Jogos: Denshattack! – Análise
Denshattack! transforma comboios em máquinas de acrobacias, enquanto vivemos uma aventura frenética.
Jogo: Denshattack!
Disponível para: PC, Nintendo Switch 2, PlayStation 5, Xbox Series
Versão testada: Nintendo Switch 2
Desenvolvedora: Undercoders
Editora: Fireshine Games, Boltray Games

Há ideias que parecem nascer para funcionar apenas como uma piada. Um comboio a fazer kickflips, grinds e manuais enquanto atravessa um Japão futurista devastado pelas alterações climáticas encaixa perfeitamente nesse tipo de ideias. No entanto, Denshattack! faz exatamente o contrário daquilo que se espera. O conceito absurdo serve apenas de porta de entrada para um jogo surpreendentemente sólido, exigente e repleto de personalidade.
A aventura acompanha Emi, uma jovem distribuidora de ramen que acaba envolvida no universo clandestino do Denshattack, um desporto radical proibido pelo conglomerado tecnológico Miraido, que domina o transporte e praticamente governa o país. A narrativa segue uma estrutura típica de anime, com rivalidades, amizades improváveis e um espírito punk que coloca a resistência contra o poder corporativo no centro da ação. Não reinventa a roda, mas a energia do elenco e o humor constante ajudam a manter o interesse até ao fim.
É, contudo, na jogabilidade que Denshattack! realmente acelera. A comparação com Tony Hawk’s Pro Skater, Jet Set Radio e até alguns Sonic tridimensionais surge de forma natural, mas o jogo constrói uma identidade própria. O comboio desliza por carris, faz drift entre linhas, percorre paredes, entra em loopings e executa truques através do analógico direito com movimentos que exigem precisão e memória muscular. Há um sistema de combos profundo, sustentado por multiplicadores, manuais e uma gestão constante do risco. Um erro, uma colisão ou um salto mal calculado podem apagar uma sequência inteira de pontos, criando aquela tensão viciante de “só mais uma tentativa”.
A progressão mecânica também merece destaque. Novas habilidades surgem ao longo da campanha sem sobrecarregar o jogador, permitindo descobrir gradualmente sistemas como os percursos secretos Yaoyorozuo, alimentados pela energia acumulada através dos truques. Estes caminhos alternativos acrescentam variedade aos níveis e recompensam quem domina verdadeiramente as mecânicas. A campanha mantém um ritmo consistente durante cerca de uma dezena de horas, sempre com novas ideias, novos perigos e bosses memoráveis que aproveitam inteligentemente tudo o que foi aprendido.
O design dos níveis é outro dos grandes trunfos. Há arranha céus a desabar, tornados, vulcões, secções subaquáticas, perseguições improváveis e momentos que parecem saídos diretamente de um anime de ação sem qualquer filtro. A criatividade nunca parece esgotar-se e cada capítulo encontra uma nova forma de surpreender. Ao mesmo tempo, desafios opcionais incentivam a repetir percursos em busca da execução perfeita, prolongando naturalmente a longevidade.
Visualmente, Denshattack! aposta numa estética vibrante inspirada na cultura alternativa japonesa dos anos 2000. As cidades são detalhadas, os efeitos de velocidade reforçam constantemente a sensação de movimento e a direção artística transmite um entusiasmo contagiante. A banda sonora acompanha esse espírito com temas de funk, rock, jazz e eletrónica compostos por nomes como Tee Lopes, 2 Mello e Shoji Meguro, resultando numa seleção musical que encaixa na perfeição com a adrenalina da jogabilidade.
Nem tudo, porém, chega ao destino sem alguns desvios. A estrutura totalmente sobre carris limita inevitavelmente a liberdade de exploração, tornando a experiência mais focada na repetição e otimização das rotas do que na descoberta espontânea. A ausência de um verdadeiro modo livre também acaba por pesar, sobretudo para quem apenas quer experimentar truques sem a pressão do cronómetro. Além disso, a condução invertida, introduzida demasiado perto do final, merece mais tempo para ser assimilada antes dos desafios mais exigentes.
Resta concluir que, Denshattack! podia viver apenas da sua premissa insólita, mas felizmente escolhe um caminho bem mais ambicioso. É um jogo mecânica e tecnicamente competente, repleto de criatividade e confiança nas suas ideias, capaz de transformar um conceito improvável numa experiência memorável. Não será para todos, mas, quem apreciar jogos focados na mestria encontrará aqui uma das propostas independentes mais originais dos últimos tempos.
Nota: 9/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.





