O ano da BD em 2016: Lançamentos, mercado, eventos

Agora que 2016 começa finalmente a ficar para trás, podemos fazer um balanço do ano passado em termos de BD, e pelo caminho falar um pouco do mercado e do que nele aconteceu, e recapitular também algo do ano 2015.

Editoras e lançamentos

Esta análise é feita por alguém que está profundamente mergulhado nesse mercado como “participante” (sou sócio de uma das editoras activas no mercado e faço a coordenação editorial de vários outros projectos, ao ponto de cerca de 40% de todos os livros editados em 2016 terem passado pelas minhas mãos), pelo que será sempre uma análise comprometida, que deverá ser vista com alguma “desconfiança” e olhar crítico.

Existem muitas maneiras de começar uma análise deste género, mas a mais simples consiste em olhar primeiro para os lançamentos e para a realidade das editoras que estiveram activas no mercado. Desta análise exclui o mercado de revistas de bancas, pela razão de que me parece que ele vive separado do resto da edição de BD em Portugal, e pelo facto de se resumir (grosso modo) à Goody e aos títulos Disney, depois da fracassada experiência da Panini de edição de Marvel. As outras publicações que existam são geralmente pontuais, ou não têm a BD como parte principal do seu conteúdo. Exclui também todas as BDs importadas: por um lado as suas vendas não são especialmente relevantes, e por outro, se contribuem para uma maior diversidade de BD disponível (sobretudo no caso das editoras brasileiras Panini e Mythos), não representam nenhum tipo de esforço ou investimento específico no nosso mercado. E finalmente, separa os lançamentos de BD de editoras consagradas ou estabelecidas, das edições de autor, fanzines etc… que representam apesar de tudo uma parte importante da produção nacional.

Caravaggio, Arte de Autor

Caravaggio vol. 1 – Arte do interior

Existem neste momento no nosso país algumas editoras que eu classificaria como “de BD”, ou por se dedicarem exclusivamente ou quase à BD, ou por lançamentos regulares e presença importante na BD. Neste momento, as editoras de BD no nosso país são: Arte de Autor, ASA, Bicho Carpinteiro, Chili com Carne/MNRG, Devir, G.Floy, Kingpin, Levoir, Planeta, Polvo e Salvat. Um pequeno grupo de 11 editoras apenas, que no ano de 2016 lançou um total de 180 títulos. Na minha análise contabilizei um total de c. 225 livros/edições de BD, mas admito que me tenham escapado algumas (poderão encontrar um PDF no fim deste artigo com uma listagem, e caso algum leitor detecte falhas ou omissões, agradecemos envio de email para geral@centralcomics.com, iremos corrigindo à medida). Agradeço também ao Pedro Cleto (de As Leituras do Pedro), que me ajudou a coligir os dados todos, e que publicou também já a sua análise, que pode ser lida em complemento desta.

Neste total de 225 títulos incluem-se também as seguintes edições variadas: títulos lançados por editoras generalistas que pontualmente editam BD (Bertrand, ou Tinta da China, p.ex.), e vários títulos que classifiquei como “independentes/edições de autor/fanzines”. É uma categoria ambígua, e que tem importância no geral, como ponto de lançamento de autores portugueses, como local de experimentação, etc… mas que não têm grande impacto no panorama nacional da BD (o seu efeito é restrito ao grupo muito limitado de algumas centenas de fãs).

STAR WARS AJUSTE DE CONTAS NA LUA DOS CONTRABANDISTAS

Star Wars: Ajuste de Contas – Arte do interior

Como primeira conclusão, podemos dizer que as “editoras de BD nacionais” (as 11 que editam BD com regularidade) editaram c. de 80% dos livros de banda desenhada lançados este ano em Portugal. Este número sobe para c. 90% se incluirmos as edições independentes na categoria de “editoras de BD”.

No grupo das 11 editoras de BD, podemos identificar dois pelotões: o da frente, essencialmente composto pelas editoras com mais lançamentos, ou tiragens claramente maiores, e as outras mais pequenas. No primeiro pelotão temos: ASA, Devir, GFloy, Levoir e Salvat. No segundo a Arte de Autor, Bicho Carpinteiro, Chili com Carne, Kingpin, Polvo e Planeta. Aqui encontramos uma das primeiras dificuldades de análise, que tem a ver com o critério que usamos mais prioritariamente: número de lançamentos por ano? Ou vendas? Ou tiragens/vendas unitárias? Alguns exemplos: a Polvo contabiliza 8 livros de BD, versus os 7 que a Planeta lançou. Mas na verdade – e qualquer que seja a análise que façamos da qualidade dos títulos editados pela Polvo – a Planeta deve ter impresso só dos primeiros dois volumes de Star Wars que lançou (ou do primeiro?), tanto ou mais como TODOS os livros da Polvo juntos. Nesta análise é quase impossível estimar vendas (e quase não se sabem números), pelo que usarei o número de lançamentos como o principal indicador.

NOVELAS GRAFICAS 2016 15 os exércitos do conquistador

Os Exércitos do Conquistador – Arte do Interior

Relativamente às editoras de BD maiores diria o seguinte:

A Levoir afirmou-se este ano como a principal editora de BD no nosso país, certamente em número de lançamentos e em impacto mediático, mas sobretudo em número de lançamentos. Foram 45 livros (contra 39 no ano passado), distribuídos por 16 títulos de super-heróis DC, e 18 livros inseridos no conceito “abstracto e algo indefinível” de Novelas Gráficas, de várias proveniências em termos de países de origem, géneros, etc… Colecções às quais se juntam o lançamento em 11 volumes de Sandman, de Neil Gaiman.

Já a Devir tem tido um percurso bem marcado na sua evolução: depois de um período de relativo adormecimento, tornou-se sem margem para dúvida na segunda editora de BD do nosso país. Em 2015 tinha subido a sua produção para 21 lançamentos, mas em 2016 foram 37 lançamentos, quase o dobro. Neste total, o manga é predominante no catálogo da Devir (23 lançamentos), e o restante é constituído essencialmente por títulos de comics independentes americanos, entre os quais podemos contabilizar alguns títulos virados para leitores mais juvenis (num total de 5 volumes).

bernard prince 10

Bernard Prince 10 – O Sopro de Moloch – Capa

A ASA manteve um programa editorial que não mostrou qualquer surpresa, que parece viver de trabalho feito em anos passados, e de livros retirados de um catálogo muito clássico (e algo datado). Foram um total de 27 livros (contra 28 no ano passado), dos quais 22 inseridos em apenas três colecções lançadas em conjunto com o Público: Bernard Prince, Jonathan e Túnicas Azuis. Dito isto, este ano foram lançados mais álbuns fora do Público, 5 contra 2 do ano passado.

A Salvat apareceu no panorama editorial com uma colecção de livros da Marvel, e não hesito em incluir a editora neste pelotão da frente. A sua colecção tem tiragens e ritmo de lançamento que justificam esta inclusão, e com 26 lançamentos em 2016, integrou automaticamente o grupo das “editoras de BD da frente”.

A GFloy mostrou também uma forte progressão no seu número de lançamentos: em 2015 era “a maior dos mais pequenos”, com 10 lançamentos, e em 2016 tornou-se na “mais pequena dos grandes”, com 19 lançamentos. A editora concentrou-se em séries americanas, algumas independentes mas relativamente comerciais e outras de heróis da Marvel, e estreou também o seu primeiro romance gráfico, vindo do mercado francês.

Saga volume 4 - Página 4

Saga volume 4 – Página 4

As editoras maiores de BD representaram um total de 154 edições, ou seja c. 70% do total da produção nacional.

ASA: 27 títulos
Devir: 37 títulos
GFloy: 19 títulos
Levoir: 45 títulos
Salvat: 26 títulos
Total: 154 títulos

Atrás deste grupo inicial, temos outras 6 editoras, que podemos dividir assim: por um lado, 3 editoras muito ligadas à edição de autores portugueses (com uma história importante neste domínio), Chili com Carne (CCC), Kingpin e Polvo – não obstante terem catálogos diversificados – às quais se juntaram nestes últimos tempos mais 3 editoras regulares, Arte de Autor, Bicho Carpinteiro e Planeta. Por ordem alfabética:

A Arte de Autor surgiu este ano como editora de pleno direito. Depois de um único lançamento em 2015, foram 5 em 2016, maioritariamente dentro da categoria de “romances gráficos”, incluindo dois títulos de autores espanhóis, e o restante dos lançamentos saídos do mercado francês.

