“A Odisseia”: guia para ver o novo filme de Nolan
A Odisseia (leia aqui a nossa análise ao filme) não é apenas o mais recente filme de Christopher Nolan. É também um marco tecnológico que leva o realizador britânico a ultrapassar os limites da linguagem cinematográfica. Depois de duas décadas a explorar as potencialidades do formato IMAX, Nolan tornou-se no primeiro cineasta da História a filmar uma longa-metragem inteiramente em película IMAX 70 mm, o maior formato alguma vez utilizado em produção comercial.
Existe, porém, um obstáculo importante: menos de quarenta salas de cinema em todo o mundo conseguem projetar esta versão e Portugal não possui nenhuma. Isso significa que o público português verá um filme inferior? Não. Significa apenas que vale a pena compreender as diferenças entre os vários formatos disponíveis para escolher a sala que proporciona a experiência mais próxima da visão do realizador.
Durante muitos anos Christopher Nolan insistiu que o IMAX representava o futuro do cinema.
Primeiro utilizou apenas algumas sequências em filmes como O Cavaleiro das Trevas. Depois aumentou significativamente essa utilização em Interstellar, Dunkirk, Tenet e Oppenheimer. Com A Odisseia deu finalmente o passo que parecia impossível: filmar praticamente todas as cenas utilizando exclusivamente câmaras IMAX 70 mm.
Estamos a falar do maior formato cinematográfico alguma vez utilizado em produção comercial.
A película possui 70 milímetros de largura e corre horizontalmente com quinze perfurações por fotograma (15/70), produzindo uma área de imagem muito superior à do tradicional 35 mm. Quando projetada numa sala preparada para este formato, a imagem ocupa praticamente todo o enorme ecrã IMAX, numa proporção de 1,43:1, oferecendo uma quantidade de imagem vertical visualmente imersiva. É exatamente esta a versão que Christopher Nolan considera definitiva. Infelizmente, menos de quarenta salas em todo o mundo conseguem projetá-la. Portugal não possui nenhuma.
A resposta passa pela própria evolução tecnológica. Os projetores IMAX 70 mm deixaram de ser fabricados há várias décadas. Richard Gelfond, presidente executivo da IMAX Corporation, revelou recentemente que a empresa sobrevive atualmente recuperando e reconstruindo antigos projetores, uma vez que já não existem linhas de produção destes equipamentos.
Apesar do enorme sucesso das reposições de Interstellar, da estreia de Pecadores, de Dune- Duna e da enorme procura por A Odisseia, continuam a existir menos de quarenta salas IMAX 70 mm em funcionamento.
Mesmo nos Estados Unidos existem apenas cerca de vinte e cinco.
Curiosamente, foi precisamente o sucesso recente destes filmes que voltou a despertar o interesse dos exibidores em investir neste formato.
Embora não exista IMAX 70 mm, A Odisseia chegará às salas portuguesas em diversos formatos premium. O negativo original foi digitalizado em resolução extremamente elevada e distribuído através de Digital Cinema Packages (DCP), preparados para diferentes tipos de ecrã.
Entre todas as opções disponíveis em Portugal, o IMAX Laser será, para a maioria dos espectadores, a alternativa mais próxima da experiência idealizada por Christopher Nolan. As salas IMAX dos Cinemas NOS, localizadas no Colombo, CascaiShopping e MAR Shopping Matosinhos, utilizam projeção Laser 4K sobre ecrãs superiores a vinte metros de largura, proporcionando elevados níveis de brilho, contraste e definição.
Ao contrário do que muitos pensam, o IMAX não se resume à dimensão do ecrã. A geometria da sala, o acentuado declive da plateia, a proximidade entre o público e a imagem e a calibração permanente do sistema de som foram concebidos para aumentar a sensação de imersão e garantir uma experiência consistente em praticamente todos os lugares.
A remasterização IMAX (Digital Media Remastering – DMR) otimiza digitalmente cada filme para este formato, procurando preservar o máximo detalhe da fotografia original. No caso de A Odisseia, porém, esse processo é praticamente dispensado: como o filme foi captado integralmente em câmaras IMAX, a digitalização do negativo é convertida diretamente para os ficheiros de projeção digital, reduzindo a necessidade de processamento adicional.
O sistema de som proprietário da IMAX é permanentemente calibrado e distribuído de forma uniforme por toda a sala, garantindo que todos os lugares oferecem uma experiência semelhante.
Outro elemento diferenciador é a arquitetura da sala. O elevado declive da plateia aproxima visualmente o público do ecrã, aumentando a sensação de imersão.
Será, para muitos espectadores portugueses, a escolha natural para A Odisseia.
Muitos espectadores perguntam-se porque motivo uma sala convencional não pode simplesmente projetar a versão IMAX de A Odisseia. A resposta passa por um conjunto de limitações técnicas, arquitetónicas e comerciais.
