Entrevista a Miguel Ángel Martín: «A arte deve ser admirada em vez de adorada…”
Miguel Ángel Martín: «A arte deve ser admirada em vez de adorada, nunca a levei a sério e fico espantado quando alguém o faz»

Miguel Ángel Martín é um autor que dificilmente passa despercebido. Se isso já acontece com grande parte da sua obra, ganha uma dimensão particular quando surge uma polémica como a que recentemente rebentou em Itália, em torno da sua interpretação de A Anunciação, de Lorenzo Lotto, para o cartaz do Festival de Banda Desenhada de Recanati.
A controvérsia surgiu depois de um advogado considerar que a representação de uma Virgem com inspiração hindu e de um anjo nu era desrespeitosa e constituía um ataque aos católicos. A polémica levou o município a retirar o seu logótipo do cartaz, substituindo-o por uma mancha negra. Para Martín, contudo, o episódio acabou por representar uma inesperada e enorme campanha de publicidade nos meios de comunicação italianos.
O autor espanhol, conhecido pelo seu traço limpo e pelas histórias frequentemente provocadoras, tem também uma forte ligação editorial a Portugal. A Escorpião Azul publicou no nosso país vários dos seus trabalhos, entre os quais Bug, Neuro Habitat, The Space Between, Saphari e Cyberfreak.
Em Itália, Martín acaba igualmente de publicar uma interpretação de O Inferno, de Dante, através de 34 ilustrações que exploram o lado mais perturbador da obra. Em vez das tradicionais representações clássicas, o autor encontrou inspiração no cinema de terror e, em particular, nos filmes de zombies de Lucio Fulci.
Nesta entrevista, Miguel Ángel Martín fala sobre a polémica em Recanati, recorda o caso de Psicopatías Sexuales, que há três décadas lhe trouxe problemas judiciais em Itália, explica a abordagem ao Inferno de Dante e revela alguns dos seus próximos projetos.
«A polémica foi ridícula, mas para mim foi uma publicidade do caraças»
Há dois assuntos em que és protagonista e que têm em comum o facto de terem surgido em Itália: a publicação do Inferno de Dante e o cartaz do festival de banda desenhada de Recanati, com toda a polémica envolvida. Como surgiu tudo isto?
Efetivamente, são duas coisas diferentes, mas unidas por Itália. A primeira é a publicação do Inferno de Dante, ilustrado por mim e publicado pelo meu editor italiano. A segunda é o facto de me terem encomendado o cartaz do festival de banda desenhada de Recanati, cidade natal do grande poeta Leopardi.
Pediram-me para fazer uma interpretação de A Anunciação, de Lorenzo Lotto, cujo original está no museu Villa Coloredo Mels. Normalmente, quando pedem a um desenhador para fazer um cartaz, querem que faça a sua própria versão ou introduza algum elemento do quadro. Foi o que fiz. Primeiro enviei o esboço, aprovaram-no e disseram-me para avançar.
O responsável municipal pela Cultura, ou quem tinha essa competência, aprovou tudo, mas quando chegou o momento de publicar o cartaz, mesmo poucos dias antes, começaram a circular imagens digitais na Internet. Ao que parece, um advogado de lá, que devia ser muito devoto da Madonna de A Anunciação, apresentou uma denúncia ou queixa.
As pessoas da Câmara assustaram-se um pouco e começaram as discussões sobre se deviam retirar o cartaz ou não. No final, chegaram ao acordo de retirar o logótipo da Câmara e colocaram por cima uma mancha preta, tal como se viu nas ruas.
É tudo muito ridículo e infantil, mas, claro, para mim foi uma publicidade do caraças e estou encantado com o que aconteceu.
Então levaste tudo com humor? Não te preocupaste? Estes assuntos costumam ser desagradáveis.
Em momento algum passei mal. Estive a divertir-me e a rir porque tudo aquilo me parecia tão infantil e estúpido… Mas, enfim, publicidade gratuita.
