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Cinema – Análise: Valor da Vida

Qual é o valor de uma vida? Por norma, esta é uma questão sem uma resposta satisfatória, reservada a diálogos e domínios mais filosóficos.

No filme Valor da Vida (baseado no livro What Is Life Worth?, de Kenneth Feinberg), contudo e muito para além de considerações teóricas, esta pergunta exige uma resolução prática e urgente.

Estreado originalmente no início de 2020, no âmbito do Festival de Cinema de Sundance, Valor da Vida chega oportunamente às salas de cinema (e, noutros mercados que não o nosso, ao serviço Netflix) em vésperas do vigésimo aniversário dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Nos vinte anos que nos separam agora dessa efeméride, o mundo em que vivemos mudou muito. Todavia, a tendência humana para interpretar, recontextualizar, racionalizar e até glorificar eventos impactantes através da arte manteve-se inalterada: direta ou indiretamente sobre o 11 de setembro, ficcionados ou baseados em factos reais, têm sido produzidos filmes que de alguma forma tendem a personalizar a tragédia, enaltecendo as vítimas dos atentados (como United 93, de Paul Greengrass), os familiares e entes queridos (como Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Stephen Daldry) ou os militares que foram destacados em sucessivas missões no Médio Oriente.  

Realizado por Sara Colangelo (responsável pela versão americana de A Educadora de Infância) e escrito por Max Borenstein (argumentista dos vários filmes do recente MonsterVerse), Valor da Vida não é menos intimista, mas oferece-nos uma perspetiva diferente. O advogado Kenneth Feinberg (Michael Keaton) foi designado pelo Procurador-Geral John Ashcroft (Victor Slezak) para supervisionar o processo de indemnização às vítimas e seus familiares no rescaldo do 11 de setembro. Ajudado e muitas vezes guiado pela sua sócia, Camille Biros (Amy Ryan), bem como por toda a sua sociedade de advogados, personificada sobretudo na figura de Priya Khundi (Shunori Ramanthan), Kenneth Feinberg tenta dar uma resposta satisfatória à questão inicial desta crítica – qual é o valor de uma vida?

Se uma distribuição equitativa do fundo de compensação às vítimas parece, à primeira vista, ser a solução mais justa, figuras como Lee Quinn (Tate Donovan) estão presentes no filme para argumentar que, não desconsiderando o valor sentimental e humano das vítimas, uma porção significativa de lesados era milionária (CEOs, diretores, gestores e banqueiros que trabalhavam nas Torres Gémeas), pelo que o peso relativo da sua perda para as respetivas famílias exigiria uma compensação à altura. Outras pessoas, como Charlie Wolf (Stanley Tucci), familiar de uma vítima, fundador e líder do movimento Fix the Fund (numa tradução possível, Consertem o Fundo), ou Karan Abate (Laura Benanti), esposa de uma vítima, realçam constantemente a importância de uma face humana no processo, fazendo Kenneth questionar a justiça e adequação das suas fórmulas matemáticas. No meio disto tudo, o advogado sente a enorme pressão do seu dever patriótico, tendo a missão de angariar 85% do total de lesados pelo 11 de setembro, demovendo-os de processar o Estado Federal e/ou as empresas envolvidas na calamidade. Qualquer valor abaixo disso, de acordo com as previsões económicas do governo de Bush, significaria uma queda sem precedentes da economia norte-americana. 

Valor da Vida pode ter uma premissa de compreensão simples, mas esconde várias camadas de complexidade debaixo da superfície, que elevam o filme a um outro patamar de qualidade. Cada variável que tem de ser tida em conta na indemnização das vítimas levanta novas questões, cada situação particular parece requerer uma solução diferenciada num processo que se pretende quase automatizado e absolutamente imparcial. Os dilemas que Valor da Vida vai apresentando são duros, são genuinamente difíceis, não só para as personagens como para o público, que é convidado a refletir e a ponderar sobre os conflitos que o filme vai expondo. A realização extremamente competente de Sara Colangelo contribui para essa sensação de constante peso e reflexão: alguns dos melhores momentos do filme não têm sequer qualquer diálogo, sendo meras contemplações de personagens a constatar a situação em que se encontram.

As interpretações de todo o elenco, nesses momentos contemplativos e não só, são de grande qualidade e, aliadas à realização, conseguem muitas vezes evitar a queda do filme no território do melodrama. Tecnicamente, excetuando uma estranha transição entre duas cenas (o filme tem edição de Julia Bloch), todas as restantes vertentes do filme convergem no sentido de sublinhar a sobriedade, realismo e humanidade que a obra como um todo parece procurar. 

Já passaram alguns dias desde que tive a oportunidade de ver Valor da Vida, mas continuo a refletir sobre o filme. A perspetiva que oferece sobre os eventos do 11 de setembro é diferente, é interessante e está bem desenvolvida. Mais do que um estudo exploratório sobre a perda de uma pessoa em particular, ou mais do que a glorificação de determinados heróis, Valor da Vida acaba por se debruçar sobre o sentimento de perda em si, abordando as várias dimensões do sofrimento de uma sociedade num momento particularmente trágico. Por esses motivos, a película assume-se como um importante contributo para a compreensão de uma tragédia que, volvidos vinte anos, continua a ser difícil de entender, pelo menos em toda a sua extensão. Os Estados Unidos da América podem ter tentado calcular o valor económico de cada vida perdida, mas o legado humano perdido naquele dia (e nos meses e anos seguintes, em virtude de sequelas físicas e psicológicas) tem um valor incalculável.

Nota final: 8/10 

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