A Vida Oculta de Fernando Pessoa

A Vida Oculta de Fernando Pessoa – Arte do Interior

A Bicho Carpinteiro poderia ter ficado na categoria mais diversificada das “outras editoras”, mas teve um dos bons sucessos do ano, em termos de autores portugueses (e brasileiros), e com dois lançamentos parece querer tornar-se numa das editoras regulares de BD no nosso país.

A Chili Com Carne veio de um ano muito forte de 2015, em que lançou 14 títulos (embora alguns mais ou menos a meio caminho entre o livro e o fanzine, mas optei por incluí-los a todos, até pela originalidade do catálogo da editora), e diminuiu a sua produção em 2016 para um total de 6 lançamentos.

A Kingpin teve também uma descida da sua produção: de 8 lançamentos (mais 3 em inglês) passou a apenas 2 em 2016 (um autor estrangeiro, e um mini-comic de autor português, sendo que atrasos em projectos de autores portugueses foram provavelmente a razão da diminuição [editado]).

A Planeta aparece pela primeira vez como editora de BD regular, com sete volumes de BD americana, todos vindos do universo Star Wars.

Tex Galveston Preview

Tex Galveston – Arte do Interior

Finalmente, a Polvo lançou este ano 9 títulos (contra 11 em 2015), num catálogo misto de autores brasileiros, Tex e autores portugueses, mas sempre dentro do género geral de novela gráfica, com algumas excepções.

De salientar a ausência da El Pep, que embora tenha tido um par de lançamentos, não editou nenhum título que se possa classificar como de BD.

No total, este pequeno grupo de editoras foi responsável por cerca de 12% dos lançamentos. Ou seja, houve outros 19% que saíram de outras editoras: editoras mainstream, como a Bertrand, ou Tinta da China, que pontualmente editam BD, pequenos projectos de autor, fanzines, etc…

Arte de Autor: 5 títulos
Bicho Carpinteiro: 2 títulos
Chili Com Carne: 6 títulos
Kingpin: 2 títulos
Polvo: 9 títulos
Planeta: 7 títulos
Total: 31 títulos

Títulos e géneros

É interessante olhar para os tipos e géneros de BD editados, tentando categorizá-los. Nesta análise, há títulos que podem pertencer a duas ou mais categorias, por isso, registem-se as tendências, mais do que os números absolutos.

Autores portugueses

H-Art - Arte do Interior

H-Art – Arte do Interior

Se 2015 tinha sido um ano muito forte para a BD de autores portugueses, 2016 foi em sentido contrário. As editoras tradicionais de BD portuguesa foram muito contidas: a Kingpin apenas teve um lançamento, bem como a Polvo, e a Chili dois, enquanto a Bicho Carpinteiro teve 2 (mistos, já que com desenhadores brasileiros e argumentistas portugueses). A estes somam-se os dois lançamentos da Tinta da China; um na Europress, um na Gradiva, e assim por diante. E temos também o universo mais geral dos fanzines e edições de autor. No total foram 32 lançamentos, repartidos por todos os níveis de lançamento: do romance gráfico de peso (Os Vampiros) aos mini-comics (Altemente ou O Incrível Tarantantan), aos fanzines e às edições da Escorpião Azul. Destacaríamos a existência de várias antologias, incluindo fanzines (H-Alt, Zona de Contacto) e títulos como Crónicas da Comic Con ou Sobressaltos. Fica a sensação de que faltaram mais lançamentos da Kingpin, e a edição de mais livros com a qualidade física a que a editora nos tinha habituado em 2015.

Se excluirmos as edições independentes, o total de livros de autores portugueses foi de 15 livros, 6,5% do total, mas neste caso específico, não creio que se devam excluir as muitas edições independentes, que fazem subir o total para mais de 30 edições.

vampiros

Vampiros – Arte do Interior

Dito isto, Os Vampiros é sem dúvida um dos maiores lançamentos do ano, não só pela qualidade do livro, mas também pelo seu sucesso comercial, que comprova que os autores portugueses concorrem sem grande problema com os lançamentos de livros estrangeiros. Nesta categoria podemos também citar o quarto volume das aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, bem como A Vida Oculta de Fernando Pessoa, como alguns dos títulos de autores portugueses que mais sucesso tiveram durante o ano, e que ombrearam à vontade com as edições de livros estrangeiros, bem como o lançamento de antologias que tiveram importância na divulgação dos autores portugueses, como Sobressaltos, ou sobretudo as Crónicas do Comic Con.

Manga

Nesta categoria, a Devir continua sozinha. Foram 23 livros, repartidos por 5 séries, e se olharmos para a segunda metade do ano, e para o ritmo de lançamento que a Devir manteve nesse período, podemos esperar um aumento forte do número de títulos (e de séries) editados em 2017. Sendo muito liberal, poderíamos acrescentar Terra de Sonhos, de Jiro Taniguchi (Levoir), e subir para 24 o número de lançamentos de autores japoneses (11% do total de lançamentos).

Franco-belga

AS AGUIAS de roma 5 Página 8

As Águias de Roma vol. 5 – Página 8

O franco-belga continua moribundo e praticamente confinado à edição de títulos muito clássicos, sem grande renovação. A ASA continua a ser praticamente a única editora a trabalhar esta categoria de BD, com um ou outro lançamento pontual de outras editoras. Os leitores poderão achar que editar séries franco-belgas com 60 ou 70 anos é o mesmo que editar séries de super-heróis com o mesmo tempo; afinal, Batman e outros heróis da DC também festejaram há pouco 75 anos de idade. No entanto, a renovação constante das personagens, dos argumentistas e desenhadores, e a sua reinterpretação constante para novas épocas, fazem com que seja possível dizer que editar Batman é editar BD contemporânea, de uma maneira que o franco-belga raramente consegue. E quando existem no franco-belga esses títulos renovados, essas reinterpretações (ie. os Spirous de autor, ou o recente O Homem que Matou Lucky Luke), as editoras nacionais não investem nesses títulos. A ASA lançou 27 livros, dos quais apenas um pertence à categoria de BD franco-belga “contemporânea” (As Águias de Roma). Nas outras editoras, o franco-belga brilhou pela sua ausência: chegaram bastantes livros saídos do mercado francês às livrarias nacionais, mas cabem melhor na categoria de “novela gráfica”. Haverá dois títulos na Levoir (A Garagem Hermética e Os Exércitos do Conquistador), dois na Arte de Autor (Druuna e S.O.S. Meteoros) e um na GFloy (O Segredo de Coimbra) que podem ser classificados como franco-belgas, e que elevam a 32 o número de lançamentos nesta categoria: cerca de 15% do total.

Comics

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Daytripper – Arte do Interior

Chegámos a uma das maiores categorias no panorama nacional da BD: os comics americanos. Esta categoria inclui os títulos de super-heróis e as séries fortes das majors (DC e Marvel), e a produção independente de editoras como a Image, Boom ou Dark Horse, que se encontra surpreendentemente bem representada no nosso país. Comparada com a situação que se vivia há uns dez ou quinze anos atrás, o panorama actual representa uma inversão completa de paradigma da BD nacional: que os comics e a BD americana se tenham tornado na categoria principal de banda desenhada, num país que durante anos foi completamente dominado pelo franco-belga, é uma enorme mudança. São várias as editoras que se dedicam à edição de comics: a Planeta, Salvat e GFloy editam exclusivamente (ou quase) comics, a Levoir primariamente (cerca de dois terços dos seus lançamentos), e um terço da produção da Devir é também de comics. Existe alguma ambiguidade na classificação na categoria: Daytripper, é novela gráfica brasileira, ou comic? A História de um Rato Mau é comic, ou BD de autor britânico, apesar de ter sido lançada em formato comic pela Dark Horse? Mas poderíamos dizer que foram mais de 90 títulos de comics editados no nosso país (contra os cerca de 30 representantes de franco-belga), dos quais cerca de metade de super-heróis DC ou Marvel. Mais de 40% da produção actual de BD em Portugal é de comics americanos.

