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Análise Manga – Unico Livro 2: Perseguido

Unico Livro 2: Perseguido é uma sequela sombria, emocional e visualmente marcante, que expande o legado de Tezuka com um toque moderno e um suspense implacável.

Unico Livro 2: Perseguido

Há sequelas que simplesmente continuam uma história, e depois há aquelas que redefinem o caminho que a própria história julgava estar a seguir. Unico Perseguido, o segundo volume da reinvenção do clássico de 1976 de Osamu Tezuka por Samuel Sattin e Gurihiru, pertence firmemente a esta última categoria. É familiar, sim, construido sobre o mesmo ADN emocional que tornou Despertar tão encantador, mas muda de tom e de terreno de forma tão dramática que a leitura provoca um pequeno choque ao sistema… da melhor forma possível.

Se o Livro 1 nos apresentou suavemente a esta experiência híbrida, espírito de manga fundido com o ritmo da banda desenhada ocidental, o Livro 2 diz: “Muito bem, já chega de alongamentos… agora corremos.”

Unico Livro 2: Perseguido

Unico é lançado para dentro de uma cidade industrial sombria que parece ter saído de um cano enferrujado. A paleta arrefece, o ar parece poluído mesmo em papel, e esta “cidade fabril sombria e febril” torna-se uma personagem por si só. A arte de Gurihiru inclina-se para a sujidade sem perder legibilidade, é suja, mas nunca confusa. E, a cada virar de página, a inocência pastel de Unico destaca-se como se alguém tivesse deixado cair um peluche luminoso numa cuba de fuligem. Chega a ser quase teatral, este choque entre cores suaves e um mundo corroído por dentro.

Um dos elementos mais cruéis do mito de Unico é a amnésia. Cada novo mundo é um novo começo e uma tragédia silenciosa. Aqui, essa tragédia dói mais porque esta nova cidade não é acolhedora, é opressiva, fria, o tipo de cenário que tritura personagens gentis.

Unico, sempre bondoso, sempre ingénuo, cria de imediato uma ligação com Chiko, uma menina frágil e doente cuja solidão ecoa por cada divisão onde aparece. Não há uma introdução chamativa, nem drama forçado. Ela é apenas uma criança desgastada pela vida. E Unico, com a sua magia inata e ternura, torna-se a sua única luz.

Unico Livro 2: Perseguido

A narrativa divide a sua tensão entre duas frentes. A primeira é a própria fábrica. Esta entidade controla não só máquinas, mas vidas. Encarnando poluição, vigilância e a exigência esmagadora de produtividade, Sattin escreve-a com uma simplicidade que a torna antiga, quase mitológica, mas suficientemente assente na realidade para reflectir ansiedades modernas sobre destruição ambiental e sistemas opressivos.

A segunda é Vénus. Se a fábrica representa a tirania local, Vénus traz o terror cósmico. A sua obsessão em capturar Unico intensifica-se aqui, deixa de ser uma ameaça distante e torna-se uma presença sentida nas margens, no ar, no medo que Unico não consegue nomear porque lhe apagaram as memórias. E então ela liberta o Caçador. Este guerreiro é intimidante, belissimamente desenhado e aterrorizador daquele modo lento e metódico. É a personificação da inevitabilidade, a sensação de que, mesmo que Unico resolva o problema à sua frente, o universo ainda tem um problema maior logo atrás.

Unico Livro 2: Perseguido

A fragilidade de Chiko contrasta com a resiliência mágica de Unico. A sua amizade é terna sem descambar em melodrama. Acreditamos no seu medo, no seu deslumbramento e na sua necessidade desesperada de alguém que fique ao seu lado.

Garapachi, o rato companheiro, injecta humor e uma energia mais terrena. Pense nele como o “cidadão comum” que reage exactamente como qualquer um de nós reagiria ao encontrar um unicórnio mágico numa distopia poluída, meio aterrorizado, meio encantado.

Este trio resulta. Equilibram-se mutuamente em tom, personalidade e função. E, quando a história começa a correr, são eles a âncora emocional que impede que as ameaças pareçam abstractas.

Este volume é uma corrida em termos de ritmo. O passo acelera rapidamente, quase de forma surpreendente. Páginas duplas explosivas surgem com força, especialmente quando Unico acede à sua magia singular, ligada à natureza. A forma como os seus poderes se adaptam à poluição é engenhosa, temática e visualmente deslumbrante.

Apesar da acção mais intensa, o livro nunca perde a clareza emocional. Cada combate tem propósito narrativo. Cada fuga está ligada à vulnerabilidade de Chiko ou à inevitabilidade do Caçador.

Unico Livro 2: Perseguido

E o suspense? Verdadeiramente forte. Daqueles que nos fazem virar páginas com um sussurro ansioso na cabeça.

A mensagem ambiental é clara, mas nada moralista. Está entrelaçada na lógica do mundo. A fábrica faz mal porque a poluição faz mal, e a magia de Unico é o seu oposto porque a natureza é vida. Uma narrativa simples e elegante.

O confronto entre opressão e liberdade é mostrado não só através de sistemas, mas também de batalhas pessoais, a mobilidade limitada de Chiko, a falta de agência de Unico devido aos apagamentos de memória, o instinto de sobrevivência de Garapachi. Até o Caçador ganha peso temático como símbolo do controlo de uma deusa.

Este segundo volume mostra que Sattin e Gurihiru não estão aqui apenas para modernizar Tezuka. Estão a expandir a mitologia, a aprofundar as emoções e a criar uma série que se sustém por si própria enquanto honra as suas origens.

A edição portuguesa, publicada pela Distrito Manga, mantém o formato “médio-grande”, suficientemente generoso para permitir que as páginas com arte de fundo completo e spreads dramáticos respirem, sem tornar o livro pesado ou pouco prático de manusear.

Unico Livro 2: Perseguido

Resta concluir que Unico Perseguido é uma sequela visualmente deslumbrante, emocionalmente intensa e tematicamente rica, que transforma um conto de fadas gentil numa aventura densa e repleta de suspense. Respeita Tezuka enquanto ousa ir mais fundo.

Nota: 8,5/10

António Moura

Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.

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