Análise BD: As Guerras de Lucas: Episódio II
Após o lançamento do primeiro Star Wars, George Lucas deixa de ser conhecido como um mero sonhador que arriscou tudo num projeto que a maioria não quis levar a sério. O seu filme não é apenas um grande sucesso, mas um campeão de bilheteira que o torna milionário, o que o motiva a arriscar tudo apostando no financiamento do próximo filme da saga. Essa audácia acompanhará uma série de eventos e conflitos que acompanharão as filmagens do Império Contra-Ataca, produção difícil que deixará Lucas arrasado, mas do qual sairá, afinal de contas, vencedor, superando novamente todas as expectativas.
O Império Contra-Ataca é considerado pela maioria dos fãs como a obra-prima da saga Star Wars, ainda que na época a sua produção se tivesse tornado um flagelo digno de levar ao esquecimento das enormes dificuldades que marcaram as filmagens do primeiro filme. Dessa forma, tornou-se obrigatório para os autores do primeiro álbum de As Guerras de Lucas (Les Guerres de Lucas) dar continuidade à história e expor o que realmente se passou na época e em que contexto surgiu um dos mais marcantes filmes da história do cinema.
Se a audácia e perseverança foram os ingredientes certos que resultaram numa fórmula que Lucas, sempre sonhador, jamais abandonou, nesta fase particular da sua vida reconhecemos alguém que encara os seus projetos com a força de um alguém que procura libertar-se ao máximo do poder dos grandes estúdios de Hollywood. Lucas procura jogar bem alto, encarando os potenciais riscos e as consequências de quem coloca tudo em jogo num só filme que, aparentemente, tinha muito para correr mal.
É através deste álbum de BD que ficamos a par do acidente de carro que marcou para sempre a vida do ator Mark Hamill, que interpreta Luke Skywalker. Também é exposto o projeto de Lucas em investir no Rancho Skywalker e a sua montagem do estúdio independente, a Lucasfilm, com sede em Los Angeles, além das suas expectativas para produzir doze filmes da saga Star Wars, sem hesitar em investir o seu próprio dinheiro em O Império Contra-Ataca e em como contratará Irvin Kershner, o seu antigo professor de faculdade, para realizar o novo filme. Junta-se a estes projetos, carregados de altas expectativas, a sua colaboração com Steven Spielberg na criação de Indiana Jones.
Apesar de numa primeira fase desta nova etapa da sua vida Lucas ganhar maior otimismo, depressa chegará o choque com a realidade, que lhe tira várias vezes o tapete debaixo dos pés. Lucas não poderá nem terá como relaxar e, forçado a colocar de parte a ideia de delegar boa parte do seu projeto cinematográfico para outros profissionais, terá de intervir e apostar ainda mais alto para conter atrasos, novos incidentes e largos prejuízos.
Contudo, para o melhor e para o pior, a História do Cinema – e de Lucas – conta com um projeto incrível que será tido como inesquecível para diferentes gerações, sobretudo para quem viveu nas décadas de 70 e 80 do século XX, onde a ficção científica se cruza com a magia para nos legar algo que muitos entenderam ser incontornável e fantástico.
Apesar de vários acidentes, alguns dramas e polémicas ou focos de tensão que muito desagradaram a Lucas e a todos os seus colaboradores, em O Império Contra-Ataca pesou a grandeza da dedicação, o poder da imaginação, a visão de outros profissionais, a excelente representação dos seus atores e a crença que Star Wars poderia ter um significado e maior profundidade filosófica do que mero show-off estonteante e puro marketing em torno de uma space opera difícil de compreender.
O Império Contra-Ataca é a melhor sequela de sempre e é neste filme que muitos reconhecem o imprescindível e a essência de Star Wars, suplantando o primeiro filme. Através de uma banda sonora fantástica que acompanha a narrativa, graças ao compositor John Willians, vemos a potência que é um implacável império que impõe respeito e temor por toda a galáxia, bem como o avanço das equipas dos efeitos especiais que geram novas criaturas, dão vida a diferentes cenários, criam a mais singular das batalhas num ambiente gelado, levam os expectadores a um campo de asteroides devastador no espaço e projetam uma cidade sobre as nuvens.
Em O Império Contra-Ataca, cuja ação e enredo ganham outra amplitude, reconhecemos parte da personalidade complexa dos vilões que sobressaem, a relação amorosa única que surge entre Han Solo e Leia, surge também o mestre Yoda, o caçador de prémios Boba Fett e a grande relevação final da história que deixa os fãs fora de si, justamente através de uma grande cena, quando o vilão Darth Vader revela ser o pai de Luke Skywalker, criando uma nova dinâmica e tensão em torno das principais personagens da saga.
Os autores Renaud Roche (desenho) e Laurent Hopman (argumento) certamente se entregaram a este trabalho cientes da importância que teria para todos os que apreciam Star Wars e o legado de Jorge Lucas. Este álbum de capa dura com mais de duzentas páginas foi originalmente publicado em França pelas Éditions Deman, enquanto em Portugal é apresentado pela editora Ala dos Livros.
Tal como o primeiro álbum As Guerras de Lucas, esta incrível segunda parte, intitulada As Guerras de Lucas: Episódio II, conta com a arte do desenho altamente expressivo de Renaud Roche, continuando a fazer um uso mínimo de cores, com primazia ao uso do preto e branco ou dos tons de cinza, reforçando a ideia de esboços elaborados que, todavia, não perdem noção do detalhe, dos cenários e da história que procuram ilustrar. Contando com a tradução para português de Ricardo Magalhães Pereira e a legendagem de Paula Catalão, o álbum conta também com os trabalhos de revisão de Catarina Pereira, Elisabete Ramos e Helena Romão.
A homenagem desta obra, dedicada a George Lucas é expressa pela seguinte frase, da autoria de Michel Legrand:
«OS GRANDES SUCESSOS NÃO SE ALCANÇAM SEM VENCER OBSTÁCULOS»

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural





