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Crítica: A Protegida (2021)

Em A Protegida, os protagonistas assumem-se como mestres na arte de localizar coisas (e pessoas) que não desejam ser encontradas. Será que a equipa criativa teve a mesma capacidade para descobrir o paradeiro de um bom filme?

Realizado por Martin Campbell (Casino Royale, O Estrangeiro) e escrito por Richard Wenk (Jack Reacher: Nunca Voltes Atrás, The Equalizer – Sem Misericórdia), A Protegida perfila-se como um típico thriller de ação no culminar de mais um atípico verão: Anna (Maggie Q) é uma assassina profissional, resgatada em criança, educada e protegida pelo assassino Moody (Samuel L. Jackson).

Quando não se dedica à procura de pessoas que preferem permanecer escondidas, Anna passa os seus dias a colecionar exemplares de livros raros para a sua livraria de sonho em Londres. Na sequência de uma aparentemente rotineira tentativa de localização de uma pessoa misteriosa, Moody é assassinado, lançando Anna numa incansável busca por respostas… e por vingança. Neste seu caminho, que a levará de volta ao país onde nasceu (Vietname), cruzar-se-á diversas vezes com o enigmático Michael Rembrandt (Michael Keaton) num jogo, por vezes ambíguo, de constante procura e fuga. 

Mesmo incluindo estes momentos de alguma ambiguidade na relação entre Michael e Anna, o enredo de A Protegida é simples, linear, previsível, se bem que eficaz, nunca se desviando muito de uma fórmula em tudo familiar para os fãs do género. Ocasionalmente, o argumento parece aludir a aspetos mais profundos, quer da realidade interna das personagens, quer da realidade em que vivemos. A título de exemplo, a dualidade nas profissões de Anna é evidente, subentendendo-se no início do filme uma espécie de conflito interno (afinal, Anna é uma assassina que usa as suas habilidades para concretizar o sonho de ter uma livraria recheada de raridades).

Num outro exemplo, apesar de Moody ser apresentado como uma personagem simpática, no clássico papel de mentor da protagonista, há várias decisões e atitudes que são profundamente questionáveis. No que diz respeito a temáticas da contemporaneidade, a ingerência ocidental na política e economia de outros países é um tema que tem vindo a ser discutido com particular ênfase nas últimas semanas (em virtude dos desenvolvimentos no Afeganistão) e A Protegida referencia esta realidade (no contexto vietnamita) em dois ou três momentos. 

Contudo, talvez infelizmente, nunca há um desenvolvimento real destas temáticas, que se ficam por meras menções passageiras. A procura de Anna por respostas não coincide com uma procura do filme por mais substância. Samuel L. Jackson, Michael Keaton e, particularmente, Maggie Q têm prestações extremamente competentes, fazendo o melhor trabalho possível com um argumento que não é em momento algum particularmente rico (nem particularmente pobre, sublinhe-se), elevando a fasquia das várias cenas e, por arrasto, do filme.  

A realização de Martin Campbell e a edição de Angela M. Catanzaro (que colaborou com o realizador no seu filme anterior, O Estrangeiro) são também elas muito sólidas e especialmente dignas de destaque na concretização das várias sequências de ação: ao longo dos 108 minutos de filme, todas as cenas mais intensas são legíveis e bem dirigidas, nunca havendo uma sensação de caos visual bastante frequente noutros filmes do género. 

A equipa criativa pode não ter encontrado neste projeto um novo clássico dos filmes thriller de ação, mas não se revela perdida ou sem rumo. A Protegida é um filme competente, tecnicamente sólido, narrativamente eficaz e que joga sempre pelo seguro. Para ser mais do que isso faltava-lhe arriscar mais e ser mais ousado. Ou, numa analogia conclusiva apropriada à altura do ano: A Protegida precisava de mergulhar de cabeça… mas acaba por ir à água só para molhar os tornozelos.  

Nota final: 6/10 

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