Cinema: Crítica – Corporate Retreat
Corporate Retreat tenta misturar terror, comédia e sátira enquanto usa o mundo empresarial como pano de fundo, mas entrega um filme aborrecido e repleto de oportunidades desperdiçadas.
Quando um filme falha, normalmente é porque, apesar de já ter uma identidade definida, acaba por arriscar demasiado. Corporate Retreat vai por um caminho semelhante, mas, a certa altura, parece nunca perceber aquilo que quer ser. A premissa até desperta curiosidade. Um grupo de executivos de uma empresa tecnológica milionária é obrigado a participar num retiro de bem-estar que rapidamente se transforma num jogo de sobrevivência repleto de armadilhas mortais. A ideia de cruzar uma sátira ao capitalismo com o terror de Saw e o humor negro de Ready or Not tinha potencial para resultar num divertido filme de série B. Infelizmente, o resultado está muito mais próximo de um exercício de escrita inacabado do que de uma obra verdadeiramente conseguida.
Aaron Fisher, que assina a realização e o argumento em conjunto com Kerri Lee Romeo, nunca consegue encontrar um equilíbrio entre os géneros que pretende misturar. A crítica ao universo corporativo é superficial e previsível, limitando-se a caricaturas de executivos gananciosos e gurus espirituais que repetem frases ocas sobre transcendência e chakras. Em vez de construir uma sátira mordaz, o filme limita-se a apontar o dedo aos ricos sem nunca apresentar uma ideia verdadeiramente interessante ou inteligente.
O problema começa logo nas personagens. São pouco mais do que arquétipos ambulantes, definidos por uma ou duas características e rapidamente descartados antes que o espectador tenha qualquer motivo para se importar com eles. Ginger (Odeya Rush), apresentada como a inevitável “final girl”, nunca ganha personalidade suficiente para sustentar o protagonismo, enquanto Cliff (Elias Kacavas) representa o típico namorado insuportável que existe apenas para ser odiado. A única presença que realmente se destaca é Alan Ruck, que interpreta Arthur, o fundador afastado da empresa e responsável pelo macabro plano de vingança. O ator diverte-se claramente com o papel e entrega um vilão egocêntrico, delirante e completamente desligado da realidade. É, sem grande discussão, o único elemento capaz de arrancar alguns momentos genuinamente divertidos.
Nem isso chega para salvar um argumento repleto de incoerências. O conceito das sete experiências espirituais rapidamente perde qualquer lógica quando percebemos que o próprio Arthur nunca passou pelas provas que impõe às vítimas. As regras alteram-se conforme a conveniência do argumento, as decisões das personagens desafiam constantemente o bom senso e até a suposta localização isolada do retiro entra em conflito com os planos exteriores, onde são visíveis bairros residenciais a poucos metros do edifício. São detalhes que, isoladamente, poderiam passar despercebidos, mas acumulam-se ao longo da narrativa até destruírem qualquer suspensão da incredulidade.
Visualmente, o filme torna-se ainda pior. A fotografia aposta numa imagem escura e pouco inspirada, muitas vezes escondendo mais do que revela, não por opção artística, mas porque transmite simplesmente a sensação de uma produção barata. A realização recorre frequentemente a movimentos de câmara instáveis e enquadramentos estranhos que cortam rostos e prejudicam a leitura da ação. Pior ainda, há várias tentativas pouco subtis de imitar composições de realizadores muito mais talentosos, sem compreender o motivo pelo qual essas escolhas funcionavam nos filmes que procura homenagear.
O terror também nunca encontra o impacto desejado. Apesar da violência gráfica, as cenas de mutilação são surpreendentemente monótonas. Aliás, existe uma cena em específico que teria funcionado muito melhor se fosse mais curta, já que aposta apenas na duração do sofrimento em vez de construir tensão. O resultado não é chocante; é simplesmente cansativo. Os restantes desafios seguem a mesma lógica, acumulando sangue, efeitos práticos pouco convincentes e efeitos visuais de fraca qualidade que retiram qualquer sensação de perigo. Nem o confronto final escapa, com disparos digitais pouco credíveis e interpretações que tornam impossível levar a ação a sério.
No final, Corporate Retreat acaba por ser uma sátira sem dentes, um filme de terror sem suspense e uma comédia sem piadas memoráveis. Há uma boa ideia na base deste conceito, mas nunca chega a ganhar forma devido a um argumento preguiçoso, uma realização pouco inspirada e um elenco desaproveitado, com exceção de Alan Ruck. É daqueles filmes que talvez proporcionem algum entretenimento quando vistos entre amigos, por conta das decisões absurdas que convidam ao comentário constante. E isso está longe de ser um elogio.
Nota: 2/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.




