Do terror à aventura: 7 filmes que revelam a versatilidade de Sam Neill
Quando Steven Spielberg procurava um protagonista para “Jurassic Park” (1993), queria alguém que inspirasse inteligência, serenidade e uma certa vulnerabilidade. Encontrou essas qualidades em Sam Neill.
O paleontólogo Alan Grant transformou-o num dos rostos mais reconhecíveis do cinema dos anos 1990, mas também teve um efeito colateral: para muitos espectadores, o actor ficou para sempre associado aos dinossauros.
A morte de Neill, no passado dia 13 de Julho, aos 78 anos, convida a revisitar uma carreira muito mais ampla. Ao longo de cinco décadas, o actor neozelandês recusou acomodar-se ao estatuto de estrela de Hollywood.
Preferiu alternar entre produções independentes e grandes estúdios, entre o cinema de autor europeu, o terror, a ficção científica, o drama histórico e a televisão. Trabalhou com alguns dos realizadores mais importantes da segunda metade do século XX e construiu uma filmografia onde quase nunca repetiu o mesmo tipo de personagem.
Poucos meses antes de morrer, encontrava-se em remissão de um raro linfoma angioimunoblástico de células T, doença que o levou a escrever as memórias “Did I Ever Tell You This?”, inicialmente pensadas como um legado para os filhos e netos. Acabaram por se tornar também um retrato de um actor que nunca pareceu demasiado preocupado com a própria mitologia.

Há muito para descobrir para lá de Alan Grant. Estes sete filmes ajudam a perceber porquê.
“Possession” (1981), de Andrzej Żuławski
É difícil imaginar um início de carreira internacional mais ousado. Em “Possession”, Sam Neill interpreta um homem que assiste ao colapso do casamento enquanto a realidade parece dissolver-se numa sucessão de pesadelos.
Andrzej Żuławski filma o horror como um prolongamento das emoções e Isabelle Adjani oferece uma das interpretações mais radicais da história do cinema. Neill acompanha-a sem nunca perder o equilíbrio entre o desespero e a contenção.
O resultado continua a ser uma das experiências mais perturbadoras do terror psicológico.
“A Cry in the Dark” (1988), de Fred Schepisi
Inspirado no mediático caso Chamberlain, que dividiu a opinião pública australiana, o filme acompanha um casal acusado pela sociedade depois do desaparecimento da filha bebé.
Ao lado de Meryl Streep, Sam Neill evita qualquer dramatização excessiva. O seu Michael Chamberlain é um homem confrontado não apenas com uma tragédia familiar, mas também com a violência de um julgamento público alimentado pelo sensacionalismo.
É uma interpretação discreta, precisamente por isso uma das mais fortes da sua carreira.
“Dead Calm” (1989), de Phillip Noyce
Muito antes de “Jurassic Park”, Hollywood percebeu que Sam Neill conseguia sustentar um thriller praticamente sozinho.
Em “Dead Calm” divide o ecrã com Nicole Kidman e Billy Zane numa história passada quase integralmente em alto-mar. O espaço reduzido transforma-se num mecanismo de tensão permanente e Neill demonstra uma capacidade rara para construir suspense sem recorrer a grandes explosões emocionais.
“The Hunt for Red October” (1990), de John McTiernan
Entre submarinos soviéticos e estratégias militares, seria fácil que uma personagem secundária passasse despercebida. Sam Neill faz exactamente o contrário.
Como Vasili Borodin, oferece humanidade a um filme dominado pela maquinaria da Guerra Fria. Basta observar a cumplicidade que estabelece com o comandante interpretado por Sean Connery para perceber porque continua a ser uma das figuras mais memoráveis do elenco.
“O Piano” (1993), de Jane Campion
O ano de 1993 ficou inevitavelmente associado aos dinossauros. Mas foi também o ano em que Sam Neill participou numa das obras maiores do cinema contemporâneo.
Em “O Piano”, Jane Campion coloca-o no centro de um drama onde os silêncios pesam tanto quanto os diálogos. O actor interpreta um homem incapaz de compreender os desejos da mulher que desposa. A contenção da interpretação torna ainda mais evidente a violência emocional que percorre todo o filme.
“In the Mouth of Madness” (1995), de John Carpenter
Poucos actores conseguem convencer tanto como homens racionais confrontados com o impossível. Sam Neill era um deles.
John Carpenter aproveita essa característica para construir uma história onde literatura, paranoia e horror cósmico se confundem continuamente. O filme foi recebido com alguma frieza na estreia, mas acabaria por conquistar um estatuto de culto que nunca mais perdeu.
“Event Horizon” (1997), de Paul W. S. Anderson
Se “Alien” mostrou que o espaço podia ser assustador, “Event Horizon” demonstrou que também podia enlouquecer.
Neill interpreta um cientista consumido pelas consequências da própria ambição, numa obra que mistura ficção científica e terror de forma pouco habitual para a época. O insucesso comercial inicial deu lugar, anos depois, ao reconhecimento como um dos grandes filmes de culto do género.
Muito para além de Alan Grant
A carreira de Sam Neill nunca dependeu exclusivamente de “Jurassic Park”. Pelo contrário. Enquanto outros actores permaneceram presos às personagens que os celebrizaram, Neill continuou a procurar projectos improváveis, realizadores exigentes e histórias que escapavam às fórmulas de Hollywood.
Talvez seja essa a melhor forma de olhar para o seu percurso. Não como o actor que enfrentou dinossauros, mas como alguém que passou cinquenta anos a evitar repetir-se. E que, quase sempre, conseguiu.

Brasileiro, Tenório é jornalista, assessor de imprensa, correspondente freelancer, professor, poeta e ativista político. Nomeado seis vezes ao prémio Ibest e ao prémio Gandhi de Comunicação, iniciou sua carreira no jornalismo ainda durante a graduação em Geografia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), escrevendo colunas sobre cinema para sites, jornais, revistas e portais do Nordeste e Sudeste do Brasil.

