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Cinema: Crítica – Mother Mary

O cineasta David Lowery regressa ao grande ecrã com a A24, com um thriller surpreendente em Mother Mary, com Anne Hathaway.

David Lowery é um cineasta que se tem destacado no cinema de género de uma forma um bocadinho diferente. A Ghost Story é uma história de perda e amor, enquanto A Lenda do Cavaleiro Verde é um filme de época com uma personalidade muito própria. O que ambos têm em comum é que são produzidos pela A24, a aclamada produtora de filmes independentes, que tem servido como um selo de aprovação e vivido desse novo conceito de cinema junto dos públicos mais jovens. Desta vez, Lowery regressa à produtora com um filme teatral, em Mother Mary.

Mother Mary (Anne Hathaway) é uma estrela pop, mundialmente conhecida e admirada, que, ao preparar-se para o seu regresso aos palcos, após um grave acidente, se apercebe de que a única forma de conseguir viver consigo mesma é fugir para o meio do nada junto de Sam Anselm (Michaela Coel), uma designer de moda, sua amiga e colaboradora de quem se afastou. Juntas, planeiam o guarda-roupa perfeito para o derradeiro regresso de Mother Mary, mas existe algo mais para além disso a pairar no ar.

O contraste entre as duas grandes obras de Lowery produzidas pela A24 demonstra que o mesmo parece sentir-se mais confortável perante o surrealismo e a liberdade performativa que se refletem nos seus argumentos, conseguindo transformar uma situação tão simples em momentos de verdadeira tensão e ambiguidade, aliados a atuações icónicas por parte de Hathaway, que nos fazem desejar que a atriz fosse também uma cantora em digressão mundial, com uma banda sonora que inclui nomes como Charli XCX e FKA twigs – esta última, que também tem um papel especial – como compositoras dos temas.

A estrutura da obra, em grande parte, faz parecer que estamos perante uma adaptação para palco de uma das maiores peças do West End londrino, com Hathaway e Coel a dedicarem-se a diálogos pesados, pensativos e efémeros sobre a vida, a morte e tudo o que existe pelo meio, rodeadas de manequins e tecido, em busca de uma resposta concreta. Isto enquanto o filme pinta uma história sobre uma diva que já esteve no ponto mais alto da sua carreira e que agora, ao estar no ponto mais baixo, procura reaver alguma coisa pertencente a si mesma, custe o que custar.

Embora as duas atrizes retratem brilhantemente as suas personagens, com uma ligação que apenas uma irmandade poderia proporcionar, o grande problema reside na tamanha ambiguidade das suas palavras e das suas ações, bem como na forma como o filme trata os elementos sobrenaturais, numa espécie de Suspiria moderno, mas completamente adjacente àquilo que Dario Argento criou nos anos 70 e longe daquilo que Luca Guadagnino alegadamente homenageou décadas mais tarde.

Resguardado no fascínio do seu argumento e nos seus visuais, estes sim memoráveis pela atenção ao detalhe e pelo esplendor de nos mostrar o que seria da carreira de Hathaway se tivesse tido a oportunidade da sua vida para ser uma estrela pop, Mother Mary acaba por perder coesão nas suas inconsistências emocionais, nunca sabendo ao certo se é capaz de equilibrar tudo aquilo que quer ser, tornando-se numa experiência frustrante, sobretudo para aqueles que procuram algo para além da interpretação subjetiva de tudo o que vemos.

Nota Final: 6/10

Ricardo Du Toit

Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.

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