À primeira vista, muitos espectadores pensam que bastaria projetar a imagem “mais quadrada” do IMAX numa sala convencional. Afinal, o cinema começou precisamente com um formato muito semelhante. Durante a era do cinema mudo, o formato 1,33:1 era praticamente um quadrado e dominou a indústria durante décadas.
Mas a comparação termina aí!
Os filmes IMAX não recuperam esse formato por nostalgia. Utilizam uma imagem mais alta porque foram concebidos para enormes ecrãs verticais, alguns com mais de vinte metros de altura, capazes de preencher praticamente todo o campo de visão do espectador. Numa sala convencional, cujo ecrã é muito mais largo do que alto, projetar essa mesma imagem significaria desperdiçar grande parte da superfície disponível ou reduzir significativamente a dimensão da projeção.
Foi precisamente por esse motivo que, ao longo da história do cinema, nasceram formatos panorâmicos como o CinemaScope (2,35:1 e mais tarde 2,39:1), capazes de aproveitar melhor os ecrãs largos construídos desde os anos 50. Atualmente, a esmagadora maioria das salas continua a utilizar essa geometria como base dos seus ecrãs.
O IMAX é mais do que uma proporção de imagem. É um sistema completo, protegido por licenciamento (bastante dispendioso!), que integra câmaras, pós-produção, projeção, som e arquitetura da sala. A certificação garante que a imagem, o brilho, o contraste, a potência luminosa e a reprodução sonora cumprem padrões muito específicos. Assim, não basta disponibilizar a versão IMAX a qualquer cinema, porque uma sala convencional não conseguiria assumir as responsabilidades de qualidade que a marca implica.

As opções Premium para ver A Odisseia:
No NorteShopping encontra a sala XL Vision, a evolução do conceito XVision. Mantém a projeção Laser 4K de elevado contraste, mas associa-a a um ecrã ainda maior e ao sistema Dolby Atmos. O resultado é uma excelente combinação entre dimensão, brilho, contraste e envolvência sonora.
Embora não utilize a tecnologia IMAX, oferece uma experiência visual extremamente próxima das melhores salas premium internacionais.
As salas XVision (NOS Amoreiras e MAR Shopping Algarve) apostam na qualidade pura da imagem. Utilizam projeção Laser 4K de elevado contraste, proporcionando pretos mais profundos, maior estabilidade de brilho durante toda a sessão e uma reprodução cromática particularmente fiel. O sistema Dolby Atmos acrescenta uma componente sonora extremamente envolvente.
Para muitos filmes, especialmente aqueles cuja fotografia privilegia o contraste e a subtileza visual, poderá ser uma alternativa tão interessante quanto o IMAX.
As salas XL da UCI distinguem-se sobretudo pela dimensão dos ecrãs e pelo conforto. A sala XL do UCI Arrábida foi recentemente renovada, passando a utilizar um ecrã Harkness de última geração e cadeiras Euroseating em pele.
Embora não recorram a marcas tecnológicas como IMAX ou XVision, estas salas continuam a oferecer excelentes condições para grandes produções cinematográficas.
O 4DX (NOS GaiaShopping e Almada Fórum) é provavelmente o formato mais diferente de todos: aqui, o objetivo não é apenas mostrar o filme. É fazê-lo sentir! As cadeiras movimentam-se em sincronização com a ação e a sala dispõe de mais de vinte efeitos físicos, incluindo vento, chuva, nevoeiro, relâmpagos, aromas, vibrações e bolhas.
Durante uma tempestade marítima, o público poderá sentir o vento e a água. Num combate naval, as cadeiras acompanham os impactos.
É uma experiência mais próxima de uma atração temática do que da exibição cinematográfica tradicional. Alguns espectadores adoram-na. Outros preferem uma sessão mais clássica.
Nas salas digitais convencionais, A Odisseia será exibido em formato Flat (1,85:1) ou Scope (2,39:1), consoante a proporção nativa do ecrã de cada sala, garantindo o melhor aproveitamento da superfície de projeção. No caso das salas Flat, a diferença relativamente ao enquadramento do IMAX Laser (1,90:1) é mínima, uma vez que ambos os formatos apresentam uma altura de imagem muito semelhante. Na prática, essa variação é quase impercetível para a maioria dos espectadores. Por isso, quando uma sala convencional dispõe de projeção laser de elevada qualidade, ou Xenon 4K, um ecrã de grandes dimensões e um sistema de som de referência, a experiência visual pode aproximar-se bastante da oferecida por uma sala IMAX digital.
Portugal não recebeu cópias de A Odisseia em película de 35 mm. Embora ainda existam projetores analógicos operacionais em algumas salas nacionais e equipados com lentes de alta definição, a distribuição do filme não contemplou o nosso país com este formato. Numa projeção em 35 mm, o filme seria apresentado em formato Scope (2,39:1), acompanhado por sistemas de som Dolby Digital ou DTS.
