Jogos: Kena: Bridge of Spirits (Nintendo Switch 2) – Análise
Kena: Bridge of Spirits na Nintendo Switch 2 continua a ser uma aventura visualmente encantadora, mesmo com alguns compromissos técnicos.
Jogo: Kena: Bridge of Spirits
Disponível para: PC, PlayStation 4, PlayStation 5, Nintendo Switch 2, Xbox One, Xbox Series
Versão testada: Nintendo Switch 2
Desenvolvedora: Ember Lab
Editora: Ember Lab
Há jogos feitos para impressionar no momento, e depois há aqueles que ficam connosco muito depois dos créditos finais. Kena: Bridge of Spirits pertence claramente à segunda categoria. Agora a chegar à Nintendo Switch 2 como um port direto da recente versão Xbox, e anteriormente disponível em PlayStation e PC, a estreia da Ember Lab regressa no momento certo, sobretudo com Kena: Scars of Kosmora já oficialmente anunciado. Para quem falhou o lançamento original em 2021, esta continua a ser uma das experiências de ação e aventura mais marcantes dos últimos anos: parte platformer 3D à moda da era PlayStation 2, parte filme de animação interativo, e, por vezes, surpreendentemente emotivo.
Kena é uma aventura de ação 3D linear, focada e muito bem ritmada, que respeita o tempo do jogador. A duração entre as 10 e as 12 horas sabe particularmente bem numa altura em que tantos jogos insistem em mundos abertos inchados e listas intermináveis de tarefas. Controlamos Kena, uma Guia Espiritual a caminho de um santuário sagrado na montanha, que acaba por descobrir uma aldeia abandonada, consumida pela corrupção e por espíritos presos ao peso do luto. A narrativa é simples, sim, mas essa simplicidade joga a seu favor. A Ember Lab percebe que a clareza emocional muitas vezes tem mais impacto do que uma trama excessivamente complexa. Os temas da perda, da aceitação e da cura surgem de forma orgânica ao longo da progressão, com alguns arcos narrativos, em especial o das duas crianças à procura do irmão mais velho, a conseguirem um peso emocional genuíno.
A apresentação continua a ser a grande força do jogo. Mesmo na Switch 2, Kena mantém uma identidade visual absolutamente deslumbrante. As florestas densas, os caminhos cobertos pela chuva e o enquadramento cinematográfico dão-lhe aquela sensação, tantas vezes repetida mas ainda justa, de “filme Disney interativo”. Não surpreende, tendo em conta o percurso da Ember Lab e a colaboração com o estúdio de animação Sparx. As cutscenes, em particular, são excecionalmente bem realizadas, com uma fluidez quase digna da Pixar nas expressões e na animação das personagens. Juntando a isto uma banda sonora orquestral envolvente e um ciclo dinâmico de dia e noite que altera constantemente a atmosfera entre o ameaçador e o sereno, o jogo raramente falha na construção do ambiente.
E depois temos os Rot, as pequenas criaturas da floresta que rapidamente se tornaram a imagem de marca do jogo. Felizmente, não são apenas um elemento decorativo ou um chamariz visual. A nível mecânico, estão no centro tanto do combate como da resolução de puzzles, e nunca parecem um truque forçado. Em combate, ao encher o medidor dos Rot, Kena pode usá-los para atordoar inimigos, ativar flores de cura ou potenciar ataques especiais devastadores. É um ciclo de gameplay inteligente que acrescenta profundidade ao sistema, mesmo que o design dos inimigos não esteja ao mesmo nível. E é precisamente aqui que surge a maior fragilidade do jogo. Os combates podem tornar-se repetitivos, com demasiadas variantes previsíveis de criaturas humanoides corrompidas por madeira e magia. Os bosses são mais inspirados e oferecem um desafio sólido, embora, nas fases finais, Kena se torne algo poderosa em excesso, suavizando a curva de dificuldade.
A exploração e os puzzles são agradáveis, embora raramente memoráveis. Há uma ligeira influência de Pikmin na forma como os Rot movem objetos e limpam a corrupção, enquanto a utilização do arco para progressão vertical ajuda a manter o ritmo. Ainda assim, a movimentação por vezes parece demasiado limitada, com paredes invisíveis e encostas que empurram a personagem para longe de zonas aparentemente acessíveis. A mecânica do dragão de água formado pelos Rot é, talvez, o momento menos conseguido, com controlos algo pouco responsivos.
Enquanto port, a versão Switch 2 é competente, sem ser exemplar. O alvo dos 30 FPS mantém-se, na maioria do tempo, estável, embora a ausência de um modo a 60 FPS se faça sentir no input lag. Visualmente, é inegável que existem concessões face até à versão base de PS4. Iluminação mais suave, sombras difusas, menor densidade de vegetação e alguma fragmentação visual em movimentos rápidos denunciam o downgrade técnico. Ainda assim, a direção artística é tão forte que, muitas vezes, ultrapassa essas limitações.
Importa também sublinhar que esta é a edição completa, incluindo New Game+, desafios adicionais, colecionáveis, fatos alternativos e, claro, a irresistível coleção de chapéus para os Rot. E sim, o Photo Mode continua perigosamente viciante.
Kena: Bridge of Spirits na Nintendo Switch 2 pode não ser a versão tecnicamente definitiva, mas continua a ser uma aventura bela, emotiva e elegantemente construída, que merece toda a atenção renovada.
Nota: 8/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.






