Cinema: Crítica – Manual da Boa Esposa

Manual da Boa Esposa é um filme com uma premissa familiar, uma sátira às normas de género, temática abordada já inúmeras vezes no cinema. Contudo, o local onde a ação decorre diferencia-o dos restantes. Nos créditos iniciais, somos presenteados com um conjunto de regras que as jovens da época deviam seguir para serem esposas e mães perfeitas. Estas eram enviadas para escolas especializadas em transformá-las em donas de casa exemplares. O filme decorre numa destas escolas que contribuíam para o pensamento arcaico típico da época. Mas, em 1968, a força do movimento libertário feminino e o desejo de emancipação era capaz de superar tudo.

A diretora Paulette Van der Beck (Juliette Binoche) e as professoras Gilberte (Yolande Moreau) e Marie-Thérèse (Noémie Lvovsky) dão as boas-vindas a um novo ano escolar recebendo um grupo de meninas supostamente inocentes e ingénuas. Estas alunas são presenteadas com uma lista de lições a reter, que incluem aulas de limpeza, costura, cozinha, passar a ferro, entre outras, tudo aspetos que uma boa dona de casa tinha de saber fazer. Para estas raparigas, divertirem-se parece ser a última coisa em que podem pensar, mas estamos a falar de jovens pertencentes a uma nova geração rebelde numa França em mudança. Querem explorar a sexualidade e sonham com algo mais do que assentar com um marido não escolhido por elas, sendo que farão tudo para enfrentar a instituição e as mulheres que a gerem.

  Trezes: "A Abóboda", de Alexandre Herculano, na RTP1

No entanto, é interessante notar que Paulette e a sua cunhada Gilberte parecem não seguir à letra as recomendações que elas mesmas apregoam. Gilberte é uma solteirona despreocupada e Paulette uma dona de casa sem qualquer vontade de agradar ao marido. Com o avançar do filme, as restrições impostas às mulheres pela sociedade resultam no principal conflito da película: a bancarrota da escola. O marido de Paulette, que acreditava que as mulheres não tinham os mesmos direitos dos homens, apostou todo o dinheiro do casal, deixando a mulher endividada após a morte deste. Esta independência inesperada desafia as crenças de Paulette relativamente ao amor e fá-la questionar a fundação da escola e os seus princípios.

Neste filme, Provost aprofunda e analisa as vidas de mulheres de meia-idade e não podia ter escolhido um conjunto de atrizes melhor. Binoche, Moreau e Lvovsky acrescentam toques de comédia aos seus desempenhos melodramáticos. Existem algumas personagens masculinas, mas parecem insignificantes ao lado da força e coragem destas mulheres. O elenco mais jovem é igualmente fantástico e é explorado aqui o amor adolescente que se forma entre duas personagens.

Manual da Boa Esposa acaba com um número musical algo aleatório e despropositado, mas não restam dúvidas que o filme possui este lado mais alegre e leve ao longo da sua duração, até à apoteose final com a emancipação feminina.

Nota Final: 6,5/10

Bernardo Serpa

Apaixonado desde sempre pela Sétima Arte e com um entusiasmo pelo gaming, que virou profissão.

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2 Responses

  1. Júlia diz:

    Onde vc conseguiu achar pra ver?

  2. Hugo Jesus diz:

    O filme já foi mostrado à comunicação social portuguesa, e foi assim que conseguimos ver.

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