Novela/Romance gráfico

Parque Chas

Parque Chas – Arte do Interior

Esta é a tal categoria ambígua e algo abstracta, em que cabe muita coisa. Não é fácil de classificar todos os livros, e por vezes é tentador dizer como na célebre frase sobre a diferença entre pornografia e erotismo, “não sei explicar a diferença, mas sei o que é quando o vejo”. Poderíamos dizer o seguinte: existe uma percepção crescente da existência de um certo tipo de BD a que se pode chamar de “romance ou novela gráfica” (sem entrar na controvérsia sobre usar uma ou outra designação, ambas válidas na minha altura). Grosso modo, distingue-se pela abordagem de temas mais adultos, mais controversos, mais literários, mais auto-contidos, seja qual for o critério efectivo, mas “sabemos o que é quando o vemos”. Nesta categoria, temos duas colecções expressamente baptizadas com o nome, a colecção da Levoir lançada no Público, que parece poder vir a tornar-se num evento regular anual, e que teve 15 volumes em 2016, alguns dos quais já classificados noutras categorias, o que põe o problema da classificação; por mim, p.ex. um livro como A História de um Rato Mau cabe perfeitamente em duas categorias, novela gráfica e comic, mas se tivesse de optar, optaria pela primeira; mas A Garagem Hermética, que talvez caiba nas de novelas gráficas e na de franco-belga, provavelmente ficaria neste caso na segunda. E temos a colecção Romance Gráfico Brasileiro, na Polvo. É também nesta categoria que se podem classificar a maioria dos livros de BD editados por editoras que normalmente não são de BD: Teorema, Bertrand, Gradiva… E que dizer dum livro como Os Vampiros, classificado em Autores Nacionais? Não será também uma numa novela gráfica? Nesta categoria estão também todos os lançamentos de autores espanhóis que saíram este ano – e foram bastantes e de monta, incluindo volumes de Altarriba, Prado ou Paco Roca, p.ex. – o que parece indicar uma tendência também.

Numa contagem conservadora, e tendendo a não classificar como novela gráfica os casos que podem ser classificados noutras categorias, contamos 24 novelas gráficas, tantos lançamentos como os de manga. Um pouco mais de 10% do total.

Outros

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Baby Blues 33 – Página 2

Existem livros que pertencem a outras categorias. Por definição, todos os fanzines e antologias de autores portugueses ficam simplesmente nessa categoria, embora possam pertencer a outras categorias. Uma categoria que parece ter desaparecido completamente, é a das tiras humorísticas. Três títulos apenas, das séries mais conhecidas (Baby Blues, Zits), um ou outro livro de autores portugueses que caberiam nesta classificação, Cyanide & Happiness e possivelmente Gumball, na Devir, ou alguns dos títulos da Chili Com Carne; possivelmente, pouco mais de meia-dúzia de livros, uma categoria que se tornou irrelevante.

Por categorias, teríamos assim o seguinte, arredondando um pouco as percentagens:

Comic: 41% (90+ títulos)
Franco-belga: 14,50% (c. 32 títulos)
Autores portugueses: 14,50% (c. 32 títulos)
Manga: 11% (24 títulos)
Novela gráfica: 11% (c. 24 títulos)
Outros (?): 8% (pouco mais de 20 títulos)

São números que tornam o panorama de BD irreconhecível para alguém que viveu o período 2000-2005, por exemplo. Neste momento, Portugal é um país em que se edita comics americanos com qualidade, e em que as edições de autores portugueses são suficientes para serem equivalentes à produção de franco-belga (embora, claro, a qualidade e formato sejam muito diferentes). De modo geral, poderíamos dizer que tirando o comic americano, todos os outros géneros (manga, portugueses, novelas gráficas) são mais ou menos igualmente representados.

Edições de autor/independentes/fanzines

Esta “categoria” merece uma menção especial. É uma categoria difícil de definir, e na minha análise privilegiei dois factores: tiragens, que na maioria dos casos são inferiores a 500 exemplares (e que em muito casos se ficam pelos 50, 100 ou 200), sendo que 500 me parece ser a tiragem mínima para que um livro possa ser considerado como uma edição comercial (embora haja casos pontuais de edições independentes com tiragens desta dimensão); e o livro ter ou não distribuição nacional, e não estar apenas disponível em algumas poucas livrarias, e em festivais. Aqui também existe alguma ambiguidade, porque existem projectos comerciais que vendem apenas na Fnac e nalgumas outras livrarias, mas de modo geral é fácil de fazer a distinção. Nesta categoria entram também alguns projectos institucionais, que podem até ter tiragens razoáveis, mas que não têm intuito comercial directo, nem distribuição a nível nacional.

Altemente

Altemente – Arte do Interior

Esta categoria é ao mesmo tempo importante, e não-importante. Por um lado, é uma categoria que é largamente irrelevante para o mercado de BD no seu todo, no geral. Com tiragens por vezes mínimas, são títulos que raramente chegam a mais do que algumas (poucas) centenas de fãs “hardcore” (por vezes algumas dezenas apenas), e geralmente apenas se vendem e aparecem nos festivais: Beja BD, Amadora BD e Comic-Con. Mas por outro lado, é uma categoria que serve de laboratório de experimentação e de lançamento de autores portugueses, e que é por vezes reconhecida explicitamente; p.ex. o festival da Amadora premeia sempre um título deste grupo, e este ano o Comic Con premiou um mini-comic (Altemente) com um dos seus Galardões.

Dentro desta categoria merece menção especial o caso da Escorpião Azul, que pelo número de lançamentos (6 livros), e pelo seu formato e razoável qualidade física dos volumes, está numa zona cinzenta, já quase perto de fazer a transição para o grupo das editoras pequenas. Mas o facto de trabalhar ainda com tiragens muito pequenas, e não ter uma distribuição que permita encontrar os títulos para além do círculo restrito dos eventos e de umas poucas livrarias especializadas, fazem com que este ano ainda esteja incluída nesta categoria. Outro caso de realce é o da Comic Heart, que com o formato mini-comic, obteve assinalável sucesso com a mini-série Altemente, e parece ter apostado em lançamentos regulares. Nesta categoria estão também incluídas algumas edições institucionais.

Algumas considerações adicionais

santo antónio

Santo António em Banda Desenhada – Capa

É de realçar o papel das bancas na actual distribuição de banda desenhada no nosso país. Em primeiro lugar, as colecções: a ASA editou 22 títulos no âmbito de colecções com o jornal Público, enquanto a Levoir lançou 44 títulos (dos quais 3 como “pontuais”, ie. fora de colecções, mas com o jornal). Se acrescentarmos a isso um último lançamento (Santo António, da Europress), são 67 livros lançados com o Público: 30% do total de lançamentos de BD no nosso país passa hoje pelo jornal Público. Para além disso, a Salvat edita exclusivamente para bancas, o que significa que se incorporarmos os seus 26 lançamentos nos anteriores (subindo para 93 o número de lançamentos em bancas) podemos dizer que um pouco mais de 40% do total de BD no nosso país tem lançamento mais ou menos exclusivo em bancas. E é de salientar que as outras duas editoras do grupo da frente, Devir e GFloy, têm bastante presença nas bancas, tornando este canal bastante importante em Portugal. Em percentagem de livros vendidos – ou de facturação – é quase certo que as vendas que passam por bancas são muito superiores.

Se é verdade que ainda se nota uma maior actividade editorial nos meses dos nossos grandes festivais – Maio/Junho para Beja, Outubro/Novembro para a Amadora e Dezembro para o Comic Con – na verdade o mercado parece ter-se tornado muito mais regular e homogéneo, com lançamentos mesmo em Agosto, p.ex. (11 títulos editados nesse mês!). Com 202 lançamentos (aqui excluindo os fanzines, edições de autor, etc…) estamos nos 16/17 lançamentos por mês em média, o que é um ritmo bastante razoável, se considerarmos que vínhamos provavelmente de umas poucas dezenas de lançamentos por ano no período anterior a 2013-2015.

