A Múmia de Lee Cronin, uma reinterpretação contemporânea
Um bom filme de terror é habitualmente descrito como algo mais do que um conjunto de sustos fáceis. Trata-se da gestão hábil de uma tensão prolongada digna de nos absorver, através de atmosferas fechadas e desconfortantes, dramas inquietantes alicerçados na força da tragédia, mistérios densos e personagens únicas e complexas, emocionalmente fragilizadas, que alimentam o suspense que atraí habitualmente os amantes do género. Juntando-se a essas características algo aparentemente insano ou de carácter sobrenatural, onde ninguém está imune à violência desmedida e incompreendida, que se impõe como uma maldição, o nível de horror resultante carateriza um filme digno desse reconhecimento. «A Múmia» ou «The Mummy» de Lee Cronin, é um desses casos.
«A Múmia» reinterpreta uma maldição contida numa múmia com milhares de anos proveniente do Egipto e pode ser descrito como um terror sufocante. O filme é dotado de uma mitologia minimalista, ainda que densa e crua, em que o desaparecimento (rapto) de uma criança no Cairo conduz a uma série de eventos chocantes para a sua própria família quando é reencontrada oito anos depois. Acontece que a filha do casal Charlie Cannon (Jack Reynor) e Larissa (Laia Costa) regressa na condição de uma pessoa debilitada que passou muito tempo dentro de um sarcófago, coberta de fitas de linho e papiros com inscrições milenares quase fundidos com a sua pele, que visam suster a maldição que retém no seu corpo. Longe de saberem que a sua menina (Katie Cannon, interpretada sucessivamente pelas actrizes Emilly Mitchel e Natalie Grace) serve agora de recetáculo a um demónio conhecido no Antigo Egito como «o Nasmaraniano», o casal precipita-se e leva-a para casa para tentar cuidar dela, expondo os outros membros da família a influências tenebrosas, ataques violentos e possessões.
Através de uma série de eventos perturbadores que recordam o filme «O Exorcista» (de 1973, realizado por Willian Friedkin, baseando-se na obra de William Peter Blatty) Katie torna-se um perigo difícil de ser contido, ameaçando não só a vida dos membros da família como pré-anunciando um possível cataclismo que visa destruir tudo e todos. O horror corporal e a degradação física de Katie, que recorda um zombie, expressa o potencial simbólico contido na múmia como se esta servisse potencialmente de um esqueleto no armário para a sua família: É algo reprimido, que não está inteiramente morto, que subitamente regressa, forçando-os a um confronto com um luto suspenso para o qual ninguém está preparado para lidar. O pesadelo de «A Múmia» reflete o desconforto no seio doméstico, desconcertando-nos através de algo aterrador e exótico (estranho) invadir o nosso próprio espaço e comprometer a nossa privacidade. Com este mal antigo a deambular dentro das paredes ninguém está a salvo.
O realizador de Evil Dead Rise (2023) explora não só fórmulas que podem ser reconhecidas como reinterpreta o valor da maldição sob a forma de possessão que não tem de obedecer a extensas descrições de mitologia e folclore. Ainda que «A Múmia» não seja propriamente um filme sobre o Antigo Egito, o valor do mistério e do misticismo da Antiguidade não deixam de estar presentes. As práticas de magia sustêm um aviso: No fundo, é sempre bom sabermos com o que estamos, de facto, a lidar. Estreado a 16 de Abril deste ano, o filme não dececionará os amantes do género que ainda pretendem visualizá-lo.
Além dos actores Emilly Mitchel e Natalie Grace (Katie Cannon), Jack Reynor (Charlie Cannon) e Laia Costa (Larissa) o elenco conta com May Calamawy (detetive Dalia Zaki), Shylo Molina e Dean Allen Williams (Sebastián “Seb” Cannon, o irmão de Katie), Verónica Falcón (Carmen Santiago, mãe de Larissa e avó de Katie), May Elghety (Layla) e Aisha Laouini (Layla em criança), Mark Mitchinson (professor Bixler), Hayat Kamille (praticante de magia e raptora de Katie) e Billie Roy (Maud Cannon, a irmã mais nova de Katie).

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural




