Cinema: Crítica – De Mãos Atadas
Jaime Lorente (A Casa de Papel) protagoniza o mais recente filme De Mãos Atadas, baseado no livro de David Jasson e realizado por Ángel de la Cruz.
Quão importante poderá ser uma cadeira num filme? Eis a pergunta do novo filme de Ángel de la Cruz, titulado De Mãos Atadas, baseado no livro de David Jasso e protagonizado por Jaime Lorente.
Seguimos a vida de Daniel Lonces (Lorente), um autor fascinado pelo thriller e à procura de novas ideias para as suas personagens. Decide então pedir à sua mulher, Irene (Christina Ochoa), que o ate a uma cadeira durante duas horas, sem escapatória. Porém, o pior acontece, e Daniel é forçado a sobreviver até que alguém o encontre.
O cinema espanhol, com toda a sua vasta experiência na produção de filmes de vários géneros, que levam audiências às salas para apoiar as suas produções nacionais – muito mais do que aqui em Portugal – acaba por criar, em quem vê de fora, uma certa expectativa. Entre [REC] e as obras de Álex de la Iglesia, sabemos que podemos contar com algo intrigante vindo da produção espanhola, e o mesmo acontece com De Mãos Atadas. Infelizmente, a execução deixa-nos completamente desiludidos.
Primeiramente, a narrativa prepara várias possibilidades de como Daniel, estando imóvel, se poderia tornar o centro de um thriller mais humano, com a aparição da sua amante de um lado, e da mãe de uma criança que perdeu o filho após este ter lido o seu último livro, do outro. Em ambos os casos, existem motivos excelentes para provocar o pânico e o caos, sobretudo em alguém que está preso a uma cadeira. No entanto, o filme opta por seguir o caminho de se focar na cadeira como se esta fosse um protagonista silencioso, que guia de forma forçada o rumo da história, com uma teimosia consistente e egoísta, ignorando simplesmente o bem maior da narrativa em favor da sua demonstração.
Depois, Jaime Lorente, que ficou conhecido pela popular série da Netflix A Casa de Papel, encarna a sua personagem com uma intensidade muito variável, que vai do apropriado ao exagerado para além do plausível, mas que, ainda assim, tende a ser o melhor do filme. Sendo apenas um fantoche dos seus mestres cinematográficos, Lorente segue em frente com uma actuação que, num filme já relativamente curto, passa metade do tempo de boca tapada com fita. Se isso é uma técnica de gestão de recursos ou uma decisão artística, nunca o saberemos.
Assim, De Mãos Atadas é uma obra que dá a sensação de ser uma espécie de montanha-russa de feira local. Eficaz durante os poucos momentos em que estamos nela, mas com uma manutenção questionável e desconfortável, levando-nos a não repetir a viagem tão cedo. Um filme que ignora as várias possibilidades que realmente o beneficiariam também não merece ser visto dessa forma.
Nota Final: 2/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.




