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Cinema: Crítica – Violation (2020)

Os rape-revenge são um sub-género que muito fazem para passar uma mensagem da actualidade: as mulheres são violentadas numa base diária. É um assunto difícil de digerir, sobretudo pela reflexão que a mesma faz da sociedade presente. A dupla de argumentistas e realizadores Dusty Mancinelli e Madeleine Sims-Fewer fazem a sua estreia nas longas-metragens com Violation, onde Sims-Fewer também protagoniza a obra.

Miriam (Sims-Fewer) decide ir com o seu marido Caleb (Obi Abili) visitar a sua irmã Greta (Anna Maguire) e o seu cunhado Dylan (Jesse LaVercombe), e passar algum tempo com eles. O que Miriam não esperava era ver a sua confiança a ser traída, quando alguém que lhe é próximo decide violentá-la. Os eventos que seguem são de uma mulher a tentar reconciliar com os acontecimentos e o seu ser perante este ataque, como também o da sua vingança.

Não sendo contado de forma linear, Violation re-organiza os eventos antes, durante e depois do feroz ataque à sua humanidade, marcado por um ponto onde absolutamente tudo deu errado, desvendando a dor e as implicações em voltar a tomar o poder. Tudo isto também afecta gravemente Miriam, com a sua vingança a atingi-la de uma forma emocionalmente pessoal. Os maiores monstros nem sempre são desconhecidos, mas aqueles que nos são mais próximos e temos uma ligação.

A sua habilidade de ser explícito o suficiente para que exista uma nuance, permite que a nenhum momento exista um sentimento de ser demasiado, ainda que o tema pese uma tonelada nos ombros. Existe aqui uma partilha do trauma, que nos deixa efectivamente chocados, A retribuição nunca é feita de forma gratuita, muito menos pelo prazer de causar violência, é de certa forma catártico ver esta mulher a passar pelas diversas fases da sua dor e resolver os seus sentimentos de uma forma tão específica; enquanto nós, espectadores, podemos ficar apenas a ver, impotentes, tal como ela naquele momento.

É também um filme que por vezes torna-se difícil de ver, sabendo que a realidade inclui mulheres que também tenham sido violentadas de uma forma semelhante, também por pessoas que elas confiavam. Este não é um ensaio de “olho por um olho”, mas como as acções têm consequências e o que as pessoas são capazes quando levadas ao limite.

É de tirar o chapéu a Madeleine Sims-Fewer e Jesse LaVercombe, que retratam as suas personagens na perfeição, criando o equilíbrio quase perfeito deste ying-yang de mágoa e sofrimento.

Não é frequente haverem estreias em longas-metragens que sejam tão marcantes, mas Violation é um dos mais intensos dos últimos anos, onde a salvação está em libertar o mundo do mal.

Nota Final: 8/10

Violation passou no MOTELX – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, na Quarta-Feira, 8 de Setembro às 23h30 (Cinema São Jorge – Sala 3).

 

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