Talvez a maior diferença entre o mercado actual e o de há uma dezena de anos atrás seja resumido da seguinte maneira: uma grande diversidade de títulos e géneros editados, em que já não parece predominar nenhum tipo de BD à exclusão das outras, em que o número de editoras aumentou significativamente, e em que parece ter-se aberto um espaço razoável para as pequenas editoras e edições de autor, fanzines, etc…

A Coleção Oficial de Graphic Novels 31 Justiceiro

Justiceiro: Bem-Vindo de Volta, Frank vol. 2 – Página 4

Claramente, e comparando com o período que conheci há uns anos atrás na minha qualidade de editor da Devir, o número de lançamentos parece ter aumentado razoavelmente – creio que será pelo menos 40-50% superior ao melhor ano do período 2000-2005 – mas as tiragens parecem ter colapsado completamente, por factores enormes: são entre um quarto e metade menores do que as anteriores, no caso de edições para livrarias, e provavelmente umas 5 vezes inferiores nas colecções com jornais, embora neste caso não seja fácil a comparação, porque os preços, os formatos, o tipo de colecções mudaram muito. A pergunta que todos os leitores farão é sem dúvida esta: existe mercado para a variedade e quantidade de títulos que se lançam hoje em dia em Portugal?

Se olharmos para 2017, perfila-se um continuado aumento das edições de BD. Nalguns casos não haverá uma progressão muito grande. Levoir e ASA parecem ter atingido um limite do número de semanas disponíveis no Público, e para além da possibilidade de um pequeno aumento dos lançamentos feitos directamente para livrarias, não se adivinha um aumento muito grande. O mesmo no caso da Salvat, claro, que trabalha exclusivamente com a colecção Oficial de Graphic Novels Marvel. Mas p.ex. olhando para o ritmo de lançamento de manga na Devir na segunda metade do ano, e considerando que já estão anunciadas novas séries, não é impossível que o número de mangas editado suba para 30-35, o que tornaria a Devir na maior editora de BD do país, mais ou menos ex-aequo com a Levoir (em número de títulos lançados, é claro), com possivelmente 40-45 livros. Também a GFloy já anunciou a sua vontade de aumentar o número de lançamentos para 25-30 este ano, e muitas das pequenas irão também lançar mais livros, sendo que o caso maior será certamente a Kingpin que poderá voltar aos 6 ou 7 lançamentos anuais. Se admitirmos uma manutenção, ou ligeira progressão das outras editoras pequenas, não seria impossível que tivéssemos em 2017 mais de 250 lançamentos, ou seja, mais de 20 por mês. Um aumento de 10%, que pode até ser de mais do que isso.

Hora de Aventuras - Cartoon Network

Hora de Aventuras Vol. 2 – Arte do Interior

Pessoalmente, a minha opinião é que estamos a trabalhar neste momento com uma espécie de “mínimo denominador comum” de fãs e leitores de BD: batemos no fundo há alguns anos atrás, e durante algum tempo houve apenas um grupo de leitores hardcore activos na compra de BD, os indefectíveis. 5000? 10,000? Não é possível quantificar, mas parece claro que de há dois, três anos para cá, se assiste de novo a uma progressão do número de fãs e de compradores, e houve projectos que chegaram a outros públicos. É o caso nomeadamente das colecções de Novelas Gráficas da Levoir, que claramente mobilizaram leitores que normalmente não compravam BD, ou tinham abandonado esse hábito, e de alguns dos lançamentos juvenis da Devir, que parecem estar a chegar a novos leitores também.

A segunda sensação que tenho neste momento, é que com algumas excepções, o crescimento actual em edições parece ser razoavelmente “orgânico”, e sobretudo, em termos de tiragens, muito inferior ao que foi há dez, quinze anos atrás. O número total de livros “impressos” continua provavelmente a ser bem inferior ao que se atingiu na altura, e a diversidade dos títulos (e maior número de editoras) parece significar um risco mais espalhado e mais diminuto. Neste âmbito, a diminuição dos preços de impressão oferecidos pelas gráficas e a disponibilidade para trabalhar com tiragens pequenas teve um papel absolutamente essencial. Se há quinze anos tivesse pedido a uma gráfica que me fizesse um orçamento para imprimir 1000 exemplares de um livro a cores, tinham-se rido na minha cara, quanto mais para 500 ou 700. Hoje em dia, no entanto, é possível a uma Kingpin, p.ex., imprimir 500 exemplares de um álbum a cores, de capa dura e boa qualidade, e vendê-lo a um preço que os leitores comportam. Ou à GFloy imprimir 1200-1500 de alguns títulos, em edições de capa dura a cores, com 128 ou mais páginas. Isto também significa que se algum título falhar redondamente, o risco é pequeno. Ter de vender 600 exemplares para rentabilizar uma edição de 1400 e só vender 450 não é um desastre.

Sobressaltos - Terror por Autores Portugueses de BD

Sobressaltos: Terror por Autores Portugueses de BD – Capa

Assim, à partida diria que o crescimento que vivemos parece ser razoavelmente sustentado, em projectos que não são de tiragens enormes, e que não constituem riscos grandes. As colecções com o Público constituem uma excepção a esta análise, mas na verdade, o ano de 2016 parece ter representado o universo que elas poderiam comportar (ou perto disso) tendo em conta o número de semanas que existem disponíveis no jornal; claro, se outro jornal entrar nesta onda, ou se as editoras aumentarem muito a produção directa para livrarias, as coisas serão bem diferentes. Será necessário esperar pelos próximos meses para ter uma ideia real da evolução do mercado, mas neste momento, e a menos de alguma crise que afecte muito os hábitos de consumo, mantenho um optimismo reservado, e acho que devemos agradecer estes últimos dois anos, que foram sem dúvida dos melhores de sempre na BD em Portugal.

Na segunda parte deste artigo, irei abandonar a análise mais “quantitativa”  e fazer uma análise mais qualitativa e mais pessoal, concentrando-me naqueles que foram os momentos mais marcantes do ano editorial, nos melhores livros e mais interessantes projectos, nos festivais e eventos, e nalgumas outras tendências do ano de 2016.

[ editado para corrigir um erro: a Kingpin editou o livro O Incrível Tarantantan de Balbino o Esfutricador, um mini-comic de autores portugueses, que estava classificado na categoria de edições de autor. 10/01, 13:30 ]

Clica aqui para descarregar a listagem dos lançamentos de 2016

José de Freitas


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Uma vista de olhos ao livro da Planeta “Star Wars Darth Vader Vol. 2”. De Kieron Gillen, Salvador Larroca e Edgar Delgado. Estes vídeos são para mostrar aos leitores livros de banda desenhada que poderão encontrar à venda em Portugal.

  Cristiano Ronaldo em BD com "Striker Force 7"!

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13 Responses

  1. Diogo Semedo diz:

    Só tenho a dizer o seguinte: senhores editores deixem de ser meros publicadores e tornem-se editores a sério interessados em todos os aspectos da criação de um livro de BD no que concerne à edição de obras nacionais.

    Quanto às editoras com poder monetário para tal, de uma vez por todas, garantam as condições necessárias para que os autores possam trabalhar e dedicar-se a 100% às suas obras.

    Se foi possível em 4 anos “educar” o publico Português a investir em produtos mais dispendiosos e de maior qualidade em detrimento de edições mais económicas, nada os impede de mostrar ao publico que – com devido trabalho editorial e de divulgação – o talento nacional é tanto e de tanta qualidade que basta dar as “ferramentas” certas aos autores para que o publico note e comece também a apreciar o que se faz cá dentro.

    Duas mãos cheias de autores provaram além fronteiras, em mercados dificílimos, nestes últimos 10 anos que o autor Português é um profissional de confiança capaz de garantir o que é necessário para conquistar leitores interessados. Há que não deixar esse trabalho árduo desses autores morrer “solteiro”, saber seguir os seus passos e colher as sementes que eles “plantaram” para finalmente se começar a construir um mercado coeso e forte de edição nacional de Banda Desenhada.

    2017 pode ser o ano da afirmação do autor e da obra nacional e por mais pequeno que seja o nosso mercado, se houver o interesse real e sério das editoras em investir no produto nacional – sem pensar, como sempre, que este é demasiado arriscado – então o publico vai sentir essa confiança e tal como ajudaram a tornar títulos estrangeiros em best sellers que nunca se terá pensado que fossem tão bem aceites, também saberá dar o retorno quando a qualidade do produto for a mesma do que aquela que os leitores estão habituados a ter no que consomem vindo de fora.

    Útopia?
    Talvez.
    Mas se nunca se começar a trilhar esse caminho com seriedade, então voltaremos rapidamente a momentos de entropia como os que se viveram em 1997 e em 2006, uma vez que qualquer editora de produtos estrangeiros no nosso país está dependente da renovação de contractos de licenciamento que, como no passado sucedeu, de um momento para o outro deixaram de ser realidade e que deitaram a baixo anos de trabalho árduo. ‘Tá tudo dito. Bom 2017.

  2. José Freitas diz:

    Olá Diogo, agradeço o seu comentário (entusiasta!) e aproveito para dar uma resposta que me parece que pode clarificar algumas situações de que os leitores talvez não se dêem conta quando se fala de autores portugueses, e as razões pelas quais não é fácil que eles vivam da produção de BD para o mercado português.

    Não está, obviamente, em causa a qualidade dos autores portugueses como criadores – o facto de serem contratados por grandes editoras para trabalhar é disso prova. Mas na verdade, trabalharem para a Marvel ou DC ou quem quer que seja, é mesmo a única maneira de viverem da BD. Senão vejamos:

    Como é que se paga ao(s) autor(es) de BD? Eles recebem uma percentagem do preço de capa do livro, o royalty. Suponhamos um livro que custa 15€, preço médio dum álbum cá. E suponhamos um royalty de 10%, este bem acima da média. Ou seja, os autores receberiam 1,40€ por livro vendido (depois de se retirar o IVA de 6%). É esta a realidade com que os editores portugueses têm de trabalhar, que é bem diferente da dos editores americanos, por exemplo.

    Se o livro vender 1000 exemplares, os autores recebem 1400€, se forem 3000 ex. receberão 4200€, isto ao longo do tempo que leva a vender os livros, isto é, possivelmente espalhado ao longo de um a dois anos.

    Quanto é que vende um livro de autor português? Não consigo dar uma resposta firme, mas durante alguns anos fui o editor do José Carlos Fernandes (uma dúzia de livros editados por mim) e de vários outros autores portugueses, e sei de alguns outros números da altura (anos 2000-2005, um período em que se vendia MUITO mais BD que hoje em dia. Eu pessoalmente diria que 1000 exemplares seria um número bom, e 2000 um sucesso de vendas. Podemos comparar com as vendas do nosso best-seller (na GFloy), o Saga, que vendeu uns dois mil e tal exemplares do primeiro volume ao longo de dois anos.

    Podemos fazer outra coisa: olhar para os livros daquela que é provavelmente neste momento a melhor editora de BD de autores portugueses em Portugal, a Kingpin, e ver as tiragens deles: estão impressas nos próprios livros, e variam entre 500 e 700 exemplares. Tiragem, não vendas! Constatando que muitos livros continuam disponíveis mais de um ano depois de serem editados, segue-se logicamente que venderam menos que isso. 250? 300? 400? Pode haver excepções, e há, ocasionalmente livros que vendem mais que isso. Será o caso do Vampiros do Filipe Melo e Juan Cavia, este ano, que teve duas edições, o que significa (na minha opinião, é apenas um palpite) que vendeu entre 2000 e 2500 exemplares, muito bom para um período de 6 meses.

    Mas sejamos realistas: NENHUM autor português pode viver de produzir BD para o mercado português! Na melhor das hipóteses pode contar ganhar 3000€ a 4000€ espalhados ao longo de um a dois anos (frequentes vezes a dividir por argumentista e desenhador). Eu confesso que tenho uma admiração sem limites pelos autores portugueses que produzem regularmente livros de grande qualidade contra uma remuneração que no mínimo poderíamos qualificar de “limitada”.

    Ou seja, aquilo que eu estou no fundo a dizer é que não é por falta de investimento ou disponibilidade das editoras que não se edita mais BD portuguesa, mas antes porque os autores têm de tr uma vida que lhes permita sobreviver antes de poderem dedicar tempo à produção para o mercado nacional, que tem de passar necessariamente para segundo plano – quando não e ignorada completamente. Por exemplo, há autores portugueses que estão a trabalhar para o mercado americano, a receber entre 100 e 300 dólares POR PÁGINA desenhada que já me disseram que não têm qualquer interesse em produzir para o nosso mercado. O que é compreensível.

    Mas neste momento em Portugal, existem editoras disponíveis para editar os projectos que lhes tragam, de uma maneira impensável há dez anos atrás, e mais que isso, editoras que tomaram a iniciativa de gerar projectos e de juntar criadores e de terem ideias para álbuns. E não acredito que existam obras-primas da BD portuguesa escondidas ou perdidas porque ninguém as quis publicar.

    Simplesmente o mercado é o que é, e não permite que as vendas sejam de tamanho suficiente para remunerar os criadores portugueses de uma maneira que lhes permita viver disso. E tenho MUITO respeito por eles, porque invariavelmente, quando lhes digo que sei que não podemos pagar muito, quase todos respondem logo que essa não é a prioridade deles, que querem é produzir e criar e que o material saia editado, mesmo que recebam muito pouco. Mas claro, é de facto a segunda (ou terceira ou quarta) prioridade, e são esses os projectos que os criadores têm de atrasar quando é necessário. O que aliás, explica o ritmo por vezes irregular de podução.

  3. manuel diz:

    Eu acho um erro riscar as revistas mensais fracassadas ou não são sempre um passo para quem cansado da Disney quer ler outra coisa.
    Mais baratas e sempre disponíveis e um leitor nova nao liga a vendas.
    Quanto ao resto os tpbs e jornais vão melhor que a 10 anos atrás aonde se bateu no fundo e mesmo os comics so saia 1 ou 2 tpbs anuais e diziam que o mercado nao aguentava mais.

  4. José Freitas diz:

    Na verdade, a principal razão pela qual eu não trato de importações nestes artigos é o facto de não terem nada a ver com o mercado português, nem sequer é por terem vendas muito baixas (que têm). Por exemplo, imaginemos que não se editava NENHUM livro de BD em Portugal: valia a pena fazer um artigo de balanço das edições importadas da Panini e da DC ou do que fosse? A entrada de sobras no mercado não tem a ver com a vida editorial do nosso país.

    Essas revistas têm dois efeitos principais: por um lado aumentam um pouco a diversidade de material disponível, beneficiando os 300-500 fãs que compram o material; mas por outro, desviam a atenção das edições de BD feitas por editoras nacionais. Num mercado como o nosso, que está no mínimo de vendas de todos os tempos, perder 100 ou 200 exemplares de vendas é mau. Além disso, há editoras que desistem de editar certas coisas por já terem saído cá em revista, ou por poderem vir a sair cá em revista. Obviamente, os fãs que compram essas revistas estão-se a marimbar para isso, e aproveitam apenas a oportunidade de poderem ler mais BD.

    Por isso, para mim, BD em revista mensal neste momento é praticamente só a Disney, e é um mercado sobre o qual sei pouco e não acompanho, e que é fácil de “isolar”. Não me parece que invalide a análise que fiz – e o Nuno Pereira de Sousa no bandasdesenhadas.com cobre esse segmento.

