Central Comics

Banda Desenhada, Cinema, Animação, TV, Videojogos

Análise BD: O Príncipe dos pássaros de alto voo

Há bandas desenhadas que pegam numa figura histórica e limitam-se a ilustrar a Wikipédia com balões. O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo consegue evitar quase sempre essa armadilha. Philippe Girard pega num período menos conhecido da vida de Antoine de Saint-Exupéry , nomeadamente o exílio canadiano durante a Segunda Guerra Mundial  e transforma-o numa espécie de reflexão melancólica sobre criação artística, memória e identidade.

O resultado é um álbum que vive muito mais da atmosfera do que da ação. E isso surpreende e joga claramente a favor da obra.

Girard constrói a narrativa como se estivéssemos a assistir ao nascimento emocional de O Pequeno Príncipe. Não cai na tentação fácil de explicar tudo ou de transformar cada encontro numa “origem secreta” óbvia. Há subtileza no modo como certas personagens e situações ecoam futuros elementos da obra de Saint-Exupéry. O rapaz loiro curioso, os encontros quase mágicos, os diálogos suspensos entre inocência e tristeza… tudo isso surge de forma orgânica, sem aquele ar artificial de “olhem aqui a referência”.

O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo

O mais interessante é que a BD funciona melhor quando abranda. Quando Saint-Exupéry vagueia pelo Quebeque, preso entre o desalento da guerra e a incapacidade de voltar a voar, sente-se um vazio existencial muito humano. Philippe Girard percebe que a figura do escritor já era, por si só, profundamente literária: um homem dividido entre o romantismo do aviador aventureiro e uma depressão silenciosa que o consumia. 

Narrativamente, o álbum tem um ritmo contemplativo, quase de diário ilustrado. Quem entrar à espera de uma biografia tradicional pode estranhar. Há passagens em que a história parece flutuar sem direção concreta, mas creio que isso é deliberado. A BD procura captar mais estados de espírito do que cumprir checkpoints biográficos. E sinceramente, isso torna-a mais interessante do que muitas “novelas gráficas históricas” recentes, mas a mim desiludiu-me um pouco, pois estava com expectativa de outra coisa completamente diferente. O livro acaba por ganhar outro peso no que diz respeito a quem era Saint-Exupéry, e pessoalmente estava mais à espera de menos carga emocional.

O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo

A arte de Girard encaixa muito bem neste tom. O traço é solto, expressivo e com um lado caricatural discreto que impede a obra de cair num excesso de solenidade. Há páginas particularmente eficazes nos momentos ligados à natureza e aos céus abertos do Canadá, onde se sente quase uma nostalgia aérea permanente. A cor ajuda bastante nessa sensação melancólica, com tons suaves e frios que reforçam o estado emocional do protagonista.

Ainda assim, o álbum não é irrepreensível. Em certos momentos, o simbolismo torna-se demasiado insistente e algumas sequências alargam-se mais do que deviam. Há também personagens secundárias que parecem existir apenas para reforçar a mitologia à volta de Saint-Exupéry, sem grande profundidade própria. E talvez faltasse um pouco mais de tensão dramática no miolo da narrativa.

Quanto à edição portuguesa da  ASA, é difícil apontar grandes falhas. O formato grande beneficia bastante a arte de Girard, a reprodução de cor está muito sólida e a encadernação em capa dura dá ao livro aquele peso “de prestígio” que este tipo de obra pede. São 160 páginas bem apresentadas e com boa qualidade de impressão.  

O único senão talvez seja o preço a rondar os 30€, que pode afastar leitores mais ocasionais. É verdade que estamos perante uma edição cuidada e visualmente apelativa, claramente pensada para colecionadores e leitores habituados ao catálogo franco-belga da ASA, mas questiono-me se para este tipo de livro, era necessário um formato tão luxuoso? Não compensaria uma capa mole e fazer descer o preço? Para mim faria sentido…

O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo

No fundo, O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo não tenta reinventar a biografia em BD. O que faz é mais delicado: cria uma ponte emocional entre o homem e o mito. E quando funciona ( que é na maior parte do tempo) consegue transmitir aquela sensação rara de estarmos a ler uma obra feita com genuína admiração pelo seu protagonista, sem nunca o transformar completamente em santo ou génio intocável.

É uma BD mais interessada em melancolia do que em espetáculo. E isso, hoje em dia, já é quase refrescante. Não recomendarei para todos, a não ser que gostem desta figura histórica e  pergunto-me também se não haverá uma continuação desta obra… quem leu, também ficou com essa sensação?

Boas leituras.

Carlos Maciel

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Verified by MonsterInsights