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Doutor Estranho: O Filme Que Nunca Vimos

Por ocasião dos 40 anos de Regresso ao Futuro, recordamos o projeto perdido de Bob Gale — o guionista que quase levou o Mago Supremo da Marvel ao cinema… três décadas antes da Marvel Studios.

Em 1985, Regresso ao Futuro estreava e tornava-se um fenómeno global.
Robert Zemeckis realizava, Michael J. Fox tornava-se ícone, e Bob Gale — co-criador e argumentista — consolidava o seu nome na história de Hollywood. O que poucos sabem é que, logo após esse sucesso, Gale embarcou noutra viagem no tempo e no espaço — uma que nunca chegou a acontecer: Doctor Strange, a primeira tentativa séria de adaptar o Mago Supremo da Marvel ao grande ecrã.

Regresso ao Futuro
Regresso ao Futuro

Ao longo da segunda metade do século XX, foi a DC Comics quem conquistou maior êxito nas suas adaptações cinematográficas, sobretudo graças ao Superman de Richard Donner e ao Batman de Tim Burton. Mesmo os filmes posteriores de Joel Schumacher — apesar de amplamente criticados — conseguiram resultados comerciais satisfatórios.

Filmagens de “Superman: O Filme”

Era 1986. Antes de Batman redefinir o cinema de super-heróis, a Marvel era ainda um império de papel, sem força de produção em Hollywood. A editora enfrentava grandes dificuldades em encontrar a fórmula certa, acumulando fracassos como Howard e o Destino do Mundo (1986) e Fúria Silenciosa (1989), além de várias produções televisivas de baixo orçamento, como Dr. Strange (1978) e Capitão America (1979), que não tiveram sucesso crítico nem financeiro. Nesse mesmo ano, a New World Pictures — o estúdio de Roger Corman — adquiriu a Marvel Entertainment e tentou lançar um universo cinematográfico partilhado, décadas antes de o conceito se tornar tendência, planeando filmes sobre Ant-Man, Deathlok, Namor e Wolverine, este último com a intenção de culminar na introdução dos X-Men. Entre esses projetos ambiciosos destacava-se também um filme de Doctor Strange. Bob Gale foi o escolhido para escrever o guião.

Bob Gale, co-criador e argumentista de “Regresso ao Futuro”

Fã confesso da Marvel desde o liceu, Bob Gale viu no convite uma oportunidade de ouro: “O meu agente disse-me que Stan Lee estava envolvido. Respondi: ‘Vou poder trabalhar com o Stan Lee? Então é já!’”, recordou Gale numa entrevista de 2020.

O encontro com Lee — “um herói da minha juventude”, como descreveu — foi, segundo Gale, tudo o que poderia desejar: “Às vezes conheces os teus ídolos e ficas desiludido. Não foi o caso. Ele era incansável, cheio de ideias e alegria.”

Doctor Strange 1986
Cartaz conceptual do filme de 1986

O guião, datado de 21 de janeiro de 1986, é um documento fascinante — um E Se cinematográfico que poderia ter mudado a história da Marvel.
Com 110 páginas, o texto recontava a origem clássica de Stephen Strange, mas com uma roupagem tipicamente 80’s: Maseratis, yuppies e filosofia new age. Dormammu e o Barão Mordo eram as forças do mal, e o objeto místico Skulkane — uma espécie de “Arca da Aliança mística” — servia de McGuffin.

Gale abriu o filme com um prólogo épico, quase mitológico, onde o Antigo — aqui chamado Tiro — enfrenta uma seita ancestral que tenta libertar Dormammu. O tom era mais Indiana Jones do que Star Wars, mas a ambição era clara: um espetáculo de magia e efeitos visuais que a tecnologia (e o orçamento) de 1986 simplesmente não permitiam.

O escritor descreveu o protagonista como “um cirurgião de 40 anos, arrogante, com cabelo negro e bigode à Errol Flynn” — um perfil que poderia ter servido a atores como Harrison Ford, Tom Selleck ou até Pierce Brosnan ou Sam Neill.

Doutor Estranho no Multiverso da Loucura

Entre as páginas mais notáveis, encontra-se uma fala do Ancião que sintetiza o tom do guião:

“A magia é apenas uma palavra para o que ainda não conseguimos explicar.
Um aborígene chama-lhe magia; tu chamas-lhe rádio.
Pões um botão e há luz. Magia… ou eletricidade?
Engoles um comprimido e a dor desaparece. Magia… ou medicina?”

Era o toque de Bob Gale: um argumento que tentava racionalizar o sobrenatural com lógica científica — muito antes da Marvel Studios tornar essa abordagem uma assinatura do UCM.

O terceiro ato, no entanto, era uma montanha-russa de ação e efeitos especiais. Mordo rouba o corpo de Strange, forçando o herói a persegui-lo em forma astral pelas ruas de Nova Iorque — uma sequência que, se filmada, teria sido um prodígio técnico para a época. O confronto final trazia Dormammu à Terra, numa explosão de fogo e trovões: “Fogo arde onde os seus pés tocam o chão”, descreve Gale no guião.

Mas o destino do projeto foi selado por uma palavra fatal: orçamento.
A New World Pictures, especializada em séries B, não tinha meios para construir um multiverso. O filme foi arquivado — e o feitiço desfeito.

Doutor Estranho no Multiverso da Loucura

Curiosamente, Gale reconheceu anos mais tarde que algumas ideias suas acabaram por ressurgir no filme de Scott Derrickson (Doutor Estranho, 2016):

“As cores associadas a diferentes poderes — isso estava no meu guião”, contou.

O resto ficou no limbo dos projetos que quase aconteceram — um multiverso paralelo onde o Doutor Estranho poderia ter sido o primeiro herói místico do cinema, muito antes de Benedict Cumberbatch vestir a capa.

Stan Lee

A New World acabou por vender a Marvel, deixando os direitos cinematográficos de Doctor Strange disponíveis para novas tentativas

A partir de 1989, o manto do projeto passou para Alex Cox, o irreverente realizador britânico de Repo Man e Sid & Nancy, que escreveu um novo guião ao lado do próprio Stan Lee.
Essa versão começava em Stonehenge, passava por Nova Iorque em 1999 e terminava… na Ilha da Páscoa, onde Stan sempre quis colocar o duelo final. “Provavelmente demasiado pagão para ser feito hoje”, diria Cox no seu site.

Depois vieram Wes Craven, David S. Goyer, Guillermo del Toro e até Neil Gaiman, todos tentando adaptar o Mago Supremo — sempre sem sucesso. Só em 2016, com o UCM consolidado, é que o feitiço se cumpriu.
A história do Doctor Strange de Bob Gale é, hoje, uma relíquia cinematográfica: um guião completo, lido mas nunca filmado, que mostra como Hollywood dos anos 80 ainda não estava pronta para o lado místico da Marvel.

Regresso ao Futuro
Regresso ao Futuro

Quarenta anos depois de Regresso ao Futuro, é quase poético: o homem que nos ensinou a viajar no tempo escreveu também o primeiro grande portal para o multiverso — mas ficou preso no passado.

“É um daqueles filmes que, algures neste vasto multiverso, deve existir.
Só não neste.” — Bob Gale

Ricardo Lopes

Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

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