Análise | Tenebris Somnia – O pesadelo que ganha vida
Tenebris Somnia mistura survival horror em pixel art com sequências live-action, num pesadelo de obsessão e criaturas demoníacas.
Jogo: Tenebris Somnia
Disponível para: PC, Nintendo Switch, PlayStation 5, Xbox Series
Versão testada: PlayStation 5
Desenvolvedora: Andrés Borghi, Saibot Studios
Editora: New Blood Interactive
Há monstros que assustam pela aparência e outros que nos perturbam pelo que representam. Tenebris Somnia consegue explorar ambas as vertentes, combinando o charme macabro dos jogos de terror da era 8-bit com sequências cinematográficas filmadas com atores reais. O resultado é uma aventura de survival horror com personalidade própria, que procura recuperar o desconforto dos clássicos sem ficar refém da nostalgia.
Criado pelo realizador argentino Andrés Borghi, em colaboração com a Saibot Studios, o jogo acompanha Julia, uma jovem atormentada por pesadelos recorrentes nos quais criaturas humanoides de olhos brancos destroçam o seu antigo namorado, Iván. Preocupada, decide visitá-lo, mas encontra o apartamento num estado caótico, repleto de símbolos ocultistas e sinais de que algo muito mais sinistro está em marcha. Iván envolveu-se com um culto chamado Relicta para apagar as memórias da relação falhada, dando início a uma descida ao inferno que mistura sofrimento emocional e horror sobrenatural.
A grande surpresa surge através de Devora, o filme de terror criado por Iván, cujas imagens começam a invadir a realidade. É aqui que Tenebris Somnia apresenta o seu trunfo mais forte. A passagem da pixel art para sequências live-action não é um mero truque visual. As interpretações, a iluminação cinematográfica, os efeitos práticos e a sonoplastia dão corpo às criaturas que, durante a exploração, a nossa imaginação completa através de poucos píxeis. O contraste funciona mesmo muito bem, tornando certas cenas genuinamente perturbadoras.
Na jogabilidade, encontramos uma estrutura familiar aos fãs de Clock Tower, Resident Evil e Silent Hill. Exploramos um edifício distorcido, procuramos chaves, combinamos objetos e deciframos pistas para abrir caminho. A gestão de munições e itens de cura obriga-nos a pensar antes de disparar, enquanto os confrontos com bosses funcionam como puzzles, exigindo atenção ao cenário e às fraquezas dos inimigos.
Nem tudo resulta com a mesma eficácia. Os controlos em duas dimensões podem tornar-se desajeitados em espaços apertados, e recarregar armas através do inventário interrompe o ritmo dos combates. Alguns enigmas também recorrem a uma lógica de aventura gráfica demasiado obscura, obrigando-nos a experimentar objetos ou a vasculhar cenários à procura de elementos quase invisíveis. Há confrontos que se prolongam mais do que deviam, embora os pontos de controlo generosos reduzam a frustração. A atualização 1.0.1 introduziu ainda ajustes nas recompensas de recursos durante certos combates, ajudando a evitar situações praticamente impossíveis de resolver.
Tenebris Somnia tropeça em algumas convenções antiquadas, mas compensa com atmosfera, criatividade e uma integração exemplar entre videojogo e cinema. Para quem gosta de terror retro e não tem medo de sujar as mãos, é uma experiência a não perder.
Nota: 8/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.




