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Don’t Say Good Luck (2026) – A herdeira

Don’t Say Good Luck, realizado por Julia Hart a partir de um argumento coescrito com Laura Hankin e Jordan Horowitz, baseia-se na vivência da própria Hankin e conta com a produção de Adam e Jackie Sandler, dando à filha do casal, Sunny, a oportunidade de assumir o seu primeiro papel de protagonismo dramático depois de You Are So Not Invited to My Bat Mitzvah.

Na pele de Sophie Birenbaum, uma jovem de dezasseis anos apaixonada pelo teatro musical cuja mãe enfrenta uma inglória luta contra o cancro, Sandler revela um talento tão natural quanto a entrega que coloca na essência da personagem e consegue, mesmo quando o filme se aproxima dos contornos mais pastelões condizentes com o género, sustentar vários momentos de genuíno apelo.

Havendo no centro da história uma adaptação estudantil de Waitress, para a qual Sophie tenta inicialmente um papel secundário e acaba escolhida para liderar o elenco, os números musicais merecem particular menção, até porque é através de canções como She Used to Be Mine que muito do desgosto íntimo da jovem encontra expressão. Já os seus companheiros de palco e colegas, interpretados por Scarlett Estevez, Jack Champion e Elyse Bell, atravessam a narrativa sem grandes enlevos ou desvios face ao esperado, sendo evidente o peso geracional na construção de personagem, muito pela dependência de arquétipos habitualmente associados à Gen Z.

É, porém, nas cenas de intimidade entre Sophie e a família que Don’t Say Good Luck encontra o seu alicerce mais seguro. Melanie Lynskey e Max Greenfield, enquanto mãe e pai, respetivamente, ocupam a linha da frente de um núcleo tão subjacente quanto definidor neste tipo de filmes, compondo-se a dinâmica com a desordem dos irmãos mais novos e uma breve aparição de Jon Lovitz como funcionário da mercearia familiar. Impedindo esse equilíbrio que o filme resvale para as suas tendências menos inspiradas e comummente designadas como lamechas, o mesmo não se estende, infelizmente, a Bebe Neuwirth e Steve Buscemi, cujas personagens, os avós maternos, possuem um caráter postiço que confrange até os espectadores mais tolerantes. No último ato, onde todos os caminhos vão dar a Roma, entre as agradáveis nuances arrancadas por Sunny Sandler e Melanie Lynskey e o aceno ao tão prometido musical, fecha-se ainda a participação de Stephanie Beatriz como a compreensiva professora de teatro, trazendo algum frescor a um papel menos comum na sua carreira do que neste género de enredos.

Quanto ao conflito central, a conclusão, ainda que simplificada, consegue cativar, ao deter Sophie entre a escolha de não subir ao palco ou encontrar na atuação uma forma de paz e de alento. Num filme que não escapa ao sentimentalismo e aos lugares-comuns que o rodeiam, sobressai sobretudo a sinceridade com que Sandler e Lynskey sustentam essa relação entre mãe e filha, o que lhe confere tecido orgânico suficiente para que a emoção pareça merecida.

Classificação: 5/10

Fascinado por cinema desde cedo, começou pelas cassetes VHS de casa da avó e acabou a colecionar figuras de clássicos dos anos 80. Hoje, vê cada filme com a mesma curiosidade de então.

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