Crime 101 (2026) – Crime na autoestrada
Crime 101 segue todos os batimentos do filme de assalto contemporâneo, mas raramente encontra forma de lhes conceder verdadeiro peso dramático. Bart Layton adapta a novela de Don Winslow com o aparato vistoso de Los Angeles, filmada como cenário de luxo, crime e desgaste moral, sem se desmarcar, no entanto, de mecanismos demasiado familiares. A tecnologia de bolso surge com uma intuição demasiado conveniente, os incidentes parecem muitas vezes existir apenas para conduzir a ação até ao ponto seguinte e, quando chega a altura de encerrar linhas narrativas, o filme refugia-se em soluções fáceis. Em vez de acumular tensão, prefere alongar cenas para lhes dar uma aparência de importância, perdendo-se, por isso, em tempo morto.
No centro de tudo, Chris Hemsworth interpreta Mike, um assaltante meticuloso que opera segundo regras rígidas e tenta manter-se fora do alcance do detetive Lubesnik. Ao atravessar o filme com uma rigidez quase inerte, como se representasse a ideia de um protagonista sem conseguir habitá-la por inteiro, nota-se um desperdício particular, já que o guião também não confere a Hemsworth grande margem para explorar a fisicalidade, um dos seus atributos mais naturais. Sem essa dimensão, e sem um verdadeiro trabalho de carisma ou ambiguidade interior que a substitua, o seu Mike fica reduzido a uma postura calculada, mas pouco atrativa. O australiano já mostrou, noutras circunstâncias, que pode brilhar quando trabalha num registo com maior elasticidade. Porém, aqui fica a impressão de um casting pensado para o cartaz e pouco mais.

Mark Ruffalo, como contraponto, ainda se esforça por dar relevo ao detetive, e há momentos em que se percebem pormenores mais humanos na sua composição, mas a história insiste em sujeitá-lo a traços já vistos, mesmo dentro da própria filmografia do ator. Halle Berry, por sua vez, encontra-se presa a uma figura cuja relação com o envelhecimento e a perda de relevância profissional é abordada superficialmente, o que, para uma presença como a sua, sabe a pouco. Barry Keoghan, Monica Barbaro e Nick Nolte também integram o elenco secundário, embora essa acumulação de nomes sirva sobretudo como catálogo. Veja-se, por exemplo, a figura estilizada de Ormon, o ladrão mais jovem e instável interpretado por Keoghan, que parece anteceder qualquer verdadeiro trabalho de construção dramática.
Quanto ao comentário social, chega igualmente gasto antes de começar. Corrupção policial, ricos poderosos, ambiguidade moral: tudo entra no filme como matéria obrigatória, não como observação realmente pensada. Layton já falou publicamente de personagens em crise e de um sistema em que quase todos têm interesse em alguém ou em alguma coisa, mas essa camada, no ecrã, tem pouco fôlego e ainda menos subtileza. O mesmo se pode dizer da banda sonora de Blanck Mass, que cumpre exatamente a função esperada, sem surpresa nem particular invenção.

Talvez por isso Crime 101 acabe por soar a um exercício competente à superfície e preguiçoso em quase tudo o resto. Reconhece os trejeitos do género, segue-lhe os passos, mas nunca encontra uma razão forte para existir além. Quando se aproxima do fim, já pouco importa como vai terminar. E esse é, sem dúvida, o sinal mais claro do seu falhanço.
Classificação: 4/10

Fascinado por cinema desde cedo, começou pelas cassetes VHS de casa da avó e acabou a colecionar figuras de clássicos dos anos 80. Hoje, vê cada filme com a mesma curiosidade de então.