Aliás, disse isso em várias entrevistas e eles próprios destacaram essas declarações nos títulos. Nenhum problema.
«Há 30 anos já tinha passado por isto com Psicopatías Sexuales»
Não é a primeira vez que uma obra tua provoca uma polémica, e também nesse caso aconteceu em Itália.
Isto já me aconteceu há trinta anos, quando foi publicado Psicopatías Sexuales. Mas aí houve censura a sério, porque, na altura, a Procuradoria de Cremona, que é a cidade onde a banda desenhada era impressa, apresentou uma denúncia por incitamento ao suicídio, homicídio e pedofilia.
Nessa ocasião, a publicação foi proibida e o meu editor esteve envolvido em processos judiciais durante cinco anos. No final, foi absolvido e a banda desenhada passou a ser vendida abertamente.
Agora já posso dizê-lo, mas na realidade também circulou uma edição clandestina que o editor Jorge Vacca, da Topolín Edizioni, publicou com grande coragem. Vendíamo-la nos festivais apesar da decisão judicial.
Eu, naquela altura, não era ninguém e não era conhecido, mas aquilo apareceu em toda a imprensa e nos meios de comunicação italianos. De repente, toda a gente ficou a saber quem era Miguel Ángel Martín.
Isso foi uma publicidade realmente muito boa para mim, porque me transformou num autor de culto. Aliás, por causa de tudo isso, ainda hoje sou uma espécie de lenda e mito em Itália. Mais do que em Espanha.

No caso do cartaz de Recanati, a polémica parece ser diferente. Dizes que a obra tinha sido previamente aprovada pela Câmara, o que torna a posição posterior um pouco estranha.
Sim. O cartaz estava oficialmente aprovado e até já estava impresso. O responsável pela Cultura não tinha colocado qualquer problema, mas depois foi um advogado de lá que armou este escândalo.
Então a Câmara fez aquilo que os políticos costumam fazer: assustou-se. Começaram a perguntar o que deveriam fazer e passaram um par de dias a discutir com os organizadores da associação Arcadia, até decidirem tapar o logótipo.
Tudo muito ridículo e infantil.
Diziam-me que o advogado era conhecido em Recanati, que devia estar ligado a alguma questão política e que queria promover-se. Não sei. Mas, para mim, a publicidade foi muito boa.
E parece que o próprio festival também beneficiou de toda esta polémica.
Sim. Pelo que me contaram os responsáveis da Arcadia, que são pessoas magníficas e maravilhosas, também lhes fez muito bem. Houve mais visitantes do que nunca no festival, incluindo pessoas vindas de fora de Recanati.
Esgotaram-se os bilhetes para as exposições, os eventos, os workshops para crianças e as conversas. Estava tudo cheio e passei três dias a assinar exemplares do cartaz e dos meus livros.
Divertimo-nos imenso. Por isso, adorei. Publicidade gratuita e absoluta, repito.
Além disso, penso que o original do cartaz está exposto no museu onde se encontra o quadro de Lorenzo Lotto.
Sim, e para mim isso é fantástico. Está exposto no museu Villa Coloredo Mels, onde se encontra o quadro de Lorenzo Lotto. Está numa sala, dentro de uma vitrina e separado por um cordão.
Não pode haver melhor publicidade nem maior honra do que partilhar espaço com um clássico renascentista como Lorenzo Lotto.

«Em Espanha a polémica teve muito menos repercussão»
A polémica teve também repercussão em Espanha?
Alguma coisa saiu em León, a minha terra, e foi publicada por mais alguns meios. Também contei o que aconteceu à Fundación Canaria Cine y Cómics e a informação acabou por circular na Internet, em redes como o Facebook.
Mas aqui não teve, nem de longe, a repercussão que teve em Itália.
Achas que a denúncia pode chegar aos tribunais ou ficará por aqui?
