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O Julgamento dos Famintos – Uma obra com personalidade | Crítica

Há primeiros álbuns que nos mostram um autor a tentar perceber qual é o seu caminho. E depois há aqueles em que, mesmo com algumas arestas por limar, percebemos imediatamente que estamos perante alguém com uma voz própria.

O Julgamento dos Famintos, de Jolan Thomas, pertence claramente à segunda categoria. Curiosamente, apesar de ser um western, esta não é uma história particularmente interessada em cowboys, duelos ou heróis. Trata-se de uma história sobre homens que ficaram para trás.

A história inicia-se no final do século XIX, onde o Oeste americano está a mudar. A modernidade chega, a sociedade transforma-se e aquilo que durante décadas pareceu ser um mundo de oportunidades começa a fechar-se para quem não consegue acompanhar a mudança. É neste cenário que o autor coloca três homens : Will, Sheld e John , unidos mais pela exclusão do que propriamente pela amizade. Homens famintos. Aqui a palavra “famintos” é provavelmente a melhor forma de perceber este álbum, porque a fome aqui não é apenas física. É também fome de sobrevivência, de dignidade, de pertença. Fome de uma vida diferente.

O Julgamento dos Famintos

Thomas pega no western e tira-lhe boa parte do romantismo. Não há grande espaço para pistoleiros glorificados ou aventuras heróicas. O Oeste que encontramos aqui é duro, sujo e decadente. Um lugar onde sobreviver já é, por si só, uma vitória. Isto sente-se essencialmente no estilo visual arrojado, num desenho atípico e peculiar. Jolan Thomas trabalha nas pranchas com um traço áspero, nervoso, quase bruto. Há uma evidente influência da gravura e uma enorme preocupação com a luz e a sombra. As personagens parecem nascer da própria escuridão das páginas. É um desenho que não procura ser bonito. Procura ser expressivo e consegue. Confesso que no início me custou “a entrar” mas depois faz todo o sentido.

A utilização dos negros é particularmente eficaz. As sombras não estão ali apenas para criar ambiente. Muitas vezes parecem representar o próprio estado de espírito das personagens. O mundo em que vivem é tão escuro quanto o destino que as espera.Também a cor merece destaque. Temos uma apresentação de  tons terrosos e quentes que ajudam a construir um Oeste muito diferente daquele que tantas vezes vemos na banda desenhada. Aqui não existe aquela paisagem americana quase postal ilustrado que costumamos ver noutras obras como por exemplo Wild West, Nevada ou Lonessome.

Nesta bd vemos poeira, sangue, miséria e gente. Existe também uma sensação permanente de que alguma coisa está prestes a correr mal, como naqueles filmes westerns onde a tensão sobe por causa da música ou da cara dos personagens, da mudança brusca de tonalidade na fotografia ou alteração do clima.

A estrutura narrativa também é interessante. Thomas coloca-nos perante o julgamento e só depois nos leva para trás, para percebermos como aqueles homens chegaram até ali. Ou seja, a pergunta não é propriamente “o que vai acontecer?”  mas sim

“Como é que chegaram a este ponto?”

O Julgamento dos Famintos

É uma escolha inteligente porque transforma a leitura numa espécie de contagem decrescente. Cada acontecimento aproxima inevitavelmente os protagonistas daquele julgamento que sabemos estar à espera deles. Apesar de funcionar, é precisamente aqui que encontro a principal fragilidade do álbum. Pessoalmente eu queria mais: Mais dos personagens. Mais das suas histórias. Mais das suas motivações. Mais da própria transformação daquele Oeste.

O autor tem entre mãos material suficiente para construir uma obra ainda mais profunda, mas o número de páginas acaba por obrigá-lo a deixar algumas dessas ideias apenas sugeridas.

Não considero isso um problema de falta de ambição, pelo contrário. É precisamente porque o álbum tem ambição que sentimos alguma falta de espaço, algo que o autor necessita melhorar na minha perspectiva.

Há personagens que parecem carregar uma história inteira às costas e que, quando chegamos ao fim, deixam a sensação de que ainda havia muito para contar.

Mas talvez seja também essa incompletude que torna O Julgamento dos Famintos interessante.

Estamos perante uma primeira obra com personalidade. Jolan Thomas demonstra aqui uma identidade gráfica muito forte. Ainda terá certamente muito para amadurecer enquanto argumentista, mas como desenhador consegue criar uma atmosfera que fica connosco depois de fecharmos o álbum. Dá-nos um western sombrio, desencantado e bastante humano para quem está habituado a histórias dos filmes de Clint Eastwood.

Uma história sobre aqueles que não conseguiram acompanhar o progresso e sobre homens que foram ficando para trás. Fala sobre uma sociedade que, quando já não precisa deles, parece simplesmente esquecer que existem.

A Seita volta a apostar numa obra que foge um pouco ao western mais tradicional e apresenta-nos um autor que vale a pena acompanhar.

O Julgamento dos Famintos não é perfeito. Mas há qualquer coisa aqui, há uma voz e uma identidade e  sobretudo uma sensação de que Jolan Thomas ainda está apenas a começar. Um western duro e visualmente marcante, sustentado por um desenho de enorme personalidade. O argumento poderia beneficiar de maior desenvolvimento, mas esta estreia deixa água na boca para aquilo que Jolan Thomas poderá fazer a seguir. Fica por isso mais um autor a ter em conta, que eu desconhecia e que me causou um bom impacto nesta primeira impressão.Em França a obra saiu em Janeiro deste ano de 2026 pela Familiar Èditions, editora que desconhecia.  Les Procès des Affamés é uma aposta fora da caixa por parte da ASEITA, que tenho curiosidade em saber como o público reage a nível de compras. Já temos bastantes westerns, pelo que gostaria muito mais de ver apostas na ficção científica, fantasia heróica ou policial. Algumas escolhas são mesmo uma surpresa. Esta foi agradável, mas necessária? Fica a questão. 

O Julgamento dos Famintos

Carlos Maciel

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.

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