  5. Abel Pereira diz:

    José, é escusado andar a espalhar aos quatro ventos e em todos os sites que o mercado “está no mínimo de vendas”. Comparar as suas vendas de há 10 anos de um livro único no mercado com as vendas que um livro tem hoje, quando há mais 10 ou 20 a sair ao mesmo tempo, é patético e desonesto. Não há dados de vendas em Portugal, o que limita esta discussão. Agora, ver o mercado crescer exponencialmente, ano após ano, quase constantemente há 10 anos e ouvir todos os anos a mesma balela de “o mercado está saturado, não aguenta mais” ou “isto foi um milagre, vai tudo explodir” cansa. Como dizia o Manuel, há 10 anos o mundo ia acabar e não dava mais. Depois, foi o Big Bang…

  6. José Freitas diz:

    Boa tarde Abel. Em primeiro lugar, creio que não entendeu o que eu disse. O que eu acho é que este crescimento que tivemos estes últimos anos não é excessivo, em parte porque as tiragens dos livros são de facto muito inferiores, mas em parte porque resultaram de um crescimento mais “orgânico”. O tempo o dirá, mas eu nunca disse que isto vai tudo explodir! Apenas disse que muita gente faz essa pergunta, e respondi que não, que em princípio não vai explodir, o tempo o dirá.

    Mas também creio que tem os seus factos ao contrário, relativamente ao “crescimento exponencial”. Em primeiro lugar, embora não haja números de vendas oficiais, eu estou no mercado há 18 anos; fui responsável das edições da Devir entre 2000 e 2007, e nessa altura fui também responsável por cinco colecções que saíram em jornais (duas no Correio da Manhã, duas no JN/DN e uma no Recorde); sou o actual responsável da GFloy, e passam pelas minhas mãos os livros da Levoir e da Salvat. E falo com os meus colegas, na altura p.ex. o Pedro Silva (Vitamina BD/BDmania) e a Fanny Denayer (Witloof) e eu trocávamos regularmente números de vendas, e hoje faço isso com pelo menos mais dois editores. Por isso, posso não saber tudo, mas sei MUITOS números de vendas.

    Neste momento (2015-2016) alcançámos finalmente, e talvez tenhamos ultrapassado um pouco, o número de lançamentos anuais que se tinha atingido no período 2004-2006 – recomendo aliás, que vá até ao site bandasdesenhadas.com e procure um artigo que o Nuno Pereira de Sousa lá recuperou, que faz o estado da BD em 2006 e que tem os números de lançamentos. Depois compare-os com os de hoje, os meus e o que o próprio Nuno Pereira de Sousa compilou (os dele incluem revistas). O Nuno é que é um dos que pensa que há motivos de preocupação com o actual mercado, e expõe bem os seus argumentos no artigo que assinou sobre o estado do mercado (e aliás, em que há uma discussão entre ele e eu que explica melhor ainda certas coisas).

    Entre 2008-2009 e 2012-2012 houve um verdadeiro crash do número de lançamentos. A Devir QUASE deixou de editar, a Vitamina BD deixou de editar – para não falar da Booktree ou Witloof que desapareceram – as editoras mais pequenas editavam MUITO pouco, e apenas a ASA manteve um ritmo regular de edições que deve ter atingido aliás o seu pico em 2009, para depois ir decrescendo. Creio que se fosse à procura de descobrir quantos livros se editaram em 2009 ou 2010, encontraríamos mais ou menos METADE dos lançamentos de hoje (ou menos?). Basta ver que a Devir nessa altura lançava o quê? 3 ou 4 livros por ano? (mas em 2005 chegou a lançar uns 30 mais as revistas) E em 2016 editou 37.

    Ou seja: houve MESMO um crash e o tal crescimento que se deu desde 2012 (que não é exponencial, se formos rigorosos na definição do termo) trouxe-nos de volta para o total de edições que tinha existido em 2005-2006. Nada mais.

    Agora, se o número de lançamentos crescer como eu creio que vai crescer em 2017 (cerca de 20% mais de lançamentos), estaremos finalmente em território desconhecido. Ou seja, quando diz “Comparar as suas vendas de há 10 anos de um livro único no mercado com as vendas que um livro tem hoje, quando há mais 10 ou 20 a sair ao mesmo tempo” está redondamente enganado (para não falar de me chamar patético e desonesto). Estou a comparar vendas de livros num período, o de 2005-2006, em que o número de lançamentos era MESMO semelhante ao de hoje. E aí, digo-lhe que pela parte que me toca, a sensação que me dá é que o número de vendas efectivo de livros TOTAL (em exemplares totais) é muito inferior ao que era na altura. Basta dizer-lhe que um livro da GFloy tem uma tiragem que é 50% dos títulos da Devir da altura, e nalguns casos 35%. Além de que se fosse verdade o que diz (que não é) seria antes um argumento forte para dizer que o aumento de produção é mau para o mercado (porque existem tiragens abaixo das quais mesmo que se venda tudo, o negócio deixa de ter qualquer interesse).

    Por isso mantenho o que digo: não me parece que haja motivos para grandes preocupações, o total de livros (em exemplares) embora disperso por um número de lançamentos mais ou menos semelhante ao de dez anos atrás, é MUITO inferior ao que era na altura, e as vendas idem (talvez mais). Pelo que não me parece que haja perigo de explodir, desde que se faça um esforço para ir “fixando” os novos leitores que têm entrado no mercado (presumindo que não estamos só a recuperar clientes antigos).

    Espero que assim fique mais claro o que eu queria dizer.

  7. Abel Pereira diz:

    Eu fui ver os artigos que citou caríssimo mas não percebo onde é que isso altera o teor desta conversa… Os números citados lá referem-se a livros da disney? A sério que vamos comparar leituras de praia com livros de livraria? Vamos comprar vendas do Correio da Manhã com as dos livros da Hélia Correia? Lá estão inclúidos os fascículos dos jornais (lol) e aqui excluem os mensais da panini… Enfim, mistura-se tudo e logo se vê o que sai… Nunca esteve em causa a crise de mercado que foi óbvia para todos. Está em causa a visão “isto não dá mais”. O texto que me citou nem é deste ponto de vista mas revela-se até bastante auspicioso: “O futuro da BD passa por aí, sendo necessário que esse mercado seja aproveitado, e, acima de tudo, existe a necessidade urgente das editoras se habituarem a conviverem num mercado plural e competitivo. É que o tempo em que existia uma só editora a dominar o mercado terminou e não voltará a existir. Actualmente, existem várias editoras no mercado e a tendência é que o número aumente com o surgimento de pequenas editoras ou projectos um pouco mais ambiciosos” – acertou em cheio. O mercado deu mais e vai continuar a dar.
    Vamos lá ver: livros em livraria vão vendendo, estão no mercado, qual era o tamanho da secção de bd da fnac naquela altura? Quer comparar isto com o fasciculo da Mónica que saiu naquela semana na revista do tio patinhas? A sério?
    Para concluir, eu sei que em Portugal se vive no informalismo mas entenda-se uma coisa: ou há números ou não há. “Números informais”, “mais ou menos” ou “eu vou falando com aquele e com o outro” não existe. E como o senhor que anda nisto há 18 anos disse não há números.

  8. José Freitas diz:

    Ora bem: não existe qualquer confusão de categorias, ou “comparar leituras de praia com livros de livraria? Vamos comprar vendas do Correio da Manhã com as dos livros da Hélia Correia?” (recomendo que leia melhor as coisas), apenas e tão só a capacidade de fazer contas. Temos três artigos, o meu (2016, não inclui revistas), o do Nuno (2016, inclui revistas) e o do Daniel (2006, inclui revistas). Se estivermos para nos sentarmos e fazer contas, chegamos a números “aproximados” que podem ser comparados, extraindo os números de revistas para fora dos totais deles. Existem pequenas discrepâncias entre mim e o Nuno, que provêm essencialmente da maneira como traçamos as categorias de “livros/álbuns” e tudo o resto que é fanzine, etc… (depois de se ter já subtraído as revistas). Chegamos ambos a números ligeiramente acima dos 200 (o dele meia dúzia de lançamentos superior ao meu). Se espiolharmos bem o do Daniel, encontramos que o número de livros/álbuns que ele cita (depois de subtrairmos os valores das editoras de revistas) deve ser um pouco superior ao nosso (eu e Nuno), talvez 220-240.

