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MOTELX 2021: Entrevista com Pedro Souto e João Monteiro

O MOTELX – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa é um festival que desde 2007 trouxe ao Cinema São Jorge uma programação assustadora, criando uma espécie de culto de visitantes que ano após ano, têm anualmente um lugar para ver as mais recentes novidades, ou (re)visitarem clássicos que de outra forma não veriam no grande ecrã.

Celebrando a sua 15ª edição, estivemos à conversa com Pedro Souto e João Monteiro sobre as novidades deste ano.

Como vêem a evolução do festival?

João Monteiro (J.M.): Acho que vemos de forma natural, ou seja, o objectivo foi sempre fazer coisas diferentes, coisas novas, mas dentro daquele conceito dos cinco dias no mesmo espaço físico que é o Cinema São Jorge. Há um lado bastante surpreendente, nomeadamente a nível de convidados, tendo conseguido trazer algumas pessoas e fazer um bocadinho jus ao nossos objectivos quando começamos o festival.

Agora, o cinema de género, particularmente o cinema de terror, é uma coisa mesmo de amor. Existem pessoas que são muito fãs e que gostam do género de uma forma diferente, acho que esse espírito.
Acho que isso fez com que a festival esteja a correr tão bem, e que da nossa parte, a coisa que melhor fizemos não termos entrado numa espécie de megalomania em querermos estar em vários sítios, que poderia matar um pouco o espírito do festival.

Creio que tenha sido bom termos ficado sempre no Cinema São Jorge. É um cenário incrível, que tem sido com o sucesso do festival. É um espaço onde as pessoas podem estar e a viver o cinema.

Pedro Souto (P.S.): Como provavelmente todas as primeiras edições de qualquer evento, foi uma grande aventura e um grande desafio, porque tivemos que organizar em menos meses do que talvez era o ideal, devido às confirmações da disponibilidade do Cinema São Jorge e outros afins; como também da nossa inexperiência, e a nossa disponibilidade, porque tínhamos outras actividades profissionais ao mesmo tempo.

Mas penso que quisemos fazer logo um statement na primeira edição, e a escolha do Masters of Horror, com a exibição das duas temporadas, foi realmente o assinalar dessa reunião de mestres, e convidar o criador da série, o Mick Garris, que veio ao festival e foi o primeiro convidado de honra.

Todas as escolhas que fizemos para nós foram naturais. Por exemplo, a nossa sessão de abertura em 2007 foi um documentário, The American Nightmare, sobre o cinema de terror dos anos 60 e 70. Logo aí quisemos mostrar que tínhamos este reconhecimento e esta paixão pelos mestres, mas também ir mais além, com o documentário a contextualizar o que permanente tentamos fazer, seja com os documentários, ou através de retrospectivas e alguns filmes que tendem sair fora da definição tradicional do terror.

Acho que desde inicio quisemos desafiar o público e a partir daí foi de edição a edição, até conseguirmos, passados uns anos, perceber que o público continuava a aumentar, continuava interessado, e que também conseguíamos trazer vários parceiros, não apenas a nível de conteúdos, como também parceiros publicitários. A partir daí a evolução começa a ser mais estável, mas os desafios são permanentes.

Quais são os vossos destaques na programação?

P.S.: Nós para já temos anunciado algumas coisas, um deles é o filme de abertura, A Lenda do Cavaleiro Verde, de David Lowrey, que é o mesmo realizador de História de Um Fantasma, e que tem tido muitas críticas impressionantes. Para nós é um grande marco conseguirmos anunciar este filme para a sessão de abertura.

Outro filme anunciado é Um Fio de Baba Escarlate, de Carlos Conceição, sobre um assassino influencer. É uma nova interpretação do giallo italiano, e marca a presença de longas Portuguesas, que nos últimos anos têm acontecido e era um dos objectivos do festival. Não só temos as curtas portuguesas, essa competição que está em grande forma, mas conseguimos também disponibilizar o festival e incentivar também a presença cada vez maior de longas nacionais.

Anunciamos também alguns documentários, nomeadamente A Glitch In The Matrix de Rodney Ascher, que realizou o Room 237 sobre o The Shining, que passámos em 2013. Foi um filme que nos surpreendeu com um discurso de Phillip K. Dick, sobre precisamente a ideia de viver numa simulação e que poderíamos fazer parte de um jogo de computador, jogado por outra entidade. Parece found-footage, porque ele revela uma série de ideias muito concretas sobre este assunto e claro, o documentário anda à volta disso com vários depoimentos.

Destaco também The Amusement Park, de George A. Romero, que foi um institucional que na altura foi recusado. O George A. Romero não se conseguiu conter e fez uma espécie de pesadelo sobre a terceira idade, que é bastante eficaz na mensagem, mas que na altura não conseguiu ter a exposição devida, tendo ficado meio perdido e que agora temos o prazer de exibir nesta edição.

J.M.: Nós fizemos uma coisa no ano passado, naquele processo da incerteza da pandemia, e acabámos por fazer um ciclo chamado Pesadelo Americano, em torno do racismo e este ano surgiu esta ideia de abordar outro tema, que tem a ver com a mudança do paradigma que está a acontecer no cinema de terror, nomeadamente com a questão da representação dentro do género. Alguns filmes que seleccionamos este ano como o Black Medusa e o Violation, são filmes que já nem sequer fazem estreias mundiais em festivais de género.

Neste momento, este tipo de filmes voltou a ter uma relevância que já não tinha há muito tempo e por isso, começam a aparecer noutros festivais e acho que este último festival de Cannes é um exemplo dessa mudança de paradigma. Nisto, fomos à procura de filmes de serial killers mulheres, que ficámos a pensar um pouco quantos filmes já vimos e quantos existem. Não existem quase nenhuns e os poucos que existem, o mais antigo é de 2000, que é o francês Baise-Moi. por isso achamos interessante mostrar estes filmes e lançar uma discussão em torno do tema.

Acho que este ciclo é actual, o momento certo para repensar nisto, numa altura em que há uma viragem, não só a nível de produção, de realização e da própria escrita destes filmes.

Este ano, também sendo os 60 anos do inicio da Guerra Colonial, decidimos exibir dois filmes que nunca tínhamos antes a oportunidade de mostrar, não havendo um contexto lógico até agora para o fazer, que é o Inferno e o 20,30 Purgatório de Joaquim Leitão, produzidos pelo Tino Narvarro. São filmes surpreendentes, que para além de terem este pano de fundo da Guerra Colonial, são também de multi-géneros, onde podemos encontrar terror, thriller, acção. São também dois dos filmes mais ambiciosos em relação a tudo que já foi feito, porque geralmente em torno deste assunto, normalmente são filmes que têm uma personagem que teve na guerra e a tentativa dele de se reinserir na sociedade.

Neste caso é diferente, estes filmes são autênticos western spaghetti. O 20,13 Purgatório faz-me lembrar de algumas coisas de John Carpenter e de Rio Bravo, por isso é uma coisa única. No fundo, isto é uma tentativa de fazer aquilo que se fez na altura do Vietnam, ainda que sendo realidades completamente diferentes.

Fala-se que existem muitos filmes do Vietnam, mas não são assim tantos. Há os clássicos que foram feitos mais ou menos na mesma altura, mas filmes de terror no Vietnam não existem praticamente. Existem muitos sobre a Segunda Guerra Mundial, sobre os conflitos do Iraque, mas é notável que este é um conflito traumatizante para os Americanos e por isso que recuperámos o Jacob’s Ladder, que creio que seja o único que chegou a um estatuto de culto e influente, para fazer essa ponte entre a tentativa portuguesa e a tentativa americana.

P.S.: O que é também interessante, é que muitos dos mestres e pessoas dos efeitos especiais, como Tom Savinni, e dessa geração, o Vietnam acabou por ter neles um impacto obviamente de trauma vindos dessa experiência de guerra.

No caso deles foi transformada em filmes de terror, por isso foi uma maneira de quase de catarse que eles descrevem. De repente tens uma guerra, uma coisa horrível, que acaba por ser transformada criativamente e que é capaz de gerar uma série de movimentos; nomeadamente todos esses filmes dos anos 70, que se tornaram grandes clássicos do género e que impulsionaram o terror no contemporâneo. Acho que o terror tem esse efeito transformador.

A intenção de exibir os filmes é criar interesse na conclusão da trilogia?

J.M.: Eu gostava muito de ver a conclusão, e que efectivamente existisse uma trilogia sobre o Ultramar. Inicialmente, o objectivo era separar estes dois filmes, do contexto da obra total, e tentar mostrá-los nas suas duas partes. São filmes que apesar de tudo, não foram grandes sucessos de bilheteira e acho que tem a ver com o tema, do que a qualidade dos filmes, obviamente.

P.S.: Para responder a essa pergunta, vamos ter o local ideal para o fazer, com a presença de Joaquim Leitão que estará presente durante o festival e sim, acho que a temos que fazer.

J.M.: Deve ser um filme parecido, todo passado num dia ou numa noite, com muitas personagens e muitos géneros em cima. A ideia é muito engraçada, fazer o Inferno o pós-guerra, o Paraíso é o antes, é um high concept.

Se alguém que nunca viu um filme de terror vos pedisse algumas recomendações, quais seriam os filmes obrigatórios?

J.M.: Eu diria o Alien – O 8º Passageiro, porque acho que o filme é uma espécie de pouporri do terror. Tem lá de tudo, a parte mitológica, a parte primordial, todos os sub-géneros imaginários estão presentes naquele filme. É um slasher, uma casa assombranda… Seria uma boa introdução ao género.

P.S.: Eu sugeria O Tubarão. Pelas mais diversas razões. É considerado um dos filmes fundadores do conceito de blockbuster de verão. É um filme do Spielberg, por isso representa um daqueles momentos na carreira de alguns cineastas de renome que fizeram filmes de terror e por vezes ficam esquecidos na categoria, não esquecidos enquanto filme, mas como terror. Acho que isso ajuda muito as pessoas a fazerem o clique para as pessoas que o terror, para quem tem algum preconceito, não é um género menor. E tem aquele espírito do verão, os efeitos especiais não digitais, que dão prazer de o ver.

J.M.: Rosemary’s Baby. Acho que mais actual que esse filme é impossível, apesar de ser sido feito por quem foi (Roman Polanski), essa é a parte irónica.

E português?

J.M.: Talvez sugira O Convento, de Manoel de Oliveira… É alternativo o suficiente para mostrar vários tipos de linguagem, que o terror está sempre presente na mentes de todos os grandes cineastas. Mesmo que não sejam filmes desse género, há sempre referências simples visuais, ainda que não sejam óbvias. A secção do Quarto Perdido dá para perceber que todos eles, desde do Oliveira até aos do Cinema Novo, estes têm referências ao cinema fantástico e ao cinema de terror. Até o César Monteiro, entre outros.

P.S.: Salvo erro, foi em 2009, exibíamos um filme chamado Pontypool, de Bruce McDonalds, e passa-se todo dentro de uma estação de rádio, e é um virus através da linguagem, portanto as leituras que se pode fazer nos dias de hoje com este filme são inúmeras. Não só pelo virus em si, que estamos a viver no presente, mas também pela questão da linguagem e todos os significados das palavras e das mudanças que estão a acontecer na sociedade. É um filme um bocado esquecido, mas é incrível.

J.M.: Eu juntava Os Pássaros ao teu Tubarão (risos)

O MOTELX – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa decorre no Cinema São Jorge de 7 a 13 de Setembro no Cinema São Jorge. Os bilhetes já estão à venda nos locais habituais.

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