Não me lembro exatamente de todos os detalhes, mas não acredito que isto tenha grande futuro. Duvido que um juiz aceite levar o caso a julgamento porque é uma estupidez.
Embora, bom, por mim até gostava que acabasse nos tribunais e houvesse mais confusão, porque isso beneficia-me.
Penso que ficará parado, mas, enfim, incentivo a Justiça a continuar porque ainda nos vai dar mais publicidade.
«A arte deve ser admirada, mas nunca adorada»
Preocupa-te que este tipo de polémicas possa transformar-se numa forma de censura, como aconteceu com El Jueves na sequência da queixa apresentada pela Asociación de Abogados Cristianos?
O que me aconteceu é demente. E repito: estou encantado enquanto as coisas ficarem por aqui, porque este tipo de situações, além disso, não vai levar ninguém para a prisão.
É basicamente publicidade para os artistas. No meu caso, foi completamente inesperada. Há quem procure deliberadamente a provocação, mas eu nem sequer imaginei que isto pudesse acontecer.
Tal como aconteceu com Psicopatías Sexuales, nunca pensei que aquilo que para mim era uma história de humor provocasse tanto alvoroço e que até uma Procuradoria inteira atuasse daquela forma.
Acho que a arte deve ser admirada, mas nunca adorada. Nunca levei a arte a sério e fico espantado quando alguém o faz.
Compreendo que possa haver pessoas que se sintam ofendidas, embora tenha dúvidas de que seja realmente esse o caso. No fundo, a minha impressão é que aproveitaram a situação para criar uma confusão local em Recanati.
Era também essa a opinião dos responsáveis da Arcadia: que se tratava mais de uma questão entre políticos da Câmara, de uma fação contra outra.
Então não se pode falar de censura?
Rio-me porque é uma forma de censura muito pequena quando comparada com uma censura grave, como seria colocar pessoas na prisão ou persegui-las. Isso, sim, não me faria qualquer graça.
Isto é uma estupidez que tem por trás uma coisa horrível: ideologias totalitárias e fanáticas que assustam, de verdade.
A mim é-me indiferente porque isto tinha sido aprovado pela Câmara. Portanto, o problema é deles.
E têm forma de provar que a Câmara tinha dado essa aprovação?
Sim, claro. Isso está no orçamento e em toda a documentação. Além disso, os responsáveis da Arcadia falaram com eles e confirmaram que tinha sido aprovado.
É fácil de demonstrar.
O que pedia exatamente o advogado que apresentou a denúncia?
Que retirassem o cartaz e reconhecessem que ele se tinha sentido profundamente ofendido, que aquilo era um ataque e um vilipêndio da religião.
Mas, para começar, isso nem sequer devia ser considerado crime. Eu defendo claramente a liberdade de expressão, sem qualquer dúvida.
Além disso, no meu caso, não vejo nada de errado no desenho e quase ninguém o viu. Por isso, penso que foi uma questão política. Viram uma oportunidade e pensaram: «Vamos fazer barulho com isto».
«Sou apenas um artista, não tenho responsabilidade social nem simpatias políticas»
Estamos a viver um momento de grande polarização política e social. Achas que isso influencia este tipo de situações?
Sim. Os tempos atuais são assim, e ainda mais em Itália, que também está a viver uma forte polarização.
Agora tudo tem de ser política, tudo tem de estar radicalizado: comigo ou contra mim, jogar sujo para atacar o outro, mentir e tudo isso.
Mas eu não quero saber dessas coisas. Sou apenas um artista. Não tenho responsabilidade social nem simpatias políticas e não quero entrar nesse jogo, porque depois ficas pressionado e perdes a liberdade e a independência para fazer e desenhar.
Faço o que quero. Se as pessoas gostarem, muito bem. Se não gostarem, azar o meu.
«O meu Inferno de Dante não tem nada a ver com as ilustrações clássicas»
Falemos agora do Inferno de Dante. Como nasceu este projeto?
