Cinema: Crítica – Se Esta Rua Falasse (2019)

Vencedor do Óscar de Melhor Atriz Secundária de 2019 (Regina King) e realizado por Barry Jenkins (Moonlight), chega-nos o filme “Se Esta Rua Falasse”. Já nos cinemas.

[Crítica de Jonas Canelo]

Se Esta Rua Falasse (If Beale Street Could Talk) de Barry Jenkins (realizador de Moonlight  – vencedor do óscar de melhor filme em 2016) – chegou às salas portuguesas dia 21 de fevereiro. Às vezes a tradução dos títulos para Português, dão um bom tema para iniciar uma reflexão crítica. Existe uma ambiguidade de interpretação que é perdida na tradução.

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O filme não assenta apenas sobre a premissa da quantidade de histórias que Beale Street (cidade natal de Louis Armstrong) guarda em cada uma das suas portas, os seus segredos e tudo aquilo que ficou por contar. Tudo é verdade, mas não só. O título inglês oferece a tal ambiguidade que se perde na tradução com a palavra “could. If Beale Street Could Talk, assenta também na inabilidade de falar, na mudez forçada pelo preconceito racial que ainda hoje se sente, principalmente, nos EUA (o filme retrata os anos 70). A palavra “could” remete para o poder, para a liberdade de falar, aquela que é negada a um dos protagonistas – Fonny (Stephan James, Selma (2014)) – e que todo o resto do elenco luta para conquistar.

Barry Jenkins apresenta um tema que já não é novo para si nem para a academia, principalmente este ano em que podemos fazer um paralelo com outros filmes como Black Panther (Ryan Coogler, 2018), BlacKkKlansman (Spike Lee, 2018) e Green Book (Peter Farrely, 2018). É um pouco difícil por esta altura passar ao lado dos óscares. Depois de movimentos como #MeToo, polémicas relacionadas com o teor das nomeações por Will Smith e outras relacionadas com a própria apresentação da cerimónia. A sua posição, claramente política, causa controvérsia, põe-se em questão o próprio altruísmo da academia. Hipocrisias e populismos à parte, o tema é algo que surge, infelizmente, como fresco e atual principalmente num país, num mundo, onde se nota cada vez mais o extremismo e a luta por novos ideais.

Para este filme, o realizador inspirou-se no romance de James Baldwin como o mesmo nome. Retrata a vida de um jovem casal, o já referido Fonny e Tish (Kiki Layne, Veracity (2015)), em que ele é preso por violação ao mesmo tempo que se descobre que ela está grávida do seu filho. Entra aqui todo o mote com o qual comecei esta crítica. O filme não se centra propriamente na busca pela verdade, mas mais na tentativa de serem ouvidos, de Fonny, pelo menos, ser julgado. É um filme relativamente longo que se estende ainda mais pelo seu compasso lento. Este ritmo é tão ambíguo como o título: por um lado dá um peso literário desnecessário ao filme, por outro, mantém o espectador tanto tempo na expectativa que começamos a ter pena do protagonista. Esperamos pacientemente por um desenrolar que nunca vem, somos puxados para um vazio existencial, um desconforto, uma frustração apontada para a nossa estrutura social.

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Devo dar maior louvor à obra literária do que ao filme em si, porque se não fosse pelo tema ali exposto, o filme não conseguia aquilo que conseguiu – três nomeações para os óscares. Os temas para os quais foi nomeado são os pontos altos do filme. A banda sonora original por Nicholas Britell que acompanha magnificamente toda a narrativa, a própria adaptação do romance (maiores créditos para Baldwin do que para Jenkins) e a representação secundária em que foi nomeada para o óscar Regina King (que tem tido um maior protagonismo em séries como The Big Bang Theory (desde 2007)).

Regina King – Vencedora do óscar de Melhor Atriz Secundária 2019

É sobre este último tema que gostaria de me debruçar. É raro ver um filme em que a representação dos actores secundários supera a dos protagonistas, mas este filme é um exemplo perfeito. Sharon Rivers (Regina King) e Mr.Rivers (Colman Domingo), os pais de Tish, são as personagens que mais se destacam a nível da representação, sem esquecer também a pontual (mas poderosa) aparição de Daniel (Brian Tyree Henry).

A cinematografia vem apenas apoiar o meu argumento de que o filme tem uma carga demasiado literária e uma mise-en-scène bastante débil com uma realização/encenação quase teatral. Nota-se tudo isto principalmente na cena que Tish dá a notícia que está gravida.

No entanto, podemos também realçar cenas positivas como aquela em que Tish perde a sua virgindade para Fonny, a composição musical de Britell com o ambiente de chuva e chiaroscuro criado para aquele momento, que formam uma unidade bastante positiva.

Em relação a todo o resto, este é um filme que se pode considerar mediano, que não chega aos calcanhares de Moonlight e que vai passar tão despercebido na entrega dos prémios como passou nas nomeações. Um filme que, a título pessoal, me deixou com vontade de ler o romance no qual é inspirado, mas sem vontade de o rever.

  • Se Esta Rua Falasse estreou a 21 de fevereiro nos cinemas

Classificação: 2/5

Jonas Canelo

Tiago Ferreira

Estudante de Cinema e Teatro, Crítico de Cinema, Fotógrafo novato e Cosplayer.

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