Cinema: Crítica – Os Mortos Não Morrem (2019)

Jim Jarmusch é um homem de estilo variado. Prova disso é a sua extensa filmografia, desde o clássico Homem Morto, com Johnny Depp, a obras mais recentes como Paterson, ou a extraordinária carta de amor aos vampiros, Só os Amantes Sobrevivem, passando pelo documentário retratando a vida de Iggy Pop e os Stooges em Gimmie Danger.

Tudo isto define Jarmusch como um realizador curioso de se ver, filme após filme, nunca sabendo bem o que esperar do próximo. Desta vez, esse próximo é, com alguma surpresa, um filme de zombies.

Em Os Mortos Não Morrem, o mundo está do avesso, mas é a pequena vila de Centerville que é o centro do fim do mundo como o conhecemos. Devido à exploração de gás natural nos pólos, a Terra saiu dos seus eixos, alterando drasticamente o seu funcionamento normal, causando que os mortos voltassem a vaguear as ruas.

Do outro lado está Chief Cliff Robertson (Bill Murray) e o seu parceiro Ronnie (Adam Driver), juntamente com Mindy (Chloë Sevigny), as únicas forças da lei nesta terra. Mas nenhum deles estava preparado para o que vinha aí.

É bizarro, a ideia que Jarmusch fosse abordar esta temática demasiada revisitada na última década, ainda para mais de um ponto de vista cómico e com referências a si mesmo, sendo uma espécie de paródia ao género que George A. Romero definiu no cinema.

Existem diversos pormenores que nos fazem rir, desde da abordagem política, que perante provas científicas recusam assumir responsabilidade pelo que fizeram, às formas que Jarmusch encontrou para fazer piadas, como Wu-PS, onde o rapper e actor RZA, dos Wu-Tang Clan, faz uma breve aparição. A isto se junta um elenco saído dos anos ’90, ao qual consta Danny Glover, Steve Buscemi e Tom Waits, tudo numa onda nostálgica, ao qual se junta Selena Gomez e o próprio Iggy Pop como zombie.

  Cinema: Crítica - Le Mans '66: O Duelo

Em destaque está a peculiar Zelda Winston (Tilda Swinton), uma mulher escocesa que se mudou recentemente para Centerville e que trabalha no funerário. Zelda é também perita em usar espadas de samurai, algo que se torna útil nesta invasão de zombies, tornando-se numa das personagens mais divertidas deste filme.

Há que notar que a química entre Murray e Driver funciona duma forma incrível, tornado muitas das cenas do par serem das melhores do filme, com momentos inspirados pelos clássicos da comédia que Murray é tão bem conhecido. Da mesma forma, existem momentos onde há uma consciência que algo absurdo como isto só poderia ser um filme, algo que é abordado de uma forma relativamente divertida.

Ainda assim, partes do argumento parecem existir apenas para criar situações cómicas que acabam por ter pouco ou nenhum impacto à sua narrativa principal, por vezes estendendo-se demasiado, retirando tempo a ideias melhores que poderiam ter sido mais desenvolvidas e no fim, ter sido um filme onde a sua mensagem constante de nós sermos os causadores do apocalipse poderia ter sido certamente mais subtil.

Desta forma, Os Mortos Não Morrem por nossa causa, pelos vistos. Numa carreira com muitos altos e poucos baixos, esta obra parece ficar algures pelo meio, com tantos momentos bons como terríveis, entre uma paródia barata dos anos ’00 e referências irónicas que deliciam quem as apanhar. O próximo com certeza que será melhor. Esperemos nós.

Nota Final: 6/10

Ricardo Du Toit

Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.

You may also like...

1 Response

  1. Frederico Daniel diz:

    Os Mortos Não Morrem: 3*

    Com uma primeira parte monótona e uma segunda parte menos secante, este é um bom filme para relaxar.

    Cumprimentos, Frederico Daniel.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *