City of My Nightmares, uma campanha nova para Vaesen
Há jogos de horror que tentam assustar-nos com litros de sangue, monstros gigantes e personagens a gritarem durante três horas. Mas não é caso de Vaesen: Nordic Horror Roleplaying, que prefere aproximar-se devagarinho, sussurrar uma lenda sueca ao ouvido e deixar-nos desconfortáveis porque ouvimos um corvo lá fora às duas da manhã.
Sinceramente, adoro isso.
A Free League já tinha fama de produzir alguns dos livros de RPG mais bonitos do mercado, mas Vaesen continua a impressionar mesmo anos depois do lançamento original. E com a expansão City of My Nightmares, o jogo ganha uma dimensão ainda mais claustrofóbica e urbana, como se a própria cidade estivesse lentamente a ganhar vontade própria. O que, convenhamos, é exatamente o tipo de frase que devia preocupar qualquer investigador paranormal minimamente competente.
Grande parte do sucesso de Vaesen vem precisamente da forma como mistura investigação sobrenatural, folclore nórdico e horror melancólico. Em vez de monstros descartáveis para derrotar à espada, encontramos criaturas inspiradas em mitos escandinavos que normalmente carregam tragédias, raiva ou desequilíbrios causados pelos próprios humanos. E isso muda completamente o tom da experiência.
Portanto, Vaesen não é realmente sobre “caçar monstros”. É sobre compreender aquilo que está errado. O foco está em investigar pistas, descobrir a origem do problema e perceber qual o ritual ou ação necessária para restaurar equilíbrio.
Essa abordagem dá ao jogo um ritmo muito diferente de muitos RPGs modernos. Há menos obsessão com combate e muito mais espaço para tensão, pesquisa, conversas estranhas em aldeias isoladas e aquele maravilhoso sentimento de “isto vai correr horrivelmente mal, não vai?”. E claro que vai. E o facto de que não existe só o bom ou o mau, o preto e o branco, é algo que ainda causa mais camadas.
Também gostei bastante de ver como City of My Nightmares expande esse conceito para ambientes urbanos. O horror deixa de viver apenas nas florestas e montanhas geladas da Escandinávia e começa a infiltrar-se nas ruas, nos becos e nos edifícios apertados da cidade. A expansão cria uma sensação quase vitoriana de paranoia sobrenatural que me fez lembrar, em alguns momentos, histórias clássicas de fantasmas britânicos misturadas com investigação policial decadente.
A Free League continua competente na apresentação física dos seus RPGs. As capas têm aquele acabamento elegante que já se tornou imagem de marca da editora, o papel é excelente e as ilustrações de Johan Egerkrans ajudam brutalmente a vender o ambiente do jogo. Há imagens em Vaesen que parecem saídas diretamente de um livro antigo encontrado numa biblioteca amaldiçoada algures na Suécia. O tipo de livro que claramente não devia ser aberto… mas que abrimos na mesma porque “o que é o pior que pode acontecer?”, frase tradicionalmente famosa antes de todas as desgraças em RPGs de horror.
No entanto reparei que este jogo tem margens estupidamente grandes. No jogo base não percebo porquê, tem mais de 220 páginas e é bastante volumoso. Já a campanha City of My Nightmares é relativamente pequena. O livro tem apenas 120 páginas e se tivesse margens ditas “normais”, podia cair para menos de 100 páginas e de facto não dava aquele peso e volume que merece e podia afastar alguns jogadores.
A campanha continua com ilustrações maravilhosas e a cena urbana traz um aspeto bem diferente do jogo base, com muitas ilustrações de edifícios e plantas urbanas, trazendo assim algo de fresco a Vaesen.
No fundo, aquilo que mais me agrada em Vaesen é que o jogo percebe perfeitamente o tipo de horror que quer contar. Não tenta ser frenético nem excessivamente cinematográfico. Prefere construir desconforto lentamente, usando silêncio, superstição e tragédia. E quando funciona — que é muitas vezes — consegue criar sessões memoráveis sem precisar de exagerar.
E sinceramente, qualquer RPG que me consiga deixar nervoso por causa de uma floresta coberta de neve merece algum respeito.
Visitem o site oficial para mais informações e encomendar.
Dário é um fã de cultura pop em geral mas de banda desenhada e cinema em particular. Orgulha-se de não se ter rendido (ainda) às redes sociais.






