Análise BD: Jardim dos Espectros
A reedição de Jardim dos Espectros, da autoria de Fábio Viegas, publicada pela primeira vez em 2018, é mais do que a oportunidade de ler uma obra de BD aclamada de um autor nacional.
Para quem se permite a ter um dado reconhecimento do potencial das histórias de carácter sobrenatural, na influência das lendas e dos contos populares, para além da designada «mitologia portuguesa» que evoca um tempo de outrora, quando a magia era real, sentirá uma profunda expressão cultural maior que se consolida e se manifesta através de uma narrativa ficcional que em si também é uma conciliação com pura lenda e tradição.
Alguns dirão que o Jardim dos Espectros é uma história de horror, enquanto outros dirão que é algo de fantástico, mas vários leitores sentir-se-ão conduzidos pelo poder de uma história que atravessa ambos os géneros sem que, todavia, deixe de ser o que já reconhecemos nalgumas obras de autores portugueses reconhecidos, como Raúl Brandão, Agustina Bessa-Luís e Sophia de Mello Breyner: É justo dizer, de forma sucinta, que se trata de um valioso conto, estruturalmente simbólico. Mistério e contemplação são duas palavras-chave para descrever esta passagem por um jardim cujas árvores altas surgem num cenário que detém algo de feérico.
Mas em si, o Jardim dos Espectros é também um cemitério, onde centenas de mortos da povoação de Núvia vogam e se manifestam como parte de um conjunto de acontecimentos estranhos que mantém as pessoas à distância e sobre o qual se acredita pesar uma maldição que impede os que lá entram de voltar a sair ou pisar novamente o mundo dos vivos.
Trilhar florestas e jardins já foi reconhecido como uma jornada de ordem mística e espiritual no passado, onde se dão os eventos mágicos e insólitos que fazem parte de mitos universais que expõem um trilho incerto para heróis e personagens que atravessam diferentes mundos, com um dado principio de carácter iniciático. Quem atravessa determinados lugares nunca mais volta a ser o mesmo; talvez não volte mais a ser visto.
Os segredos que encerram certos lugares jamais voltarão a ser inteiramente conhecidos deste mundo, principalmente para quem vive nas barreiras de uma certa opacidade existencial, sem alma. A profundidade da história irrompe essa tendência, mesmo que a presença dos cidadãos de Núvia ante um Forasteiro (aquele que se atreve a viajar pelo seu jardim misterioso que mantém vivos ecos de um passado que poucos querem conhecer), funcionem como alegoria desse estado.
É estado que assinala o tabu, o receio, a discriminação, a ignorância, o esquecimento ou o afastamento das pessoas comuns dos locais mágicos — Que ainda existem neste país, ainda que olvidados ou reconhecidos apenas através do imaginário da lenda ou da superstição a que muitos foram votados, descritos meramente como assombrados ou locais de pertença do Diabo.
É sempre um tanto peculiar ler o Jardim dos Espectros em épocas que o nosso país passa pelo fenómeno de incêndios devastadores que nenhuma autoridade parece ser capaz de prevenir ou controlar. Deste modo também se perde o contacto com outra dimensão, que é assinalada pela presença das árvores, que também são guardiãs da memória de um outro «reino» que este país já o foi, cada vez mais desconhecido das novas gerações.
É de se questionar se essa antevisão não marca as próprias ideias do autor, ainda que esta seja uma história baseada na ideia de culpa e redenção, algo que o Forasteiro procura neste jardim, que nunca o deixa fugir do seu próprio passado. Jardim dos Espectros, felizmente, é atemporal, não sendo permitido reconhecer com exatidão em que época se situa, embora evoque um tempo remoto, possivelmente de há vários séculos atrás.
Através de mais de 60 páginas a preto e branco, o traço expressivo de Fábio Veras combina com minúcia o realismo com alguma estilização, dando valor à carga emocional das suas personagens e à importância dos ambientes ou cenários tradutores da carga ora introspetiva ora dramática que se cruzam com as linhas do soturno, do agreste e da aparente quietude insólita que caracterizam paisagisticamente o seu extenso jardim, repleto de sombras e árvores.
A clareza da narrativa, coerente com a expressiva atmosfera das cenas que recorrem ao contraste, às sombras e às texturas para criar profundidade e viva intensidade visual, foi cuidada para manter o leitor imerso e expectante em relação aos segredos de Núvia, difíceis de serem prontamente esclarecidos. Publicada pela Escorpião Azul, não deixará de ser uma obra altamente recomendada.

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural




