Análise BD | As Aventuras De Blake E Mortimer: A Ameaça Atlante
Ler As Aventuras de Blake e Mortimer, personagens que dão o título a uma série de álbuns de BD criados pelo autor belga Edgar P. Jacobs (1904 – 1987), acaba por quase sempre por nos levar a mundos novos orientados pelo sabor da ficção cientifica temperados com uma clara nostalgia.
Isto acontece sobretudo com aqueles que se familiarizaram com a banda desenhada franco-belga que sempre promoveu personagens clássicas que continuam a viver as suas aventuras dentro da sua própria época, com a dosagem equilibrada de humor, ação, narrativa detalhada e um certo sentido de realismo.
Para quem leu O Enigma da Atlântida (L’Énigme de l’Atlantide, 1955 – 1956) em Portugal pela primeira vez há poucas décadas atrás, traduzido e publicado pela Meribérica/Líber em 1982, decerto não deixará de sentir o mesmo. As histórias das personagens fictícias de Edgar P. Jacobs insinuaram-se como fundamentais juntamente com outras de autores famosos que foram publicadas na revista Tintin a partir de 1946.
O Enigma da Atlântida explora uma aventura que tem o seu início nos Açores e nos leva até um continente submerso, onde se reconhece o evidente choque de civilizações marcado por uma Atlântida próspera e dotada de tecnologia avançada, sobrevivente do cataclismo que devastou o reino dos seus antepassados, contra a iminente ameaça de bárbaros cientes das intrigas e conspirações existentes no próprio regime, além de outros riscos que comprometem a manutenção das suas estruturas submersas.
Cruzando o fantástico com a ficção cientifica, a exploração deste mito conduz As Aventuras de Blake e Mortimer a um novo patamar de desenvolvimento expectante relativo a histórias marcadas por um maior exotismo e extravagância. Esta abordagem do autor tem os seus antecedentes em O Raio U (1943), mas os leitores não poderiam ficar indiferentes à possibilidade do interesse de Edgar P. Jacobs explorar o seu interesse por civilizações antigas e mistérios mundiais através de um campo mais extenso.
Envolvendo o Capitão Francis Blake e o seu fiel amigo cientista, o Professor Philip Mortimer, em enredos próprios de contacto com reinos perdidos, mundos alternativos ou de viagens no tempo (pelo menos esta última ideia concretizou-se de forma plena através de A Armadilha Diabólica, de 1962), O Enigma da Atlântida comprovava-nos que tudo era possível através da criatividade do seu autor.
Claro que na base deste trabalho está uma plena história de ação que envolve assuntos de ordem geopolítica e espionagem que traduzem o receio do autor relativamente aos riscos do fim da civilização durante a Guerra Fria, derivada da ameaça das armas nucleares: O cometa responsável pela destruição da Atlântida original serve de alegoria ao potencial destrutivo de uma dessas armas.
Só que o interesse dos leitores pela história suplantava o poder dessa mensagem. Poucos, pelo menos durante a segunda metade do século XX, ficariam indiferentes à ilustração de uma sociedade utópica, dotada de amplo desenvolvimento tecnológico, com mecanismos e naves avançadas, com uma elite governativa capaz de se antecipar a outros cataclismos a ponto de ter há muito lançado as estruturas necessárias para outras colónias longe da Terra, garantido a preservação da sua civilização.
A imagem de naves gigantescas, de cor vermelha a voar em direção aos céus, tornou-se icónica e serve de ilustração da capa deste álbum icónico.
Passados 50 anos desde o lançamento da primeira história em torno da Atlântida, eis que um novo álbum de As Aventuras de Blake e Mortimer chega até nós dando continuidade ao tema, esclarecendo-nos sobre o paradeiro das personagens atlantes que surgiram pela primeira vez em O Enigma da Atlântida. Trata-se de A Ameaça Atlante (La Menace Atlante, 2025) correspondente ao Nº31 dos álbuns, que conta com o argumento de Yves Sente e a ilustração de Peter Van Dongen, rigorosamente fieis ao estilo de narração e ao desenho de Edgar P. Jacobs.
A civilização atlante volta a estar no centro de uma aventura que se inicia com a partida de Mortimer para a Escócia, com o intuito de estudar antigas terras vulcânicas e testar a viabilidade energética de uma instalação geotérmica quando se confronta com o impensável: O Mar do Norte sofre com nuvens de gás tóxico e um tsunami gigantesco causados por explosões marítimas inexplicáveis, gerando um elevado número de vítimas.
O fenómeno leva a que Blake, ligado aos serviços de inteligência britânicos, se junte ao amigo procurando esclarecer a causa, o que os conduz ao fundo do mar, onde outrora se situava Doggerland, descobrindo os segredos por detrás de uma elaborada campanha de mineralização oculta de ouricalco levada a cabo por atlantes cujas atividades apresentam um enorme perigo para o mundo da superfície.
A história não só explora o que aconteceu a outras personagens que foram introduzidas em O Enigma da Atlântida como se desenvolve novamente em torno de conspirações e jogos políticos. Desta vez, os poderosos inimigos que se apresentam como uma ameaça para o mundo da superfície são os mesmos que pretendem controlar a nova colónia atlante situada num outro planeta, onde a estabilidade do regime expõe um determinado conjunto de fragilidades que podem conduzir à sua queda e imposição da tirania.
Mesmo avançada tecnologicamente e dotada de conceitos que nos parecem utopistas, a Atlântida que sempre conhecemos sobrevive deparando-se com desafios próprios da civilização moderna: A obtenção de meios de produção de energia duradoura e aparentemente sustentável, que sustenta boa parte do que conhecemos e faz o nosso mundo funcionar, não é fácil e apresenta outro tipos de riscos. São sempre o suficiente para conduzir a novas formas de luta e demandas exigentes por recursos cuja exploração afeta sempre outras nações de uma forma ou de outra.
A Ameaça Atlante foi publicada em português a Novembro de 2025 pelas Edições Asa (do Grupo Leya) é de capa dura e tem 64 páginas a cores. Conta com a responsabilidade editorial de Luís Saraiva e foi traduzida por Paula Caetano, que contou ainda com o apoio da revisão de Sara Moreira e a legendagem de Nuno Portugal. Trata-se certamente de um dos mais interessantes dos álbuns recentes de As Aventuras de Blake e Mortimer, recomendado por quem aprecia histórias de ficção científica ou sobre mundos alternativos.
Pode-se considerar uma justa homenagem à imaginação de Edgar P. Jacobs, que nos legou um conjunto de temas e cenários sempre dignos de revisitar.

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural





