Análise BD | O Verão em que Hikaru Morreu 8
O oitavo volume de O Verão em que Hikaru Morreu aprofunda os sentimentos de Yoshiki, sem perder de vista o terror sobrenatural.
Há uma conversa que O Verão em que Hikaru Morreu tem vindo a adiar e que, neste oitavo volume, já não pode ser evitada. Yoshiki sabe que a pessoa ao seu lado não é o verdadeiro Hikaru, mas isso não apaga o afeto que sente por ela, nem resolve tudo o que ficou por dizer ao amigo que perdeu. Mokumokuren aborda esta contradição de forma mais frontal, dando espaço a sentimentos que, até aqui, permaneciam sobretudo nas entrelinhas.
O tom mantém o equilíbrio entre o drama íntimo e o horror. O encerramento de uma das passagens para o outro lado não traz a tranquilidade esperada e as consequências deixam Yoshiki numa posição cada vez mais delicada. A ameaça sobrenatural continua presente, mas o desconforto vem também da proximidade entre as personagens e da dificuldade em distinguir aquilo que ainda é familiar do que já se tornou estranho.
Um dos aspetos mais interessantes deste volume é a forma como Yoshiki começa a reconhecer os próprios sentimentos. A sua ligação a Hikaru sempre foi o centro emocional da série, mas Mokumokuren deixa agora de se limitar a sugerir que existe algo por esclarecer entre os dois. A vertente Boys Love é finalmente assumida de forma mais explícita, sem transformar a obra num romance convencional ou abdicar da estranheza que a distingue. O afeto, a vontade de recuperar alguém e a consciência de que essa pessoa talvez já não exista coexistem numa relação difícil de definir. É precisamente essa contradição que lhe dá força.
Esta evolução também beneficia da intervenção das personagens secundárias. Asako confronta Yoshiki com a sua tendência para carregar tudo sozinho, enquanto a mãe do protagonista lhe recorda que a sua vida continua a ter valor para quem está à sua volta. São momentos relativamente breves, mas ajudam a perceber melhor as escolhas de Yoshiki e impedem que a história se feche demasiado na relação entre os dois protagonistas.
Entretanto, a organização para a qual Tanaka trabalha começa a ganhar maior importância. A sua intervenção dá uma dimensão mais estruturada e ameaçadora ao conflito, ao mesmo tempo que levanta novas dúvidas sobre o conhecimento que tem das criaturas e das passagens. Tanaka continua a ser uma das figuras mais difíceis de decifrar, e as pistas sobre o seu passado tornam a investigação mais interessante. Nem todas as revelações têm o mesmo impacto, mas começam a surgir ligações entre elementos que, até agora, pareciam pertencer a linhas narrativas distintas.
Visualmente, Mokumokuren mantém o contraste entre a aparente tranquilidade dos cenários rurais e as imagens perturbadoras que surgem quando o sobrenatural invade o quotidiano. O desenho sabe quando deixar uma expressão ou um silêncio ocupar a página, mas também quando mostrar uma presença cuja aparência é difícil de encarar. A forma como o autor trabalha o espaço e o ritmo continua a ser um dos grandes trunfos da série. Já o capítulo especial 41.5, centrado nas memórias de Yoshiki e do verdadeiro Hikaru, funciona como uma pausa melancólica e acrescenta outra camada emocional à relação dos dois.
Este volume não responde a todas as questões que levanta e alguns desenvolvimentos parecem mais preocupados em preparar os próximos capítulos do que em oferecer conclusões imediatas. Ainda assim, a evolução emocional da história ajuda a compensar essa contenção. Os sentimentos de Yoshiki tornam-se mais claros, enquanto o conflito em torno das passagens e da organização ganha nova urgência. Tudo isto sem que a série perca a atmosfera de horror que a tem definido desde o início.
A edição da Presença Comics mantém a qualidade dos volumes anteriores e continua a fazer justiça à obra. Este oitavo volume destaca-se sobretudo pela forma como aproxima o terror da dimensão mais íntima da história. Yoshiki já não consegue fingir que a sua relação com Hikaru é simples, e é precisamente quando deixa de o fazer que O Verão em que Hikaru Morreu ganha uma nova força.
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.





