Cinema: Crítica – Em Zona Cinzenta
Guy Ritchie está de regresso às salas de cinema portuguesas com Em Zona Cinzenta, protagonizado por Eiza González, Henry Cavill e Jake Gyllenhaal.
Guy Ritchie, o celebrado cineasta inglês, chegou a um ponto da sua carreira em que o foco do seu trabalho é o entretenimento como arte, feito de uma forma criativamente livre, regular e completamente à sua vontade na escrita, na produção e, principalmente, na realização. Desde 2023, estreou cinco filmes – contando com um lançado oficialmente em streaming -, todos diferentes e todos recebidos de forma variável pelo público; mas Ritchie está na sua fase mais plena. Dando continuidade ao seu momentum, eis que Em Zona Cinzenta chega às salas portuguesas.
Seguimos a vida de Rachel Wild (Eiza González), uma advogada sem escrúpulos, cuja missão de vida é recuperar dívidas para clientes ricos e poderosos, como é o caso de Spencer Goldstein, que tem um problema: emprestaram um bilião de dólares a Manny Salazar (Carlos Bardem), sem perspectiva de ele devolver os fundos. Com a sua astúcia legal na recuperação de ativos, Rachel junta-se aos seus fiéis ajudantes musculados, Sid (Henry Cavill) e Bronco (Jake Gyllenhaal), numa operação que exige tanto planeamento como delicadeza para cumprir o objetivo da negociação.
É com vários locais lindíssimos pelo mundo, que partilham o charme deste trio, que somos postos na primeira fila de toda a ação, que rapidamente nos explica o que está a acontecer e porquê, ao mesmo tempo que podemos simplesmente relaxar na cadeira, porque toda a ação frenética e os diálogos assim o permitem. Todos os elementos tradicionais de um filme de Guy Ritchie estão presentes, sobretudo na construção das personagens e na montagem, liderada por Martin Walsh (As Ovelhas Detetives) e Jim Weedon, que tornam a experiência familiar, mas há algo um pouco fora da caixa desta vez; Ritchie aparenta explorar o seu lado mais caótico, com uma pitada de Michael Bay à mistura, o que, neste contexto, resulta muito bem.
Ao longo de toda a evolução da narrativa, somos postos na primeira fila para testemunhar como todas as peças do puzzle encaixam, como Rachel é capaz de recuperar o dinheiro devido e como os dois homens, com H grande, fazem acontecer um plano meticuloso. O filme, não querendo ser mais do que exatamente isto, cumpre o que realmente nos vende: entretenimento. Desde o brilhante The Gentlemen – Senhores do Crime, Ritchie não faz um filme para ser memorável, mas sim para simplesmente proporcionar um bom momento, numa espécie de versão premium dos filmes que, na viragem do milénio, acabavam por seguir diretamente para DVD. Há uma qualidade que se mantém, como é expectável, e a verdade é que, fora a guerra em Guy Ritchie’s The Covenant, é tudo puro entretenimento divertido, sem malícia cinematográfica.
Assim, Em Zona Cinzenta pode não ser a próxima derradeira obra-prima de um cineasta cuja carreira é feita à base de personagens dúbias, diálogos memoráveis e uma narrativa intrincada, mas este filme pega em tudo isso e oferece-nos uma obra perfeitamente capaz de satisfazer quem simplesmente quer comer pipocas enquanto vê algo emocionante, podendo ser discutível se Ritchie faz da sua arte uma ciência.
Nota Final: 7/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.




