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RPG | Trails of Saruman e Hands of the White Wizard – primeiras impressões

Há editoras que fazem livros de RPG. E depois há a Free League, que parece olhar para cada lançamento como se estivesse a preparar um artefacto élfico digno de Rivendell. Depois de passar algum tempo a folhear The Lord of the Rings Roleplaying 5E: Trails of Saruman e The One Ring: Hands of the White Wizard, fiquei com aquela sensação rara de estar perante produtos feitos por pessoas que claramente adoram Tolkien… e que provavelmente também sabem distinguir algo didigido para os fãs às coisas feitas a martelo que só olha a vendas. 

RPG Free League

O mais curioso é que os dois livros conseguem abordar praticamente o mesmo tema através de sistemas diferentes. Trails of Saruman adapta o universo de Tolkien para regras compatíveis com Dungeons & Dragons 5E, enquanto Hands of the White Wizard segue a filosofia mais atmosférica e narrativa de The One Ring. E honestamente? Os dois funcionam surpreendentemente bem.

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Em Hands of the White Wizard, a proposta é deliciosa para qualquer fã de Saruman enquanto personagem. O livro apresenta seis aventuras que decorrem antes da queda definitiva do feiticeiro branco, numa altura em que ainda existe ambiguidade moral suficiente para nos fazer pensar: “Será que isto ainda se resolve com terapia e menos contacto com palantírs?” Portanto, os jogadores podem tanto servir Saruman como vigiá-lo secretamente, tentando perceber até onde vai a corrupção do líder de Isengard.

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E é precisamente essa zona cinzenta que me conquistou. Há algo fascinante em jogar numa Terra Média onde Saruman ainda não é o vilão de serviço de barba impecavelmente maléfica. O livro explora o orgulho crescente da personagem e a forma como a sua obsessão pelo conhecimento começa lentamente a devorá-lo por dentro. Os fãs também parecem fascinados com essa ideia. Em várias discussões no Reddit, muitos fãs defendem que Saruman era tão perigoso quanto Sauron precisamente porque acreditava genuinamente que podia controlar tudo.

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Trails of Saruman segue outro caminho. Aqui a ideia passa por trazer toda esta atmosfera tolkieniana para jogadores habituados ao conforto mecânico do D20. E sim, resulta melhor do que eu esperava. A Free League consegue sempre adaptar o espírito de The One Ring às regras de D&D sem transformar a Terra Média numa convenção de bárbaros musculados a atirar bolas de fogo.

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Aliás, uma das coisas que gosto é justamente o cuidado em manter o tom melancólico e aventureiro de Tolkien. Ainda não explorei muito mas não parece estarmos perante uma aventura RPG focada em “loot” e combate constante. Parece haver viagens longas, conselhos, corrupção moral, tensão política e aquela sensação permanente de que o mundo está lentamente a ficar mais sombrio. Ou seja, exatamente aquilo que queremos da Terra Média.

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Mas sejamos honestos: também obtemos prazer nos livros objeto físico.

A Free League continua absolutamente imparável na qualidade de produção. As capas são sempre lindíssimas, o papel mate de boa gramagem e aquele tom bege que parece dar uma certa idade e classe a cada página que viramos, e onde podemos ser surpreendidos por ilustrações simplesmente magníficas. Há páginas que me fizeram parar só para apreciar detalhes do desenho. É daqueles livros que apetece deixar aberto em cima da mesa só porque ficam bonitos na decoração. O que, convenhamos, é um risco enorme para quem já não tem espaço nas estantes.

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Também gostei muito da forma como ambos os livros incentivam um ritmo mais contemplativo. Há espaço para silêncio, para viagens, para diálogos e para aquele tipo de tensão subtil em que toda a gente sabe que algo terrível está para acontecer… mas ainda há esperança suficiente para continuar em frente. É um tom raro nos RPGs modernos e encaixa perfeitamente neste universo.

Ambas as extensões irão sair apenas a 2 de Junho mas já podes fazer a pré-encomenda no site oficial ou em lojas da especialidade.

 

Dário Mendes

Dário é um fã de cultura pop em geral mas de banda desenhada e cinema em particular. Orgulha-se de não se ter rendido (ainda) às redes sociais.

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