O filme que nunca vimos: “Blade” com Mahershala Ali
Foi anunciado como um dos momentos mais marcantes da San Diego Comic-Con de 2019. Com o vencedor de dois Óscares Mahershala Ali a subir ao palco e a vestir simbolicamente o boné de Blade, a Marvel Studios prometia reinventar uma das personagens mais importantes da sua história cinematográfica. Sete anos depois, o projeto tornou-se um dos maiores casos de desenvolvimento falhado de Hollywood. Após sucessivos adiamentos, mudanças criativas e uma longa sucessão de reescritas, tudo indica que o filme foi definitivamente abandonado.
A nova versão de Blade transformou-se num exemplo raro de um blockbuster que consumiu anos de trabalho sem nunca chegar a iniciar oficialmente as filmagens. Desde o anúncio, em julho de 2019, o projeto passou pelas mãos de seis argumentistas. Stacy Osei-Kuffour foi a primeira a assumir o argumento, seguindo-se Michael Starrbury, Beau DeMayo, Nic Pizzolatto, Michael Green e Eric Pearson, numa sucessão de tentativas para encontrar uma visão criativa capaz de convencer o estúdio.
Também a realização nunca encontrou estabilidade. Bassam Tariq foi o primeiro cineasta escolhido, abandonando o projeto em 2022. Yann Demange assumiu posteriormente a função, mas acabaria igualmente por sair. Cary Joji Fukunaga chegou a manter conversações com a Marvel Studios, mas nunca chegou a assinar contrato. Pelo caminho, três datas de estreia foram anunciadas e posteriormente retiradas do calendário.

Durante anos, Mahershala Ali manteve uma postura discreta perante os constantes atrasos. Contudo, numa das suas declarações mais diretas sobre o assunto, o ator reconheceu que o projeto dificilmente voltará a acontecer.
“Tinham-me sob contrato. Eles têm milhares de milhões de dólares. Se quisessem fazer o filme, tê-lo-íamos feito.”
Ali acrescentou que aprendeu, ao longo de quase três décadas de carreira, que nem todos os projetos destinados a um ator acabam por concretizar-se.
“O que é para nós acaba por acontecer. O que não é, simplesmente não é. Tenho de seguir em frente. E já segui.”
Segundo vários relatos da imprensa norte-americana, o ator chegou a treinar durante anos com espadas e preparação física específica para interpretar o lendário caçador de vampiros, sem que uma única cena tivesse sido oficialmente filmada.

Também Kevin Feige abordou recentemente o tema de forma invulgarmente autocrítica. O presidente da Marvel Studios admitiu sentir-se responsável por nunca ter conseguido colocar o projeto em produção.
“Sinto-me um enorme falhado por não termos conseguido arrancar com Blade com Mahershala.”
Feige explicou que os sucessivos atrasos resultaram, em grande parte, da necessidade de reorganizar a estratégia do estúdio após a rápida expansão do Universo Cinematográfico da Marvel para o Disney+.
Segundo o produtor, a Marvel concluiu que estava a privilegiar quantidade em detrimento da qualidade, optando por interromper projetos que não atingissem o nível criativo pretendido.
“Não queríamos simplesmente vestir-lhe um casaco de cabedal e colocá-lo a matar vampiros. Tinha de ser algo verdadeiramente especial.”
Entre os vários indícios de que Blade dificilmente avançaria, um dos mais reveladores surgiu longe dos comunicados oficiais.
Os figurinos de época concebidos pela vencedora do Óscar Ruth E. Carter para uma das versões do filme acabaram por ser vendidos e reutilizados na produção de Pecadores, de Ryan Coogler. O filme acabaria por arrecadar cerca de 366 milhões de dólares nas bilheteiras mundiais, enquanto Blade permanecia indefinidamente parado.

O momento mais simbólico desta história aconteceu precisamente num filme da própria Marvel.
Em Deadpool & Wolverine, Wesley Snipes regressou inesperadamente ao papel que interpretou entre 1998 e 2004. Numa das cenas mais comentadas do filme, Blade afirma:
“Só vai haver um Blade.”
Pensada inicialmente como uma piada metalinguística, a frase acabou por ganhar um significado inesperado perante o destino do reboot protagonizado por Mahershala Ali.
Muito antes de Homem-Aranha ou X-Men inaugurarem a era moderna dos filmes de super-heróis, foi Blade, em 1998, que demonstrou que uma personagem da Marvel podia conquistar o público nas salas de cinema.
Realizado por Stephen Norrington e protagonizado por Wesley Snipes, o filme arrecadou cerca de 131 milhões de dólares em todo o mundo, a partir de um orçamento estimado em 45 milhões. O sucesso surgiu apenas dois anos depois de a Marvel ter declarado falência, tornando-se numa das primeiras demonstrações de que as suas propriedades intelectuais possuíam verdadeiro potencial cinematográfico.
Muitos analistas consideram hoje que esse êxito abriu caminho para a aposta que culminaria, anos mais tarde, com o nascimento do Universo Cinematográfico da Marvel.

O cancelamento de Blade junta-se a uma lista cada vez maior de projetos que acabaram por desaparecer durante as várias fases do MCU.
Entre eles encontram-se Inhumans, inicialmente anunciado para a Fase 3 antes de ser cancelado, Armor Wars, que deixou de integrar os planos do estúdio, Avengers: The Kang Dynasty, substituído por Vingadores: Doomsday após a saída de Jonathan Majors, bem como os alegados desenvolvimentos de Eternals 2 e de um filme dedicado ao Black Knight, que nunca avançaram oficialmente.Apesar das declarações de Mahershala Ali apontarem para o encerramento definitivo do projeto, a Marvel Studios nunca anunciou formalmente o cancelamento de Blade. Ainda assim, a ausência do filme dos calendários futuros do estúdio e as palavras tanto do ator como de Kevin Feige tornam cada vez mais improvável que esta versão venha algum dia a chegar aos cinemas.

Sete anos depois da apresentação que entusiasmou milhares de fãs na Comic-Con, Blade permanece como um dos maiores “filmes fantasma” da história recente de Hollywood: um blockbuster anunciado, preparado, reescrito e adiado vezes sem conta, mas que nunca conseguiu sair verdadeiramente da escuridão.
Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.