    Temos assim que (números não 100% fiáveis, mas a ordem de grandeza deve andar lá perto):

    José de Freitas: c. 200 (2016)
    Nuno Pereira de Sousa: c. 200 (2016)
    Daniel Maia: 200 e tal (o tal sendo 20 ou 30, por aí)

    Podemos portanto falar de anos editoriais grosso modo comparáveis, o que torna perfeitamente aceitável fazer comparações de tiragens e de vendas, as que eu conheço, que neste caso é o suficiente para ter a noção clara de que o mercado sofreu uma queda muito grande em número de livros vendidos (exemplares totais), embora não em número de lançamentos. Informalismos à parte, posso adiantar-lhe muitos números absolutamente certos, dentro dessa realidade. As tiragens da Devir na altura (e actuais, já que continuo a falar com os meus ex-sócios), as da Levoir, as da Salvat, as da Kignpin (estão impressas nos próprios livros!), as da Polvo (de agora e de há dez anos), as da Vitamina BD/BDmania e da Witloof e Booktree da altura, muitas das Meribérica anteriores (o Telmo Protásio, da Meribérica, era meu primo), as da Arte de Autor hoje, etc….

    E não se esqueça que o artigo do Daniel (2006) fala desse anos como já tendo sido de queda significativa em relação aos anteriores. Queda essa que se acentuou nos anos seguintes e até ao período 2012-2014. Ou vai-me dizer que sabe MAIS do mercado editorial e das vendas e lançamentos que eu?

    Para responder a algumas suas outras perguntas:

    – não se compararam fascículos nenhuns, nem leituras de praia. Comparam-se isso si, livros/álbuns editados, quer sejam para bancas ou para livrarias (excluindo revistas). Tratam-se dos números SEM revistas.

    – excluindo três das colecções que coordenei (Ultimate Homem-Aranha, Hulk, Tomb Raider) por serem mais tipo revistas, e considerando apenas as que saíram no Correio da Manhã (Clássicos da BD e Série Ouro), diria que: uma saiu a 4,95€ e a outra a 6,95€ cada livro, ou seja, preços mais ou menos comparáveis aos actuais da ASA (entre 6 e 7€) e mesmo da Levoir, se tivermos em conta a inflação dos últimos 10-12 anos. Comparando precisamente a série mais perto dos actuais, em termos de formato e preço, a do CM da altura vendeu entre x4 e x6 as que se vendem actualmente. Parece-lhe pouco? Não configura uma queda do mercado?

    – Diz “Está em causa a visão ‘isto não dá mais’” Onde é que eu digo isso? Aconselho-o a reler: digo “Pelo que não me parece que haja perigo de explodir” e “não me parece que haja motivos para grandes preocupações” ou seja, partilho da sua opinião. Qual é o seu problema? Gosta de embirrar? Eu posso citar apenas números parciais, os que tenho, e fazer comparações de algumas coisas. Você, nada.

    – Voltando ao artigo do Daniel Maia, ele diz: “actualmente, existem várias editoras no mercado e a tendência é que o número aumente com o surgimento de pequenas editoras ou projectos um pouco mais ambiciosos”. Enganou-se redondamente. Das que existiam no tempo dele (e que ele cita no artigo) só sobram ASA, Polvo e Devir, o grosso das outras desistiu ou edita quase nada. O mercado passou um período de c. 7-8 anos de queda contínua.

    – A sua pergunta “qual era o tamanho da secção de bd da fnac naquela altura?” é de simples resposta: era quase 50% maior que a actual. EU lembro-me bem, e posso adiantar mais: as encomendas da Fnac, hoje, num universo em que o número de lojas praticamente DUPLICOU são c. 40-50% inferiores ao que eram há dez anos atrás. O que é lógico, se eu digo desde o princípio que as vendas por título quebraram bastante, é de supor que isso se veja nas encomendas dos clientes.

    – Finalmente: essa visão de “preto e branco” de “ou há números ou não há” não colhe aqui. Existem números parciais, e que permitem tirar ALGUMAS conclusões. Podemos argumentar sobre exactamente quais são, mas que a discussão gire à volta desses números que temos, alguns dos quais são perfeitamente fiáveis.

    Assim, podemos resumir e estabelecer que:

    Em 2005-2006 estávamos num período que (em número de lançamentos) era pelo menos semelhante ao actual, se não mesmo algo superior.

    Para uma vasta secção do mercado e das editoras relevantes, é possível estabelecer que as tiragens são hoje muito inferiores, tal como as vendas.

    Entre 2007 e 2012-2014, o mercado sofreu uma enorme contracção em número de editoras, lançamentos, tiragens e vendas (e espaço consagrado à BD).

    Só nestes últimos 2-3 anos é que voltámos a recuperar, em número de lançamentos e de editoras, mas NÃO em termos de vendas e tiragens, um tamanho semelhante ao de 2005-2006.

    Ergo, podemos dizer com razoável grau de certeza que o tamanho do mercado actual de BD, em dinheiro ou vendas, deve ser inferior ao do de há dez anos atrás. Em quanto, é difícil dizer exactamente, porque há segmentos em que a queda foi mais acentuada que noutros (p.ex., no segmento do mercado de tiras humorísticas, tipo Zits e Mutts e aparentados, a queda foi pelo menos de 90% na minha opinião). Se me pedirem para arriscar um número, chutaria – sabendo que ele é discutível – 40 a 50% menor do que há dez anos. Talvez seja só 30% se me enganar por muito, mas não será menos que isso.

    Pelo que, repito a minha conclusão anterior: o panorama actual é bem melhor, na medida em que o crescimento parece ter sido mais orgânico, o número de editoras maior, pelo que o risco está disperso por mais editores, e existe material suficientemente diferente (ao contrário de há dez anos atrás), em variedade, para indicar que mais categorias de leitores e segmentos de mercado podem ser satisfeitos (para não falar do que eu indiquei no artigo de que as gráficas acompanharam a diminuição das vendas e tiragens com uma diminuição dos preços que possibilitar que se imprima p.ex. 1200 exemplares e ainda assim, seja um negócio suficientemente interessante para editar, o que não era o caso há dez anos).

    Por isso repito:

    “Por isso mantenho o que digo: não me parece que haja motivos para grandes preocupações, o total de livros (em exemplares) embora disperso por um número de lançamentos mais ou menos semelhante ao de dez anos atrás, é MUITO inferior ao que era na altura, e as vendas idem (talvez mais). Pelo que não me parece que haja perigo de explodir, desde que se faça um esforço para ir “fixando” os novos leitores que têm entrado no mercado (presumindo que não estamos só a recuperar clientes antigos).

    Espero que assim fique mais claro o que eu queria dizer.”

  9. Abel Pereira diz:

    José, o leitor é só um. Pegar em dados de há 10 anos quando o tipo de mercado era um e compará-lo com o tipo de mercado de hoje a corte e costura é desonesto. Os números que me mandou do Daniel contêm as vendas de revistas, que são posteriormente ignorados para efeito de “cálculo”. Para além disso, é isto que está lá escrito: “Do volume de 340 publicações, 90 são álbum de BD típicos, nos formatos franco-belga e americano ou até pocket, e 178 são edições de quiosque, indo das mais convencionais revistas e almanaques, a fascículos coleccionáveis.” O número 200 nunca aparece no artigo… É um filtro seu, que colheu da fruta dos 178 o que lhe pareceu maduro. O que você é faz é comparar os números de vendas do vinil há 50 anos com os de hoje. Como é menor, conclui que se ouve menos música… Ignorando o crescimento do cd, da internet, etc. Isto para explicar. Se o mercado é diferente é incomparável.

    Eu citei-o a dizer que iriam surgir mais projetos ambiciosos e que iriam surgir mais editoras. É mentira? Ele diz que aquelas que já existiam iam florir para sempre? Não vejo lá isso escrito.

    Terceiro, como não percebeu, eu vou ser mais claro: que tamanho tinha a SECÇÃO PORTUGUESA de banda desenhada da fnac? Era duas vezes maior? A sério?

    Comparar os fasciculos do CM com os livros da Levoir é exatamente onde reside a falha do seu raciocínio e o que atira estas teses para as catacumbas: sim os do CM venderam 10x mais. Fantástico. Mas isso foi naquela semana. A Levoir continua a vender. O livro não desaparece. É a diferença entre livro e fascículo, que a sua enchurrilhada de palavras ignora. Isso não só afecta o comportamento do leitor, quo não vai a correr comprar tudo nas bancas, como afecta o “feeling” do que foi as vendas. É a diferença entre “os livros da Hélia Correia e o Correio da Manhã”.