Foi uma encomenda do meu editor italiano, Nicola Pesce, com quem publico todas as histórias há quinze anos ou mais.
A edição é extraordinária. É uma caixa de cartão recortada da qual se retira o livro. Fizeram um trabalho impressionante. É uma edição de grande qualidade e muito bonita.
Gostaste de trabalhar neste projeto? Parece feito à tua medida.
Sim, imenso.
Ilustrei-o num registo muito diferente do habitual e, concretamente, muito diferente daquilo que costuma ser feito com Dante.
Toda a gente tem na cabeça as típicas ilustrações de Doré. Reconheço que é um excelente desenhador, mas não gosto dele como ilustrador porque acho que são coisas diferentes.
Ao ler O Inferno, percebi que aquilo que Doré tinha feito não tinha nada de infernal. Então tomei como referência os filmes de zombies de Lucio Fulci, que são dos mais repugnantes, até mais do que os de George Romero.
E pensei imediatamente: isto, sim, é infernal.
Peguei nas personagens, que são os condenados que estão no inferno, e tratei-as quase como zombies dos filmes de Fulci.
Há ainda outra coisa diferente em relação ao que toda a gente fazia: colocar Dante e Virgílio como narradores. Eu preferi eliminá-los e não aparecem em nenhuma das ilustrações.
Assim, dei preferência, por um lado, aos demónios e, por outro, aos condenados.
Dante faz descrições horríveis dos seus sofrimentos, de como são queimados, de como se comem uns aos outros, das posições em que se encontram…
E pensei: «Porra, isto é muito Lucio Fulci!»
Por isso, ilustrei um inferno muito ao estilo deste realizador e também ao meu, que não tem grande coisa a ver com as ilustrações clássicas que foram feitas até agora.
Quanto tempo demorou o trabalho?
Eram 34 ilustrações, uma para cada lado. Não demorou muito. Um mês, mês e meio, dois meses no máximo.
A Divina Comédia é composta por três partes. Pensas ilustrar também as outras duas, O Purgatório e O Paraíso?
Para já, não.
São três partes, mas eu fiz apenas O Inferno, que é a que mais se adapta ao meu estilo e ao tipo de banda desenhada que faço.
Não sei se no futuro farei as outras duas.
O livro já está a ser apresentado em Itália?
Sim. Foi apresentado oficialmente na Comic Con de Nápoles, em maio, e agora está a percorrer toda a Itália.
Provavelmente faremos mais algumas apresentações. Já fiz uma em Pisa e depois outra em Recanati.
Talvez haja outra em Fornia, perto de Nápoles, em novembro, e pode ser que também em Milão.
Tenho um pequeno calendário para ir andando de um lado para o outro.
«Tenho uma novela gráfica chamada El mago tóxico»
Que outros projetos tens atualmente em mãos?
Agora estou dependente destas digressões das exposições.
Neste momento, estou a fazer um desenho para um colecionador privado que quer homenagear Ken Russell, um realizador de cinema que estava bastante esquecido e de quem sou grande fã. A pessoa que me fez a encomenda também é fã.
Ao que parece, estão a tentar recuperar e reivindicar a importância da sua figura, agora que se tornou uma personagem de culto.
Tenho também pendente uma novela gráfica que escrevo há dois anos e na qual ainda não peguei, por preguiça e porque tive outras coisas para fazer. Chama-se El mago tóxico.
Acabei também de fazer uma capa para um disco de um artista finlandês de música noise chamado Mask Head. O álbum chama-se Strange Attractions e foi publicado por uma editora alemã.
Além disso, fiz vários trabalhos de ilustração, incluindo capas para livros e livros de poesia de Luis Alberto de Cuenca.
Entrevista conduzida por Noé Ramón e gentilmente cedida pela Fundación Cine+Cómics.
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Co-criador e administrador do Central Comics desde 2001. É também legendador e paginador de banda desenhada, e ocasionalmente argumentista.
