Jogos: Death Stranding 2: On the Beach (PC) – Análise
Death Stranding 2: On the Beach, a odisseia estranha e emocional de Kojima atinge a sua melhor forma num port tecnicamente exemplar.
Jogo: Death Stranding 2: On the Beach
Disponível para: PlayStation 5, PC
Versão testada: PC
Desenvolvedora: KOJIMA PRODUCTIONS, Nixxes Software
Editora: PlayStation Publishing LLC, KOJIMA PRODUCTIONS

Há jogos que procuram agradar a toda a gente. Death Stranding 2: On the Beach não é um deles. E ainda bem. A nova obra de Hideo Kojima volta a afirmar-se como uma experiência singular, estranha e profundamente autoral, um daqueles títulos que dificilmente se confundem com qualquer outra coisa no mercado. No PC, graças ao trabalho exemplar da Nixxes Software, esta sequela encontra talvez a sua melhor encarnação.
Passaram-se onze meses desde os acontecimentos do primeiro jogo e voltamos a acompanhar Sam Porter Bridges numa nova missão, desta vez centrada na ligação da Austrália à Chiral Network. A base é familiar, mas a abordagem narrativa revela-se mais coesa e emocionalmente mais incisiva. A história mergulha de forma assumida em temas como o luto, a perda e a necessidade, quase contraditória, de nos ligarmos aos outros mesmo quando são precisamente essas ligações que nos ferem. Em oposição surge uma inteligência artificial que pretende isolar a humanidade em nome da segurança e da eliminação da dor, funcionando como uma metáfora nada subtil sobre a desumanização e a automatização da experiência humana.
É um discurso pesado, por vezes deliberadamente excessivo, mas que encaixa na identidade muito própria de Kojima. O criador continua a mover-se naquela fronteira entre o sublime e o absurdo, onde uma caminhada silenciosa por paisagens devastadas, acompanhada por uma melodia folk melancólica, pode ser interrompida por uma sequência completamente delirante com mechs, lasers e confrontos que parecem saídos de um sonho febril. O curioso é que, contra todas as probabilidades, essa mistura funciona. Mais do que funcionar, dá personalidade ao jogo.
Na jogabilidade, Death Stranding 2 mantém intacto o núcleo que definiu o original. Continua a ser, no essencial, um jogo sobre deslocação, planeamento e gestão de percurso. O terreno continua a ser um inimigo constante, obrigando o jogador a ler relevos, a calcular riscos e a improvisar soluções. A diferença está no ritmo. Esta sequela é mais rápida, mais flexível e muito menos rígida na forma como permite abordar cada travessia.
Os veículos, especialmente os camiões, alteram significativamente a dinâmica das entregas e reduzem parte da dureza da progressão inicial, mas sem descaracterizar a experiência. Pelo contrário, dão-lhe outra escala. A sensação de conquista continua lá, apenas surge agora acompanhada por uma maior liberdade de abordagem.
O combate, por sua vez, assume uma faceta mais presente e mais próxima de um immersive sim. Não procura a elegância de um shooter tradicional nem a precisão de um jogo de ação pura. Há aqui uma certa desorganização propositada, um caos controlado que incentiva a criatividade. Entre armas, gadgets e granadas, o jogo oferece múltiplas ferramentas e deixa espaço para que cada confronto se transforme numa pequena experiência emergente. Nem sempre é bonito, mas raramente deixa de ser interessante.
Um dos elementos mais fascinantes continua a ser o sistema multijogador assíncrono. À medida que novas regiões são ligadas à rede, o mundo começa a encher-se de estruturas criadas por outros jogadores, pontes, geradores, sinalizações e pequenas ajudas que tornam o percurso menos hostil. Esta sensação de colaboração invisível permanece como uma das ideias mais inteligentes e mais elegantes do design contemporâneo, reforçando de forma brilhante os próprios temas centrais da narrativa.
Tecnicamente, a versão PC é excelente. O trabalho de otimização impressiona desde o primeiro momento, com uma vasta gama de opções gráficas e um desempenho extremamente sólido. Em máquinas de gama alta, o jogo corre com grande fluidez mesmo com as definições no máximo, e a combinação do upscaler PICO com frame generation oferece resultados visualmente impressionantes. A imagem mantém-se limpa, detalhada e estável, elevando ainda mais a beleza das paisagens e o cuidado cinematográfico das cenas.
Existem, claro, alguns problemas pontuais. Pequenos soluços de fluidez durante a exploração e uma quebra mais notória ao utilizar a mira de sniper impedem que o port atinja a perfeição absoluta. Ainda assim, são falhas menores num conjunto que, no geral, revela um nível de polimento muito acima da média.
A nova dificuldade exclusiva para PC, “To the Wilder”, merece também destaque. Em vez de recorrer ao habitual aumento artificial da resistência dos inimigos, aposta na degradação mais rápida dos recursos e numa gestão mais exigente da sobrevivência. É uma escolha inteligente, que respeita a filosofia do jogo e aprofunda os seus sistemas em vez de os distorcer.
No final, Death Stranding 2: On the Beach é mais do que uma simples continuação. É uma obra mais madura, mais segura da sua identidade e, paradoxalmente, ainda mais disposta a abraçar o estranho. Nem todas as ideias são igualmente eficazes, e há momentos em que a visão de Kojima se aproxima perigosamente da indulgência, mas é precisamente essa ausência de compromisso que torna o jogo tão memorável.
Nota: 8/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.