    Volto a dizer: não me vai apanhar a discutir palpites, meios números ou rascunhos dos recibos da fnac. Não há números. Eu percebo que isto o deixe tristonho e abalado se cá anda há tento tempo e vê tanta coisa. Mas a evidência ou existe ou não. E como diz, não há números de vendas. Portanto, nenhuma discussão sobre vendas é séria. Lamento.

  10. José Freitas diz:

    Só algumas respostas, porque acho que não estamos na mesma página:

    Não preciso de comparar os “fascículos do CM” (que eram livros normais de capa mole, com 144 a 200 páginas, a 6,95€), basta-me comparar, p.ex. com os “fascículos da ASA” de capa mole e 56 pgs a 5,95€, ou com os livros de capa dura da Salvat com 136 a 224 pgs de 11,90€… estes também NÃO aparecem nas livrarias. Deixam de ser livros de BD (por oposição a revistas) por causa disso? Como estão AMBOS considerados na análise, não vejo problema nenhum.

    O tamanho da secção portuguesa da Fnac não interessa, interessa o tamanho do todo. Porque a existência de edições em português leva a mais importações (lembro-me perfeitamente de que assim que saíam o primeiro do Sin City ou o primeiro dalguma série franco-belga, a Fnac mandava logo vir uma montanha de livros dos volumes seguintes em inglês ou francês). Tendo desaparecido imensa edição em português (em número de títulos) diminuiu também o tamanho total do espaço de BD. Aliás, se o que vale é a edição estrangeira, devia ter aumentado o espaço, não? Cada vez se edita mais em França e nos USA em número de títulos… mas cada vez mais a Fnac reduziu o espaço da BD (agora talvez reverta o processo). A tendência é ainda mais notória no caso da Bertrand.

    Quanto às previsões do Daniel Maia feitas em 2006, acho perfeitamente legítimo analisá-las num horizonte de dez anos. Mas não se esqueça que estamos aqui também a discutir a sua afirmação do “crescimento exponencial” da BD. Se eu lhe provo que a edição de BD diminuiu drasticamente entre 2005-2006, e 2012-2014, e só depois começou a recuperar, não me parece que se possa falar em crescimento exponencial.

    Finalmente, sinta-se então à vontade para comparar as coisas iguais: os 340 títulos contabilizados pelo Daniel Maia em 2006, com os que o Nuno Pereira de Sousa contabilizou para 2016 (aqui já juntando revistas com álbuns), de 167 + 116, 283. Note que, estamos muito abaixo de 2006, embora em termos de livros (90 vs 116) um pouco acima. Continua a suportar a minha afirmação de uma quebra no mercado, ainda maior se considerarmos a diminuição das tiragens e vendas por título.

    Há números. São parciais, não são os ideais, mas dão uma ideia das tendências. Até há números de vendas, quando disse que não havia, é porque não há para todas as editoras, outros conheço mas não são públicos, e por vezes os que eu sei não posso comentar, porque não fui por isso autorizado pelas respectivas editoras. Mas já várias vezes comentei as vendas da Devir no passado e da GFloy hoje, e existem bastantes outros comentários públicos de alguns editores para fazer uma boa ideia.

  11. manuel diz:

    “Além disso, há editoras que desistem de editar certas coisas por já terem saído cá em revista, ou por poderem vir a sair cá em revista. Obviamente, os fãs que compram essas revistas estão-se a marimbar para isso, e aproveitam apenas a oportunidade de poderem ler mais BD.”

    Mas isso leva a 1 problema o editar em tpb não tem nada a ver com a saída da revista na ate porque podem haver leitores das revistas que queriam o material em formato melhor ou papel melhor 1 o mercado das revistas não e tão vasto e não chega todo aqui por culpa da Panini que ignora mensais e Mini series,mas mesmo la o que sai em revista e editado em tpb e esgota,como por exemplo Homem Aranha Superior,Novos Vingadores de Bendis e Hickman,Aquaman novos 52 Liga da Justiça Novos 52, etc etc aqui as editoras “empurram” quem quer ter tpbs a comprar ediçoes da Marvel/dc/ Usa.

  12. Shazam diz:

    penso que muitas das vezes e falo muito por mim claro mas acredito que algumas pessoas podem estar na mesma situação era preferível ser editado em tpb boas fases primeiro porque compraríamos um material realmente que valia a pena(isto já têm vindo a provar ser uma realidade com a g floy) e não gastava quase 6 euros num mix onde 2 revistas aproveitam-se e o resto é mediocre/fraco estilo universo DC
    É claro que essa situação não é possível em portugal por causa do nosso mercado mas as edições que compraria em mensal seriam estilo as da nova marvel em pt-pt que eram belíssimas e bem melhores que as brasileiras que só agora parece vão adaptar o papel lwc
    Contudo peço que adaptem mais DC em portugal seria fantástico ver fases como
    -Arqueiro verde do jeff lemire(3 volumes)
    -Shazam do johns (1 volume)
    -Aquaman do johns ( 1 ja publicado +3 que faltavam)
    -Wonder Woman Azzarello ( pelo menos 7 ou 8 volumes)
    – Superman do johns pre new 52
    – Green lantern do johns pre new 52 (fase fantastica)
    – Batman vitoria sombria , + do grant morrison ,fase da queda do morcego
    – Flash do waid ou do johns
    – Gotham Brubaker
    – Mega sagas que realmente valem a pena (crises, lendas, crespusculo esmeralda + new dawn, 52)
    – Kingdom come + all star superman em boas edições estilo watchmen
    Isto seria fantastico ver em PT-PT claro que estou a sonhar alto mas acredito que se as colecções realmente pusessem esforço muitas coisas que aqui disse poderiam ser colocadas e contudo muita boa coisa já foi publicada e é de se venerar tudo aquilo que tem sido feito pela Levoir , g-floy , Devir mas penso que se houvesse um Plano editorial a nivel da DC podíamos ter runs mais bem estruturados como foi feito com as coleções marvel (ex vingadores do bendis) claro que a resposta se me responderem é (” o foco das coleções da levoir não é editar runs mas sim volumes auto contidos de cada personagem) e percebo isso mas muitas boas coisas ficam para trás por causa disso e prefiro dar 9,90 euros por um volume que seja bom do que comer com superman/wonder woman que foi editado na coleção do ano passado por exemplo

  13. José Freitas diz:

    Manuel, Shazam: não vou responder em relação às revistas da Panini que cá chegam, não é esse o foco do artigo. Para mim, como editor, idealmente não chegariam nenhuns tóítulos DC ou Marvel em PT-BR, porque isso interfere com os planos editoriais das editoras portuguesas. Dito isto, a interferência pode não ser muito grande, e eu na prática acho que não é grande. Mas é uma questão de “percepção” que pode afastar editoras PT de se interessarem por este material.

    Quanto à questoa, TPBs, runs, isso tudo: não entendo a questão. Em Portugal neste momento só se editam TPBs. Ponto, parágrafo. E na verdade, estou razoavelmente convencido que nunca mais vamos ver revistas da Marvel, p.ex. em bancas regularmente. Esse tempo acabou e as condições em Portugal não estão reunidas para que isso aconteça. É otura conversa e um dia publico um artigo a explicar porque é que acho isto.

    Quanto a “runs” ou volumes autocontidos: neste momento as edições em Portugal são feitas em “colecções”, especialmente no caso da Levoir. E por vários motivos, a escolha tem sido sempre para colecções auto-contidas do que para colecções de “fases” de um único título. Haveria duas opções: p.ex. uma colecção de 15 volumes de heróis diferentes e histórias razoavelmente fechadas; ou uma colecção que pegasse p.ex. numa fase de um autor ou de um título e que publicasse 15 livros seguidos em continuação. A percepção neste momento é que a segunda opção é muito menos comercialmente viável, por isso neste momento é o que há. Não me parece muito viável sair desse mdoelo enquanto a publicação for feita no modelo de “colecções fechadas”. Se houvesse uma editora que pegasse no material e programasse p.ex lançamentos regulares, mensais ou por aí, talvez desse para se experimentar outro modelo. Mas não há.

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