Once (2007) – Cantar ou amar
Após o inesperado acidente que, no passado dia 29 de julho, levou Glen Hansard, parte das atenções da esfera digital voltou-se naturalmente para o filme que o trouxe ao estrelato internacional e que, tal como Before Sunrise, foi angariando uma legião de admiradores suficientemente vasta para o promover a obra de culto.
Na verdade, as comparações com o clássico de Richard Linklater servem sobretudo para tentar definir o tom confessional e urbano por detrás da narrativa, já que Once, escrito e realizado por John Carney, se trata de um musical, filmado na Irlanda, longe das ruas de Viena, sob um orçamento incomparavelmente mais reduzido.

Não fossem os 112.000 € indissociáveis da estética do filme, poder-se-ia discorrer largamente sobre os méritos dos enquadramentos naturalistas e da fotografia de Tim Fleming. Contudo, a verdade é que o humilde financiamento foi um fator basilar da visão de Carney, que durante apenas 17 dias ocupou as ruas de Grafton sem as fechar, aproveitando a luz de postes e candeeiros e usando lentes longas para captar a cidade com pouca interferência e deixar os não-atores mais à vontade. Não obstante, a palavra “visão” jamais poderia ser aplicada por acaso, tão inegáveis se provam a pertinência e a mestria do realizador na condução de um resultado acolhedor, intimista, verdadeiro até no confrangimento, afável, melodioso e cativante.
Antes de Hansard, foi Cillian Murphy quem esteve ligado ao papel principal, enquanto o cantautor, amigo de Carney e antigo colega nos The Frames, se limitaria a contribuir com canções e experiências dos seus anos como artista de rua. O afastamento de Murphy acabou por aproximar Hansard da personagem e a sua evidente química com Markéta Irglová, a artista que, então com 17 anos, vestiu a pele da coprotagonista, parecia justificar a inexperiência de ambos.

Cada cena em que partilham o ecrã parece acrescentar ao que a música e as peripécias vão construindo, pelo que o fim não desilude. Afinal, importamo-nos demasiado com Guy e Girl para nos determos muito tempo nos contornos mais ou menos convencionais do seu destino.
E, voltando à música, a minha condição de leigo é tão sólida como a de apreciador. Assim, fico-me pela constatação do que considero a única hipótese realista para as horas e os dias seguintes ao visionamento: cantar Falling Slowly nas mais variadas ocasiões, umas mais esperadas do que outras.

No que importa, Once subsiste muito para além das idiossincrasias e dos prémios que marcaram o seu percurso. A proximidade ao mundo real, sem abdicar da magia e da inocência associadas aos músicos em aspiração, confere-lhe um cariz igualmente perto da atemporalidade. Quase 20 anos depois, continua a parecer pequeno apenas na escala da produção.
Classificação: 9/10

Fascinado por cinema desde cedo, começou pelas cassetes VHS de casa da avó e acabou a colecionar figuras de clássicos dos anos 80. Hoje, vê cada filme com a mesma curiosidade de então.
