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Análise Manga: O Verão em que Hikaru Morreu Volumes 1 e 2

Uma combinação entre terror e história de amadurecimento, O Verão em que Hikaru Morreu Volumes 1 e 2 explora a identidade, o luto e a estranha beleza do desconhecido.

Quando uma obra começa com a morte, é natural esperar tristeza e melancolia. Mas O Verão em que Hikaru Morreu Volumes 1 e 2, escrito e ilustrado por Mokumokuren e publicado em Portugal pela Presença Comics, faz algo diferente. Transforma a morte no ponto de partida de um labirinto emocional, onde o terror e a ternura coexistem. Não se trata apenas do que acontece depois de alguém morrer, mas do que fica quando essa pessoa parte… ou quando regressa, quase igual, mas não totalmente.

Situada numa pequena cidade rural do Japão, a história acompanha Yoshiki Tsujinaka e Hikaru Indo, dois amigos de infância cuja ligação parece inquebrável. Essa ilusão desmorona-se quando Hikaru morre durante uma caminhada e algo (uma entidade antiga e incompreensível) toma a sua forma. A criatura tem as memórias, a voz e o calor de Hikaru, mas Yoshiki sente, desde o primeiro momento, que aquilo não é o seu amigo. E, mesmo assim, escolhe ficar. Essa decisão, simultaneamente ingénua e corajosa, é o que sustenta o peso emocional deste manga.

O Verão em que Hikaru Morreu Vol. 1 e 2

A decisão de Mokumokuren de revelar a verdade a Yoshiki logo no início é completamente diferente do habitual. Inverte o cliché habitual do terror, em que o público sabe o que o protagonista ignora. Aqui, tanto Yoshiki como o leitor partilham a mesma consciência aterradora. Essa partilha não elimina a tensão, transforma-a. O suspense não vem da revelação, mas da espera, do medo lento de ver até onde a lealdade, o amor e o medo de Yoshiki o levarão.

No seu cerne, O Verão em que Hikaru Morreu é uma história de terror que também funciona como um drama de crescimento pessoal. Brinca com a fragilidade da adolescência, onde as emoções são cruas, as amizades são absolutas e a linha entre o amor e o medo se esbate facilmente. É uma mistura de inquietação lovecraftiana e de momentos calmos do quotidiano, rapazes a regressar da escola, a trocar segredos, a sentar-se sob um céu de verão que parece demasiado imóvel. Essa justaposição torna o manga estranhamente belo.

O Verão em que Hikaru Morreu Vol. 1 e 2

O cenário desempenha um papel essencial. O Japão rural sempre foi terreno fértil para histórias sobrenaturais, e Mokumokuren utiliza-o com elegância. As florestas, as estradas vazias, o zumbido constante das cigarras — tudo parece vivo, atento, como se a própria terra recordasse. Não é apenas um pano de fundo, é um cúmplice. E embora este cenário já tenha sido visto noutras obras, aqui não se trata tanto de mistério, mas de intimidade. O terror não se esconde nas sombras, respira ao teu lado.

Curiosamente, o manga também flerta com a estética do Boys’ Love (BL). Mokumokuren joga com o subtexto e a emoção em vez de recorrer a um romance explícito, explorando o apego conflituoso de Yoshiki ao “novo” Hikaru. É o amor, o medo ou a culpa que os une? A ambiguidade é deliberada e poderosa, conferindo à história uma camada emocional madura que ultrapassa classificações simples de género. A relação entre ambos atinge o ponto de rutura quando uma morte obriga os dois a confrontar quem, ou o que, realmente são um para o outro.

O Verão em que Hikaru Morreu Vol. 1 e 2

E, no entanto, apesar de toda a inquietação cósmica e do tumulto interior, há um forte ritmo de quotidiano que atravessa a narrativa. Vemos Yoshiki e Hikaru a lidar com a vida escolar, a interagir com colegas como Yuuta, Yuuki e Asako, ou a encontrar adultos como Rie, uma dona de casa que passou a sentir presenças espirituais após um trauma. Estas interações quotidianas ancoram a história e lembram-nos que, mesmo quando o mundo se torna estranho, a vida continua, banal, embaraçosa, dolorosamente normal.

Uma das escolhas narrativas mais eficazes é a ausência de sustos fáceis. Mokumokuren não recorre a jump scares nem a imagens grotescas. O terror insinua-se através do silêncio, da tensão nos diálogos, dos espaços desconfortáveis entre as palavras. Sente-se mais do que se vê. É aquele tipo de ansiedade que permanece muito depois de fecharmos o livro, a ecoar silenciosamente no fundo da mente.

O elenco secundário também enriquece o mundo para além dos dois protagonistas. Personagens como Rie e Kaoru, a irmã mais nova de Yoshiki, oferecem âncoras emocionais e momentos de verdadeiro terror. A cena de Kaoru, uma das mais arrepiantes dos volumes iniciais, prova que Mokumokuren sabe exatamente quando apertar o cerco. Cada enredo secundário alimenta o mistério central da floresta, entrelaçando a fragilidade humana com o medo sobrenatural.

O Verão em que Hikaru Morreu Vol. 1 e 2

A edição da Presença Comics sente-se premium em todos os aspetos certos. Cada volume reúne cinco a seis capítulos, mais uma mini história bónus que aprofunda a compreensão das personagens. A qualidade de impressão, a encadernação flexível e a legendagem ampla proporcionam uma leitura fluida e imersiva. É uma edição cuidada para um manga que exige atenção ao ambiente e ao detalhe subtil.

E para quem prefere animação, a adaptação da Netflix, com 12 episódios, capta de forma brilhante o tom inquietante, equilibrando quietude e tensão, com uma segunda temporada já confirmada. Ver Yoshiki e Hikaru a moverem-se, a falar e a respirar naquele mundo apenas amplifica o que tornou o manga tão poderoso: a ternura desconfortável entre o medo e o afeto.

O Verão em que Hikaru Morreu Vol. 1 e 2

Resta concluir que, O Verão em que Hikaru Morreu, é uma verdadeira obra-prima de terror subtil e narrativa emocional. É perturbante, íntima e estranhamente reconfortante, um verão assombrado que nunca chega verdadeiramente ao fim.

Nota: 9/10

António Moura

Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.

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