Cinema: Crítica – We Put The World To Sleep
O cineasta romeno Adrian Țofei junta-se à sua mulher e parceira criativa Duru Yücel para mais um found-footage de terror, em We Put The World To Sleep.
Quando o cineasta romeno Adrian Țofei estreou Be My Cat: A Film for Anne em 2015 — com estreia mundial no Fantasporto desse mesmo ano — recebeu aplauso internacional, tanto de sites da especialidade como de destaques no blog da Blumhouse, passando também por muitos festivais. Ao longo dos anos, o filme foi ganhando um estatuto de culto junto dos fãs do género, afirmando-se como uma das obras mais intrigantes do terror found-footage europeu. Pouco mais de uma década depois, Țofei estreia no IndieLisboa a sua sequela espiritual, We Put The World To Sleep, desta vez acompanhado pela sua mulher e parceira criativa, Duru Yücel.
Com os protagonistas/autores a encarnarem versões fictícias das suas vidas reais, vemos Adrian e Duru a perderem-se cada vez mais nos seus papéis, à medida que a dupla embarca na produção de um filme apocalíptico e numa missão secreta para acabar de vez com o mundo.
Se Be My Cat: A Film for Anne rapidamente se tornou num filme perturbador, num estudo de personagem baseado em serial killers da era online, em que a necessidade de documentar todo o processo das suas mortes é tão importante quanto a escolha da vítima, We Put The World To Sleep tem uma abordagem mais racional, ainda que mantenha o tom perturbador, contando também com Duru, que acompanha frequentemente o comportamento assustador. Em contrapartida, estamos perante um filme que aprofunda mais o lado psicológico do que a violência física, oferecendo uma outra perspectiva sobre a mente destes criativos.
Produzido ao longo de nove anos, as linhas entre a realidade e a ficção ficam facilmente ofuscadas. Em várias partes da obra, nunca percebemos bem o que é o filme e o que é o making-of do filme, mas somos assegurados de que quem está ali no ecrã são as suas respetivas representações artísticas, e não literalmente os criativos que ousam ir tão longe nos seus métodos cerebrais, os quais certamente carregam algum tipo de mazela até aos dias de hoje, só pela sua arte; num cruzamento de ideias entre o terror de O Projeto Blair Witch e a metafísica de 2001: Odisseia no Espaço.
Em pouco menos de hora e meia, seguimos numa viagem absolutamente aterradora, com uma comédia nervosa, na qual questionamos a cada 30 segundos se aquelas personagens estão a falar a sério, ou até onde vai a brincadeira artística. É, sem dúvida, um grande exercício de atores, com Țofei a realizar também e Yücel a contribuir para o argumento. Ambos referem que, ao longo dos anos de produção, que totalizaram cerca de 150 horas de imagens, houve um processo de edição que recebeu feedback constante de um e do outro sobre o rumo da história. Só por esse esforço e dedicação, merecem um enorme aplauso.
Assim, We Put The World To Sleep é uma sequela que tem muito do espírito de Be My Cat: A Film for Anne, indo mais além dentro do found-footage europeu, com uma história que tem tanto de cativante como de assustadora. Em breve, a trilogia fecha com Pure, uma obra que a dupla já referiu vir a ser um filme realizado de forma mais tradicional, com uma perspectiva nunca antes vista no cinema, deixando desde já a curiosidade muito aguçada.
Nota Final: 7/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.




