Análise BD: A Sombra das Luzes – Livro 2: Rendas e Colares de Conchas
Depois de um primeiro volume dedicado a apresentar o manipulador cavaleiro de Saint-Sauveur e a sua vasta correspondência, este segundo tomo acelera significativamente a narrativa, transportando a ação para a Nova França (atual Canadá), onde Alain Ayroles desconstrói o mito da superioridade europeia através de uma aventura repleta de ironia, manipulação e crítica social.
Saint-Sauveur continua a ser uma personagem fascinante precisamente porque é impossível simpatizar com ele. É um sedutor, um vigarista e um oportunista cuja inteligência é usada exclusivamente para benefício próprio. Contudo, Ayroles evita transformá-lo num simples vilão caricatural. A cada nova carta percebemos um homem que acredita genuinamente na sua superioridade, tornando-se simultaneamente sedutor e profundamente desprezível.
O grande mérito deste segundo volume reside na mudança de cenário. Longe dos salões aristocráticos franceses, a narrativa confronta o protagonista com uma cultura que desafia todos os seus preconceitos. O contacto com o iroquês Adario e com os povos indígenas permite ao autor inverter constantemente as expectativas do leitor, demonstrando que a verdadeira barbárie nem sempre pertence aos chamados “selvagens”. É uma crítica subtil, mas eficaz, ao colonialismo europeu e à arrogância iluminista.
Narrativamente, este tomo apresenta um ritmo bastante superior ao anterior. Embora a estrutura epistolar continue presente, as cartas deixam de condicionar tanto a fluidez da leitura. As reviravoltas surgem de forma natural e a tensão cresce até culminar num final que prepara claramente o derradeiro volume da trilogia. Com efeito, gostei muito mais deste segundo livro do que do primeiro, pois no anterior a história demora a arrancar e leva quase a desistir da leitura se não estivermos com paciência.
Graficamente, Richard Guérineau volta a demonstrar porque é um dos grandes desenhadores franceses da atualidade. A recriação histórica continua irrepreensível, mas agora ganha uma nova dimensão graças às vastas paisagens da Nova França. As florestas, os rios e os acampamentos indígenas contrastam magnificamente com os ambientes aristocráticos do primeiro livro, enriquecendo visualmente a obra. A expressividade das personagens mantém-se exemplar e a narrativa visual é elegante e extremamente clara.
A cor merece igualmente destaque. Os tons naturais predominam, reforçando o contraste entre a artificialidade da corte europeia e a imponência do mundo selvagem, sem nunca perder o requinte que caracteriza toda a série.
Também a edição portuguesa da Ala dos Livros mantém o elevado padrão habitual: grande formato, capa dura, excelente impressão e papel de qualidade valorizam o desenho detalhado de Guérineau e fazem justiça ao trabalho gráfico da obra.
Se o primeiro tomo era sobretudo uma introdução a um protagonista moralmente repugnante, “Rendas e Colares de Conchas” é onde a série verdadeiramente ganha dimensão. Alain Ayroles combina aventura, sátira histórica e reflexão filosófica sem perder o sentido de humor mordaz que caracteriza a sua escrita. O resultado é uma leitura mais envolvente, mais equilibrada e claramente mais ambiciosa.
Ainda permanece a sensação de que toda a história está a preparar um grande desfecho no terceiro volume, mas este segundo livro demonstra que A Sombra das Luzes é muito mais do que uma simples aventura histórica: é uma reflexão inteligente sobre poder, civilização, hipocrisia e natureza humana.
Uma excelente continuação, superior ao primeiro tomo, que aumenta significativamente a expectativa para a conclusão da trilogia.
Argumento: Alain Ayroles
Desenho: Richard Guérineau
Editora portuguesa: Ala dos Livros

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.


