Cinema: Crítica – O Drama
O norueguês Kristoffer Borgli regressa ao grande ecrã com O Drama, protagonizado por Zendaya e Robert Pattinson, e que promete ser o filme mais dramático do ano.
O cineasta norueguês Kristoffer Borgli, em muito pouco tempo, estabeleceu-se como um dos grandes nomes oriundos da Europa a vingar em Hollywood. Foi preciso tempo e talento. A sua estreia com DRIB, ao qual o próprio se refere como “um documentário verdadeiro sobre uma bebida energética fictícia”, passou despercebida, mas foi em Doente de Mim Mesma – que foi exibido no IndieLisboa – que este se definiu, com uma ousadia naturalmente esperada dos nórdicos nos tempos recentes. Exatamente um ano depois, e no mesmo festival, O Homem dos Teus Sonhos, com Nicolas Cage, mostrou um lado mais cómico e surrealista, aproveitando assim a oportunidade da sua estreia com um filme norte-americano. É agora com O Drama que Borgli dá o salto para o que será a sua obra mais arriscada até hoje.
Seguimos a vida de Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson), um casal que está a dias de se casar e viver feliz para sempre – até que um deles descobre um segredo obscuro do outro, alterando para sempre a forma como se veem na relação e causando, efetivamente, um enorme drama nas suas vidas.
Borgli atira para o centro das atenções uma fofoca tão questionavelmente séria, e de uma forma tão abrasiva, que quase nos assalta os sentidos e o foco, ao vermos tudo a desenrolar-se perante os nossos olhos. É um segredo que causa pânico e crise, perfeito para trazer à superfície todo o tipo de sentimentos que, aliados à pressão de um casamento, formam uma combinação ideal para que O Drama seja verdadeiramente dramático.
O desconforto é deliberado, mas o filme ainda abre espaço para alguns risos, muitos deles nervosos, ao ficarmos constantemente à espera da próxima revelação ou potencial reviravolta. É um exercício que reflete aquilo que vivemos diariamente nas redes sociais, seja com aqueles dos nossos círculos mais próximos, seja à distância com as chamadas celebridades digitais, enquanto aguardamos pacientemente pelo próximo tópico que toma conta das conversas.
Pattinson e Zendaya protagonizam aqui uma dupla dolorosamente humana, encarando a situação de forma expectável, olhando-se nos olhos no desencadeamento daquilo que é suposto ser um casamento feliz e unido, vinculado por duas pessoas que se amam e se aceitam, mas que terão de ponderar o limite do poder daquilo que as define.
Assim, O Drama é o filme mais dramático do ano, oferecendo não só uma bela surpresa, como também uma obra que lida com a tensão por um olhar embaraçado, enquanto examina, de forma provocatória, a sociabilidade do lado feio da empatia e da vergonha, e a forma como os outros julgam os nossos piores erros. No meio disto tudo, Borgli declara-se como um cineasta sem medos, disposto a ir até ao limite e a mostrar o dedo do meio, com um sorriso na cara, a todos os que acharam que se tinha vendido.
Nota Final: 8/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.




