Porto/Post/Doc 2026 atravessa música, arquivo e cultura popular
Entre 19 e 28 de novembro, o Porto/Post/Doc regressa ao Porto para a sua 13.ª edição, com uma programação onde a música atravessa diferentes secções, geografias e gerações. O festival revela os cinco filmes em competição na secção Transmission, dedicada às diferentes formas de viver e estar na música, e apresenta “O Futuro é Punk: 50 anos de um movimento artístico e político”, programa especial que regressa às primeiras explosões do punk para observar a sua influência e permanência ao longo de cinco décadas. De Elza Soares a Thelonious Monk, do batuku cabo-verdiano à experimentação eletrónica, do underground de Berlim aos palcos do Carnegie Hall, o cinema aproxima-se da música enquanto memória, comunidade, criação e gesto político.

A competição Transmission reúne cinco filmes que atravessam palcos, estradas, arquivos e diferentes gerações musicais. Em “Elza”, Eryk Rocha parte de arquivos raros e conversas gravadas nos últimos anos de vida de Elza Soares para percorrer mais de sete décadas de carreira e de transformação do Brasil. “Tour de Verão”, de Mischa Richter, segue Jerry e Annie durante a última digressão dos Dead & Company, numa viagem pela estrada construída em torno da música e da comunidade. Em “O Melhor Verão”, Tamra Davis recupera imagens que filmou na digressão Summersault, em 1995, onde Beastie Boys, Sonic Youth, Foo Fighters, Beck, Pavement e Bikini Kill surgem entre palco e bastidores, antes de se tornarem referências globais.
Em “Hex”, Maja Holand acompanha Nikoline, Victoria e Johanna na formação das Witch Club Satan e no pacto de dedicarem três anos a despertar o mundo e a si próprias como bruxas, transformando o black metal em espaço de criação, confronto e afirmação. A competição completa-se com o filme português “Esta Vida de Marinheiro”, de Paulo Miguel e Borges Antunes, construído a partir de arquivos, filmes pessoais, concertos e testemunhos para revisitar o percurso de João Aguardela, músico que aproximou tradição e experimentação através de projetos como Sitiados, Megafone e A Naifa.
Cinquenta anos depois das primeiras convulsões do movimento, “O Futuro é Punk: 50 anos de um movimento artístico e político” olha para o punk não como exercício de nostalgia, mas como uma força que continua a contaminar linguagens e a imaginar formas de resistência. “Punk em Londres” (1977), de Wolfgang Büld, captura através de concertos, clubes, ruas e entrevistas uma cena londrina ainda em formação, com nomes como Sex Pistols, The Clash e X-Ray Spex. Em “Jubileu” (1978), Derek Jarman transporta Isabel I para uma Grã-Bretanha distópica e anárquica, onde um grupo de mulheres atravessa as ruínas das instituições.
“D.O.A.: Um Ritual de Passagem” (1980), de Lech Kowalski, acompanha a turbulenta digressão dos Sex Pistols pelos Estados Unidos, entre revolta underground, espetáculo mediático e apropriação comercial. “B-Movie: Luxúria e Música na Berlim Ocidental 1979-1989”, de Jörg A. Hoppe, Klaus Maeck e Heiko Lange, mergulha numa década em que música, arte e política se cruzaram na cena underground de Berlim Ocidental antes da queda do Muro. O percurso chega a Nova Iorque com “Ei, o Dee Dee está em casa?” (2023), no qual Kowalski recupera as memórias de Dee Dee Ramone sobre os Ramones, Johnny Thunders e Richard Hell, entre música, dependência, amizade e perda. Entre Londres, Nova Iorque e Berlim, os cinco filmes mostram como música, imagem, atitude, moda e confronto político fizeram do punk uma energia capaz de atravessar gerações.
Mas a presença da música na 13.ª edição prolonga-se muito para lá destes dois programas. No foco dedicado a Alain Gomis, “Rewind & Play” regressa a uma entrevista televisiva de 1969 com Thelonious Monk. A partir de imagens não utilizadas, repetições, pausas e erros de tradução, Gomis questiona a forma como a televisão constrói a imagem de um artista negro e devolve espaço à presença e à música de Monk. A música é também memória e transmissão em “Nha Balila – Dentu d’algem”, de André Xina e Inês T. Alves. Aos 92 anos, uma referência viva do batuku e do finason viaja de Cabo Verde até Portugal e reencontra uma diáspora que reconhece na sua voz uma memória comum. Já “Uma Sensação Nunca Antes Conhecida”, de Luke Fowler, retrata a compositora escocesa Janet Beat, pioneira da música eletrónica, detendo-se nos instrumentos, gestos e espaços de um trabalho desenvolvido ao longo de décadas.
No programa dedicado a Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, música, dança e performance surgem como formas de ocupação e afirmação. Em “RISE”, jovens performers, muitos de ascendência africana ou caribenha, levam poesia e música ao metro de Toronto; “Swinguerra” acompanha no Recife grupos ligados à swingueira e a outras danças urbanas, dando destaque a performers negros, transgénero e não binários; e “One Hundred Steps” coloca músicos, cantores e bailarinos irlandeses e norte-africanos dentro de casas-museu marcadas por histórias de riqueza e poder colonial.
Outros filmes acrescentam novas geografias a este percurso. Em “Kmêdeus”, de Nuno Boaventura Miranda, a memória de uma figura singular de São Vicente abre uma viagem por Mindelo, pela dança contemporânea, pela música, pelo cinema e pelo carnaval. “O Chico Fininho”, de Sério Fernandes, regressa ao Porto de 1982 para procurar a personagem da canção de Rui Veloso e encontrar uma geração que se move entre discotecas, rock e desencanto com a ordem social e política do Portugal pós-revolucionário. E em “Era Uma Vez no Harlem”, William Greaves e David Greaves recuperam imagens inéditas do encontro que, em 1972, reuniu na casa de Duke Ellington artistas, escritores, músicos, historiadores e ativistas ligados ao Harlem Renaissance.
A música acompanha ainda o festival até ao último dia. A sessão de encerramento, a 28 de novembro, apresenta “Cameron Winter at Carnegie Hall”, de Paul Thomas Anderson, realizado em colaboração com Benny Safdie. Filmado em 16 mm e 35 mm, o filme acompanha o vocalista dos Geese sozinho ao piano no Carnegie Hall, transformando o concerto numa observação íntima da relação entre músico, música e público.
A 13.ª edição do Porto/Post/Doc decorre de 19 a 28 de novembro, em vários espaços do Porto e Matosinhos. A programação completa e os horários das sessões podem ser consultados em portopostdoc.com.
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Co-criador e administrador do Central Comics desde 2001. É também legendador e paginador de banda desenhada, e ocasionalmente argumentista.
