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Cinema: Crítica – The Assistant

The Assistant é um filme de 2019, mas inédito em Portugal e que vai estrear a 25 de Setembro nos canais TVcine e que se inspira (sem mencionar nomes) no escândalo envolvendo Harvey Weinstein e que abalou Hollywood.

Há certos filmes que têm um propósito muito para lá do mero entretenimento, sendo uma amostra evidente de como o cinema e a realidade acabam por se influenciar e ser um reflexo um do outro. The Assistant (A Assistente, em Portugal) é um dos melhores exemplos disso, acima de tudo por levantar uma temática espelhada num caso polémico que abalou Hollywood e o mundo inteiro. Todas as repercussões que o escândalo envolvendo Harvey Weinstein provocaram, ainda fazem correr muita tinta, com inúmeras vítimas por contar.

A obra aqui presente tenta, sem mencionar nomes ou servir de juiz, transpor a realidade que várias figuras artísticas se deparam no meio competitivo e implacável que é a indústria da sétima arte. Sonhos e ambições embatem num círculo vicioso de práticas extremamente questionáveis e Jane (Julia Garner), a protagonista, é um retrato duro de como toda a hierarquia de pessoas que compõem o meio são afetadas direta ou indiretamente, seja na sua vida pessoal ou profissional, por figuras mal-intencionadas e perversas.

Recorrendo à narrativa em formato slice of life, a obra tem um olhar íntimo e asfixiante no decorrer de um dia, como se de uma testemunha dos acontecimentos o público se tratasse, em tudo aquilo que a jovem aspirante a produtora de cinema irá ter de lidar. Daí que numa primeira instância o filme pareça vazio em conteúdo, quando na prática é bastante rico em substância e na mensagem que quer transmitir. Tudo isto é, sem dúvida, fruto da competência da atuação eximia de Garner, particularmente nos seus maneirismos e na construção progressiva de como transita de uma figura inocente para uma ativa e acaba confrontada com a brutal realidade que lhe rodeia.

É, como referi anteriormente, como se fossemos um observador sigiloso dos acontecimentos intransigentes: onde o drama dá lugar à tensão corporativa ao mais alto nível da chefia. As personagens secundárias não têm muito desenvolvimento, ainda que sirvam de imagem de um sistema deteriorado, pelo poder que emana de cima e corrompe todos aqueles que abaixo se situam. E tal como Jane, com receio de eventuais represálias e perda de oportunidades, num meio demasiado antagonista para alguém sequer desafiar o status quo vigente.

The Assistant

Ao nível técnico, a direção a cargo de Kitty Green, é amplamente simples, porém tem o mérito de entregar uma experiência sonora diferente, pois a forma como os sons são editados não são ao acaso, há todo um conjunto de nuances, especialmente na atmosfera sufocante de um ambiente de escritório, que quer reproduzir. Por outro lado, poderia ter ido mais além no que toca ao desfecho (que não irei elaborar por razões óbvias) levando em consideração toda a construção feita até então, mas acabando por desaguar em algo anti climático.

De uma forma geral, torna-se impossível desassociar The Assistant dos acontecimentos factuais que tiveram e têm lugar em Hollywood e que fizeram surgir uma poderosa causa social em torno das vítimas. Esta obra apresenta-se como mais um exemplo fidedigno de uma vivência, praticamente de resistente, que inúmeras pessoas lidam sistematicamente tal como a protagonista. Embora o fechar da história não seja o mais encorajador, não deixa de ser um filme importante enquanto chamada de alerta e incentivo à mudança de comportamentos, para que a impunidade da indústria deixe de criar severas lesões nas Janes e tantas outras vítimas que se acumulam pelo caminho.

Nota Final: 6/10

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