Afinal, qual é a diferença entre os formatos da imagem?
Apesar de existirem várias proporções de imagem, isso não significa que existam diferentes versões de A Odisseia. O filme é exatamente o mesmo em todas as salas. O que muda é apenas o enquadramento, adaptado às características de cada ecrã.
A versão IMAX 70 mm apresenta toda a imagem captada pelas câmaras de Nolan, na proporção de 1,43:1. O IMAX Laser preserva grande parte dessa altura adicional, utilizando normalmente o formato 1,90:1. As salas convencionais privilegiam a largura da imagem em detrimento da informação vertical.
A página oficial revela um trailer configurável para os diferentes formatos de exibição.
Enquanto a qualidade da imagem costuma ser o primeiro aspeto valorizado pelo público, o som representa metade da experiência cinematográfica. É precisamente aí que entra o Dolby Atmos, disponível em algumas salas de cinema em Portugal.
Ao contrário dos sistemas surround convencionais, que distribuem o áudio por canais fixos, o Dolby Atmos trata cada efeito sonoro como um objeto independente. Durante a pós-produção, o realizador define apenas a posição desse objeto no espaço tridimensional e, na sala de cinema, um processador calcula em tempo real quais as colunas que o devem reproduzir. Como existem também colunas instaladas no teto, o resultado é uma autêntica cúpula sonora. Uma flecha pode atravessar a sala sobre a cabeça do público, uma tempestade parece envolver completamente o espectador e o voo de uma ave pode ser seguido com precisão de um extremo ao outro da sala.
Ao longo da carreira, Christopher Nolan foi frequentemente criticado pela mistura sonora dos seus filmes. Em O Cavaleiro das Trevas Renasce, Interstellar, Tenet ou Oppenheimer, muitos espectadores consideraram que os diálogos eram por vezes difíceis de compreender.
Parte dessa dificuldade estava relacionada com as câmaras IMAX utilizadas, extremamente ruidosas, que complicavam a captação de som direto. Como Nolan privilegia o áudio gravado durante as filmagens e evita recorrer intensivamente à dobragem em estúdio (ADR), a mistura final acabava por favorecer a música e os efeitos sonoros.
Para A Odisseia, a IMAX desenvolveu uma nova geração de câmaras significativamente mais silenciosas. Essa evolução permitiu captar diálogos com muito maior clareza, resolvendo um dos principais desafios técnicos da filmografia do realizador.
Christopher Nolan encara o som como parte integrante da narrativa. Não pretende apenas que o público o ouça, mas que o sinta fisicamente.
Em Dunkirk, a intensidade sonora foi tão elevada que algumas salas IMAX relataram um desgaste anormal dos sistemas de som após dias de exibição.
Para A Odisseia, o realizador volta a recomendar que o filme seja exibido ao nível de referência, sem reduzir artificialmente o volume de som. Isso significa que tempestades, batalhas e a banda sonora de Ludwig Göransson terão um impacto físico ainda maior, explorando toda a capacidade dinâmica dos sistemas Dolby Atmos e IMAX.
No final, a escolha da sala dependerá sempre daquilo que cada espectador procura. Quem privilegia a escala da imagem encontrará no IMAX Laser a opção mais próxima da visão de Christopher Nolan. Quem valoriza o equilíbrio entre imagem e som poderá optar pelas salas NOS XL Vision ou XVision, enquanto as salas XL da UCI oferecem uma experiência confortável em grandes ecrãs. Já o 4DX dirige-se a quem pretende transformar a sessão numa experiência sensorial, recorrendo ao movimento das cadeiras e aos efeitos ambientais.
Independentemente da escolha, uma certeza permanece!
A Odisseia foi concebido para ser visto numa sala de cinema.
Num tempo em que grande parte dos filmes é consumida em casa, Christopher Nolan continua a defender que algumas histórias só revelam toda a sua dimensão perante um grande ecrã, envolvidas por uma imagem de enorme escala e por um som pensado para ocupar cada centímetro da sala. É precisamente essa experiência coletiva que o realizador pretende preservar e que continua a distinguir o cinema de qualquer outro meio de exibição.
Talvez seja essa a razão pela qual A Odisseia se tornou um verdadeiro acontecimento antes mesmo de chegar às salas. Em vários países, os bilhetes para as raras projeções em IMAX 70 mm esgotaram com meses de antecedência, levando muitos espectadores a percorrer longas distâncias para assistir ao filme. Não se trata apenas de evitar perder um fenómeno mediático, mas da oportunidade de viver uma obra pensada para explorar todas as possibilidades do cinema, da imagem ao som, num momento que muitos acreditam ser irrepetível.
Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.











