil situação de pagar os cuidados médicos da mãe, num mundo onde a inteligência artificial está a substituir o trabalho humano. Marwin reencontra Itt (Itkron Pungkiatrussamee), que o introduz no universo dos combates do Mirage. O preço de entrada é elevado: uma tatuagem chamada God Skin – um aprimoramento tecnológico que concede capacidades sobre-humanas em combate.
O filme começa por observar o panorama actual como o início de uma transformação da civilização tal como a conhecemos. Em vez de avançar de imediato para um contexto mais ficção científica, estabelece a crise humana como a sua ligação principal. É essa primeira abordagem que nos prende emocionalmente, deixando espaço para tudo o que se segue.
O que vem depois é uma sucessão de combates intensos, tecnologicamente aumentados, extremamente vivos e verdadeiramente entusiasmante acompanhar. Numa mistura de Ong-Bak com elementos de videojogos como Palworld e Pokémon – por mais bizarro que isso possa parecer -, o filme encontra uma fusão que funciona e acrescenta uma nova camada ao género. É um cruzamento entre a cultura das apostas, os jogos de luta e o body horror, que vai muito além de coreografias verdadeiramente impressionantes dentro do ringue.

Um cruzamento entre a vida real e virtual, com acção emocionante em God Skin
Mais do que isso, é o argumento que vai construindo e aproveitando bem não só o Mirage – um local onde a percepção das lutas clandestinas é alterada e explorada por quem tem dinheiro para apostar -, mas também um protagonista que não luta por prazer: é forçado a lutar para sobreviver num mundo corrupto. God Skin vive também fora do ringue, através de vários núcleos narrativos que mostram a vida e o amor de Marwin ao lado de Praewa (Phantira Pipityakorn), uma paixão de infância com quem se reencontra nesta fase difícil. Esta relação funciona como uma pausa emocional pertinente no meio da violência que domina o filme.
À medida que a narrativa se desenrola, apercebemo-nos de que há algo para além do que está diante dos nossos olhos. A confiança do filme nas suas próprias ideias acaba por ser uma virtude, embora o risco assumido possa não ser para todos. Num esforço para ser mais do que um simples filme de artes marciais com elementos digitais, God Skin mantém uma preocupação moral constante perante a sociedade.

Assim, God Skin é um dos filmes asiáticos mais interessantes do ano, com uma identidade muito própria e uma intenção facilmente reconhecível de ser algo verdadeiramente distinto dentro do género, sobretudo quando aliado às suas ideias mais cyberpunk. O argumento, ainda que globalmente sólido, sofre algumas mudanças que podem causar algum desconforto devido à alteração de direcção. Ainda assim, o filme recompensa-nos com uma visão filosófica de como o nosso futuro poderá parecer nos seus piores dias.
Nota Final: 7/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.
