Cinema: Crítica – Camp, de Avalon Fast
A cineasta canadiana Avalon Fast apresenta-nos Camp, um coming-of-age essencial, numa obra catártica, repleta de magia moderna e uma narrativa fascinante.
É frequente, em festivais, acabar por escolher filmes de uma determinada secção, sabendo de antemão que o género de filme será, no mínimo, adjacente àquele que mais interesse me desperta, e acabar por ir ver os filmes sem saber ao que vou, indo na fé. Por vezes, o tiro sai pela culatra, mas a parte gira da fé é que existe sempre a possibilidade de sermos surpreendidos pela positiva. Camp, de Avalon Fast, é uma dessas obras, que passou no IndieLisboa.
Seguimos a história de Emily (Zola Grimmer), uma jovem que carrega sobre os ombros duas tragédias que lhe mudaram a vida para sempre. Numa tentativa de redenção, acaba por se tornar monitora num acampamento cristão, onde estabelece amizades com as restantes monitoras e descobre a bruxaria moderna.
Há filmes de género cuja ambiguidade e sentido de descoberta exercem um fascínio particular sobre um público muito específico. É o caso de A Feiticeira do Amor e I Saw the TV Glow, obras com narrativas de profundidade intrigante e visuais intensos, que nos conduzem numa viagem de revelação não apenas das personagens, mas também de nós próprios, através de um movimento de introspecção.
A cineasta canadiana Avalon Fast mostra-nos um mundo para lá daquele que conhecemos, oferecendo-nos companhia e conforto através de um coming-of-age que aborda, de forma propositadamente casual mas intencional, a diluição das fronteiras entre realidade e sonho. Sem fornecer respostas directas, deixa os espectadores a flutuar numa espécie de limbo sensorial e emocional. É por meio dessa abordagem catártica que vemos Emily tentar encontrar o seu lugar no mundo, lidar com o luto e carregar a sua bagagem emocional, enquanto as novas amizades a aceitam exactamente como ela é.
Camp é um filme movido sobretudo por sentimentos e por um profundo desejo de pertença, no qual Grimmer revela as várias camadas da sua personagem. Emily é uma jovem que procura estabilidade em torno das suas tragédias, sem comprometer tudo aquilo que o mundo ainda lhe poderá oferecer dali em diante. Os conflitos centrais da obra intensificam-se através do contraste entre a moralidade rígida do acampamento cristão e a atracção pelo oculto, criando uma tensão constante entre repressão e libertação.
Estamos perante uma obra fascinante, cujo verdadeiro potencial talvez só seja plenamente reconhecido por uma parte do público, em especial por aqueles que se deixam tocar por este tipo de cinema. É um filme que nos apanha desprevenidos e nos recompensa com uma magia obscura e delicada, permitindo ao espectador sair da sessão com a alma renovada e uma nova perspectiva sobre a forma como lidamos com aquilo que mais nos puxa para baixo. A sua força não reside tanto em respostas fechadas ou em explicações lineares, mas sim na capacidade de gerar sensações, de abrir espaço à interpretação e de transformar a dor numa experiência estética e emocionalmente partilhada.
Nota Final: 7/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.




